
Izabelle Gama (Acadêmica do 3° semestre de Relações Internacionais da Unama)
O livro “After Hegemony: Cooperation and Discord in the World Political Economy”, de Robert Keohane, publicado em 1984, é uma obra influente das Relações Internacionais contemporâneas. O teórico é um dos principais expoentes do institucionalismo neoliberal, escrevendo em um contexto marcado pelo declínio relativo da hegemonia dos Estados Unidos e pela crise da ordem econômica internacional construída no pós-Segunda Guerra Mundial. Seu objetivo central é responder a uma questão fundamental: é possível haver cooperação internacional sem uma potência hegemônica dominante? Ao longo da obra, o autor propõe uma abordagem baseada no papel das instituições internacionais.
Na primeira parte do livro, Keohane (1984)estabelece os conceitos fundamentais que sustentam sua análise, ele aceita que os Estados são os principais atores do Sistema Internacional, que atuam de forma racional e buscam maximizar seus interesses em um ambiente anárquico. No entanto, o autor questiona a conclusão realista de que a anarquia impede a cooperação. Para Keohane (1984), o problema central não é a impossibilidade da cooperação, mas as condições sob as quais ela ocorre. Neste sentido, ele define cooperação não como ausência de conflito, mas como um processo de ajuste mútuo de políticas entre Estados cujos interesses são parcialmente divergentes.
Ainda nessa seção inicial, Keohane (1984) analisa a relação entre política e economia internacional, destacando o papel da interdependência. Longe de gerar harmonia, a interdependência produz vulnerabilidades e externalidades, já que decisões domésticas impactam outros países. Este cenário cria tanto conflitos quanto incentivos à coordenação, tornando necessária a existência de regras que organizem as interações entre os Estados.
No que se refere à hegemonia, o autor dialoga criticamente com a Teoria da Estabilidade Hegemônica. Keohane (1984) reconhece que uma potência dominante pode facilitar a cooperação ao fornecer bens públicos, como estabilidade monetária e abertura comercial. Contudo, argumenta que a hegemonia não é condição necessária nem suficiente para a cooperação, já que uma vez criados, os regimes internacionais tendem a persistir, pois sua manutenção é menos custosa do que sua reconstrução.
Na segunda parte da obra, Keohane (1984) desenvolve uma teoria da cooperação baseada na escolha racional e em explicações funcionais. Inspirando-se na teoria dos jogos, especialmente no modelo do dilema do prisioneiro, demonstra que, em situações de interação estratégica, atores racionais podem falhar em cooperar mesmo quando a cooperação seria mutuamente benéfica. Este resultado decorre de problemas estruturais como a desconfiança, a falta de informação e o risco de comportamento oportunista. Assim, o fracasso da cooperação não se explica apenas por interesses incompatíveis, mas por falhas no ambiente em que as interações ocorrem.
É nesse contexto que os regimes internacionais assumem papel central. Definidos como conjuntos de princípios, normas, regras e procedimentos de tomada de decisão, os regimes funcionam como mecanismos institucionais que reduzem custos de transação, aumentam a transparência e estruturam as interações entre os Estados. Ao fornecer informação, monitorar comportamentos e facilitar negociações, os regimes tornam a cooperação mais viável em um sistema internacional descentralizado.
Um ponto fundamental dessa análise é a ideia de que Estados são racionalmente egoístas, mas operam em contextos de interações repetidas. Isso significa que a reputação, a reciprocidade e a expectativa de ganhos futuros incentivam comportamentos cooperativos. Assim, a reputação funciona como um mecanismo central de coordenação na ausência de uma autoridade global.
Keohane (1984) também introduz o conceito de racionalidade limitada, argumentando que os Estados não possuem informação completa nem capacidade perfeita de cálculo. Neste sentido, os regimes internacionais funcionam como forma de orientar decisões e reduzir incertezas. Além disto, sugere que os interesses dos Estados podem ser redefinidos ao longo do tempo, influenciados pelas próprias interações institucionais.
Na terceira parte do livro, Keohane (1984) aplica sua estrutura teórica a casos empíricos, com destaque para a cooperação no pós-guerra. Ele analisa como os Estados Unidos desempenharam um papel central na criação de regimes internacionais nas áreas monetária e comercial, utilizando seu poder para estruturar regras e instituições. Contudo, esta cooperação não foi resultado de altruísmo, mas de uma convergência entre interesses nacionais e estabilidade sistêmica, evidenciando a combinação entre poder e instituições.
Ao examinar o declínio da hegemonia norte americana, Keohane (1984) demonstra que os regimes internacionais não desapareceram, mas se transformaram. No sistema monetário, por exemplo, o fim de Bretton Woods levou à flexibilização das regras, mas não ao colapso da cooperação. No comércio, o General Agreement on Tariffs and Trade (GATT) continuou operando apesar do aumento do protecionismo. Estes casos indicam que os regimes possuem uma certa capacidade de persistência, mesmo diante de mudanças na distribuição de poder.
O caso do petróleo é particularmente relevante para a análise do teórico neoliberal. Diferentemente dos regimes monetário e comercial, o regime do petróleo sofreu uma ruptura mais profunda com a ascensão dos países produtores e a criação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Ainda assim, novas formas de cooperação emergiram, como a criação da Agência Internacional de Energia (IEA), que passou a coordenar políticas entre países consumidores, ainda que de maneira limitada.
Na última parte, Keohane (1984) discute o valor das instituições internacionais e os custos da flexibilidade. O autor argumenta que a cooperação exige compromissos que limitam a autonomia dos Estados, mas que a busca excessiva por flexibilidade pode comprometer a previsibilidade e a confiança necessárias para a coordenação. Assim, regimes internacionais são entendidos como investimentos estratégicos que, embora imperfeitos, aumentam a estabilidade das relações internacionais ao longo do tempo.
Por fim, Keohane (1984) aborda a dimensão ética da cooperação internacional, reconhecendo que os regimes existentes são imperfeitos e frequentemente favorecem países mais desenvolvidos. No entanto, ele argumenta que, apesar de suas limitações, essas instituições são preferíveis à ausência de cooperação, devendo ser reformadas em vez de abandonadas.
Em um cenário internacional marcado pela multipolaridade, pelo enfraquecimento da liderança americana e pelo aumento das tensões geopolíticas, a análise de Robert Keohane ajuda a compreender por que a cooperação internacional continua existindo, ainda que de forma imperfeita. Questões como mudanças climáticas, segurança energética e governança econômica global demonstram que, mesmo sem hegemonia clara, os Estados ainda dependem de instituições para coordenar suas ações. Assim, a obra “After Hegemony” não apenas explica o passado, mas oferece ferramentas analíticas essenciais para interpretar o presente e pensar o futuro do Sistema Internacional.
Referência
KEOHANE, Robert O. After Hegemony: cooperationand discord in the world political economy. Princeton: Princeton University Press, 1984.
