Ícaro Santos – 5° Semestre

Desde 28 de fevereiro de 2026, com a retomada da ofensiva israelense-estadunidense contra a República Islâmica do Irã, resultando no assassinato do Líder Supremo, o aiatolá Ali Khamenei, e de ao menos 6 mil pessoas, incluindo centenas de crianças (AL JAZEERA, 2026), bem como em um ataque estadunidense internacionalmente denunciado contra uma escola infantil, o conflito escalou para uma guerra aberta de caráter missilístico e aéreo contra os ativos da coalizão e seus aliados. Além disso, houve o bloqueio, por parte do Irã, do Estreito de Hormuz, que conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico e é responsável pelo trânsito de aproximadamente 25% do petróleo consumido internacionalmente, produzido pelas petromonarquias árabes (REUTERS, 2026).

A agressão, além de representar a continuidade das hostilidades históricas entre Irã, Estados Unidos e Israel, especialmente em continuidade à Guerra dos 12 Dias de 2025, também representa um ponto nodal na região da Ásia Ocidental. O Irã passou a utilizar uma estratégia de guerra assimétrica, buscando atingir seus adversários naquilo que considera seu centro de gravidade: a economia, por meio do fechamento do Estreito de Hormuz, com o objetivo de pressionar a economia global e tornar a guerra domesticamente insustentável para os agressores.

A estratégia iraniana não se baseou na ocupação do território inimigo, mas sim na reorganização e no desgaste político-econômico do sistema de hegemonia dos Estados Unidos no Golfo Pérsico, minando os laços com as petromonarquias dependentes (REUTERS, 2026). Nesse sistema, em troca da exclusividade do comércio de hidrocarbonetos em dólares, os Estados Unidos garantiram a segurança e a estabilidade desses Estados. Em contrapartida, tais atores passaram a sofrer ataques contra bases estadunidenses instaladas em seus territórios, bem como contra suas infraestruturas petrolíferas, pressionando-os a reavaliar os ganhos políticos de sua aliança.

O fechamento do Estreito de Hormuz, seguido dos ataques, provocou um aumento do preço do petróleo em 55%, alcançando até US$ 120 por barril ao final de abril (CNBC, 2026), aproximando-se do risco concreto de uma crise generalizada do sistema capitalista. Esse processo já gerou reverberações nas associações internacionais de cartel, como a saída dos Emirados Árabes Unidos da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP e OPEP+) com o objetivo de expandir sua produção sem limitações (BBC, 2026).

Para a teoria marxista e suas diversas aplicações às Relações Internacionais, é consenso que o capitalismo possui como prioridade a expansão do próprio capital por meio dos processos de produção, distribuição e consumo. Como expõe Marx (2013), o capital-mercadoria possui um duplo caráter: valor de uso e valor de troca. No capitalismo, onde o valor de troca domina a produção, a mercadoria somente realiza seu ciclo enquanto capital — isto é, enquanto valor que gera valor — ao concretizar seu “salto mortal” mediante a venda; caso isso não ocorra, ameaça-se toda a produção de paralisia. Assim, o bloqueio marítimo do Estreito de Hormuz impede exatamente esse ciclo de realização do petróleo enquanto mercadoria, o que se soma à própria característica do petróleo como combustível e matéria-prima essencial da indústria moderna.

A partir da análise marxiana da produção capitalista, Vladimir I. Lênin, considerado o principal continuador do marxismo, desenvolveu, em Imperialismo: estágio superior do capitalismo (2012), a interpretação de que, em determinados países onde se estabelecem monopólios econômicos em razão do desenvolvimento produtivo e da fusão entre capital industrial e bancário em capital financeiro, as fronteiras nacionais tornam-se insuficientes para a expansão do capital. Isso força sua expansão para outros mercados, nos quais a força de trabalho e as matérias-primas são mais baratas, mediante mecanismos como a oferta de crédito a juros elevados, a exploração de matérias-primas destinadas ao refino nas indústrias do país explorador e os processos de privatização, entre outros exemplos.

Ao mesmo tempo, os Estados que alcançaram tal estágio alternam entre a formação de blocos e associações e o conflito militar em virtude da disputa pela partilha global de mercados e pontos estratégicos. Quando uma sociedade não aceita passivamente a lógica do sistema, desencadeiam-se aparatos de coerção diplomática, econômica e, como no conflito atual, militar.

Para o economista neomarxista franco-egípcio Samir Amin (1976), o fenômeno do subdesenvolvimento e da dependência deve ser compreendido como fruto dos processos violentos emanados do centro do capitalismo, ainda que iniciados antes da hegemonia plena desse sistema.

Amin analisa como o processo de transformação do Oriente em periferia ocorreu após fenômenos semelhantes na América e na África, em meados do século XIX. Além disso, demonstra como regiões como a China e o próprio Irã escaparam da dominação formal direta das potências imperialistas, embora tenham mantido características comuns às sociedades exploradas, como o surgimento de um capitalismo agrário dependente, de uma burguesia compradora local e de um desenvolvimento produtivo burocrático (BORGES, 2025).

Tais fenômenos podem ser observados ao longo da história iraniana, desde a disputa entre Rússia e Grã-Bretanha pelo controle do país até a dominação econômica anglo-americana sobre o petróleo iraniano, em conjunto com a oposição ao governo nacionalista de Mohammad Mossadegh e o apoio à ditadura do Xá (KINZER, 2004). Essas interferências produziram o contexto que gestou a Revolução Islâmica de 1979, a qual, ainda que seja objeto de debates no interior do marxismo acerca de seu caráter, constitui inequivocamente um movimento de oposição à dominação tradicional do Ocidente sobre a vida nacional iraniana.

Com o processo revolucionário, o Irã rompeu — ou foi expulso dos paradigmas tradicionais de exploração econômica do bloco imperialista hegemônico representado pelos Estados Unidos, uma vez que as principais bandeiras econômicas da revolução consistiam na nacionalização da indústria petrolífera e na busca por um desenvolvimento econômico autônomo.

Nas Relações Internacionais, o Irã procurou afastar-se das potências tradicionais, como Estados Unidos e União Soviética. Apenas a partir da ascensão do protagonismo chinês o país buscou aproximar-se da China como forma de garantir um aliado não hegemônico para seu desenvolvimento econômico. Cabe destacar que uma das razões do conflito atual reside, por parte do Irã, na oposição ao paradigma geopolítico vigente na Ásia Ocidental, identificando Israel como seu principal opositor, tanto em razão de suas relações econômicas e estratégicas com os Estados Unidos quanto em função de sua prática política colonialista e intervencionista em relação aos demais povos da região. Soma-se a isso a insatisfação iraniana com a aproximação entre Estados árabes, Israel e Estados Unidos, interpretados por Teerã como garantidores do sistema hegemônico estadunidense. Diante disso, a República Islâmica passou a apoiar política e militarmente grupos que se opõem à presença israelense e estadunidense na região, como o Hezbollah, no Líbano; grupos de libertação palestinos; o Ansarallah no Iêmen; e milícias xiitas no Iraque.

Compreende-se, portanto, a questão do Estreito de Hormuz não apenas como um episódio militar de um conflito regional, mas também como uma luta contra a imposição de um modelo favorável à exploração capitalista do Irã e da região, bem como uma oposição ao subdesenvolvimento e à dependência estruturalmente produzidos pelo imperialismo.

Referências:

AMIN, Samir. Unequal development: an essay on the social formations of peripheral capitalism. Sussex: Harvester Press, 1976.

BBC. Emirados Árabes Unidos deixam a OPEP+ para ampliar produção de petróleo. BBC News, 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cze25r4e079o. Acesso em 5 maio. 2026

BORGES, Thais Vitória. Pensamentos internacionalistas: Samir Amin e a formação das periferias no sistema internacional contemporâneo. Internacional da Amazônia, 2025. Disponível em: Internacional da Amazônia. Acesso em: 5 maio 2026.

CNBC. A timeline of how the Iran war shook oil prices — and what comes next. CNBC, 2026. Disponível em: CNBC – Iran war oil prices. Acesso em: 7 maio 2026.

KINZER, Stephen. Todos os homens do xá: um golpe americano e as raízes do terror no Oriente Médio. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.

LÊNIN, Vladimir Ilich. Imperialismo: estágio superior do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2012. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.

NAKHOUL, Samia. Iran unleashes oil shock to blunt US firepower. Reuters, 2026. Disponível em: Reuters – Iran unleashes oil shock. Acesso em: 6 maio 2026.

REUTERS. How many people have been killed in the Iran war? Reuters, 2026. Disponível em: Reuters – Iran war deaths. Acesso em: 6 maio 2026.

US-ISRAEL attacks on Iran: death toll and injuries live tracker. Al Jazeera, 2026. Disponível em: Al Jazeera – Iran attacks tracker. Acesso em: 6 maio 2026.