
Rodrigo Lobato dos Prazeres (acadêmico do 7 semestre de R.I UNAMA)
Valentina Medeiros Rosas Samuelsson (acadêmica do 1 semestre de R.I UNAMA)
Na região amazônica, a atuação das missões religiosas durante o período colonial desempenhou papel fundamental no processo de ocupação e consolidação do domínio português. Os jesuítas e carmelitas foram agentes importantes nesse contexto, utilizando a catequese e a organização dos aldeamentos indígenas como instrumentos de expansão territorial, de controle social e de fortalecimento da presença da Coroa na Amazônia.
Dessa forma, torna-se necessário compreender como essas ordens religiosas influenciaram a formação social, cultural e política da região, bem como os impactos de suas ações sobre os povos indígenas e sobre a construção das fronteiras coloniais no Grão-Pará.
A Coroa Portuguesa e a Igreja utilizavam as missões dos jesuítas e carmelitas como formas de expandir seu domínio na colônia brasileira. Essas missões visavam à conquista cultural e ao controle da força de trabalho indígena de maneira diferente daquela praticada pelos bandeirantes, focando na catequese.Os aldeamentos tinham como principal objetivo ser uma linha de defesa estratégica contra o avanço espanhol.
Diante disso, a Igreja exercia o papel de uma das principais gestoras do capital humano e extrativista da colônia, conforme analisa Rafael Chambouleyron (2010). Os religiosos buscavam evangelizar os povos indígenas sob o pretexto de levar um “conhecimento certo” que os libertaria. Entretanto, o objetivo não era apenas religioso, mas sim estabelecer uma infraestrutura econômica baseada no trabalho nativo.
Olhando especificamente para a região do Grão-Pará, Chambouleyron (2010) alega que as missões funcionavam como pontos de controle para a coleta das “drogas do sertão”. Essa atividade dependia diretamente do manejo da mão de obra indígena, administrada pelas ordens religiosas que advinham do regime de Padroado. Desse modo, o autor explica que a disputa entre colonos e jesuítas era, no fundo, um embate pelo controle do mercado de trabalho amazônico.
Assim, é correto dizer que Portugal e o padroado criaram uma espécie de “muralhas humanas” por meio das missões carmelitas e jesuítas. Esses grupos eram os responsáveis por expandir e segurar as fronteiras da colônia. Apesar de compartilharem essa função de controle, é correto afirmar que as diferentes ordens religiosas divergiam em suas estratégias e objetivos principais.
Márcio Meira (2018), explica como as missões jesuítas focavam na organização interna e na educação rígida dos povos indígenas. Por outro lado, os Carmelitas atuavam como uma força flexível e estratégica nas fronteiras coloniais, visto que eles serviam como vigias da Coroa onde o exército oficial não conseguia chegar e avançavam até os limites das terras espanholas no Alto Solimões e no Rio Negro.
Além da questão territorial, as missões também foram responsáveis por desenhar uma fronteira étnica na região. De acordo com João Pacheco de Oliveira (1998), esse processo pode ser entendido por meio do conceito de “territorialização”, visto que, ao reunir diferentes povos indígenas em um mesmo espaço administrativo, as ordens forçavam os nativos a abandonarem suas identidades originais e seguirem o que era ditado pelos colonizadores.
Assim, grupos heterogêneos eram obrigados a conviver sob as regras dos padres, e em alguns casos, rivalidades entre grupos eram ignoradas pelos colonizadores e todos eram obrigados a viver sob o mesmo teto. Dessa forma, essa convivência forçada transformava a grande diversidade das tribos em um grande grupo homogêneo e genérico de “índios aldeados”. Tratava-se de um modelo eficaz, pois essa homogeneização cultural facilitava o controle do governo colonial sobre a população nativa.
Outra ferramenta fundamental para a consolidação dessa fronteira e controle cultural foi a criação e imposição de uma Língua Geral. Neide Gondim (2007), explica que a linguagem foi utilizada pelas missões como um forte instrumento de poder para tornar a Amazônia legível ao colonizador. Dessa forma, os missionários criaram uma língua comum, baseada no Tupi, para facilitar a catequese e as ordens administrativas no cotidiano do Grão-Pará.
Entretanto, essa unificação linguística trazia consequências graves para a sobrevivência dos povos originários. Ao mesmo tempo em que a Língua Geral permitia a comunicação em toda a fronteira, ela acabava apagando os idiomas locais de cada etnia. Dessa forma, as tribos tinham dificuldades em manter as barreiras de resistência cultural que usavam para manter suas tradições e autonomias frente aos portugueses.
Apesar da estrutura de dominação cultural que existia, é correto dizer que os povos indígenas não aceitavam as regras das missões de forma totalmente passiva. Conforme explica John Manuel Monteiro (1999), os indígenas detinham de um conhecimento político e sabiam algumas maneiras de usar o sistema colonial a seu favor. Por isso, entrar para um aldeamento jesuíta ou carmelita era uma escolha altamente estratégica das lideranças em alguns casos.
Diante do perigo das chamadas “tropas de resgate” e da escravidão violenta promovida pelos colonos, os aldeamentos representavam uma proteção jurídica garantida pelas leis da Igreja. Assim, os povos originários utilizavam o espaço dado por padres como uma espécie de refúgio para garantir a sua sobrevivência e de seu grupo. Dessa forma, eles acabavam negociando a sua força de trabalho e se adaptando às regras coloniais conforme suas necessidades.
Portanto, é possível concluir que as missões jesuítas e carmelitas tiveram grande relevância na ocupação colonial da Amazônia, atuando não apenas no campo religioso, mas também como mecanismos de controle político, econômico e territorial da Coroa Portuguesa.
Ao mesmo tempo em que ofereciam certa proteção aos povos indígenas diante da violência colonial, também contribuíam para processos de catequização, imposição cultural e reorganização das comunidades nativas conforme os interesses portugueses. Assim, a atuação dessas ordens religiosas deixou marcas profundas na formação histórica da Amazônia, evidenciando as contradições existentes entre evangelização, dominação colonial e resistência indígena.
A partir da leitura do texto, indica-se o filme “A missão”, que retrata a atuação dos jesuítas na América do Sul durante o período colonial, especialmente nas missões junto aos povos indígenas guaranis. A obra cinematográfica foi dirigida por Roland Joffé e está disponível na plataforma de streaming Prime Vídeo.
Ademais, sugere-se a visita ao Museu de Arte Sacra do Pará (Belém), localizado na antiga Igreja e Colégio de Santo Alexandre (jesuíta). O local abriga um dos acervos mais importantes de arte barroca e missionária da Amazônia.
Endereço: Praça Frei Brandão, s/n – Cidade Velha, Belém – PA, 66020-240
Por fim, recomenda-se o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), vinculado ao Ministério da Cultura, criado em 1937, responsável pela preservação, fiscalização e valorização do patrimônio cultural brasileiro, que desenvolve pesquisas ligados às missões religiosas jesuíticas e carmelitas no Brasil.
Site: < http://portal.iphan.gov.br/ >.
Instagram: < https://www.instagram.com/iphangovbr?igsh=ZmtvZzBhMHRxdDIy >.
Facebook: < https://www.facebook.com/share/14a2JXvdNgQ/ >.
Referências Bibliográficas
CHAMBOULEYRON, Rafael. Povoamento, ocupação e agricultura na Amazônia colonial (1640-1706). Belém: Ed. Açaí; Programa de Pós-graduação em História Social da Amazônia (UFPA), 2010.
GONDIM, Neide. A invenção da Amazônia. 2. ed. Manaus: Valer, 2007.
MEIRA, M. A persistência do aviamento: colonialismo e história indígena no Noroeste Amazônico [online]. São Carlos: EdUFSCar, 2018.
MONTEIRO, John Manuel. Armas e armadilhas: História e resistência dos índios. In: NOVAES, Adauto (Org.). A outra margem do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p. 237-249.
OLIVEIRA, João Pacheco de. Uma etnologia dos “índios misturados”? Situação colonial, territorialização e fluxos culturais. Mana, Rio de Janeiro, v. 4, n. 1, p. 47-77, 1998.
