
Maysa Lisboa – Internacionalista formada pela UNAMA
A Copa do Mundo é frequentemente apresentada como uma celebração global capaz de reunir diferentes povos, culturas e identidades em torno de uma mesma paixão: o futebol. No entanto, o torneio também constitui um espaço de disputa simbólica, no qual países, organizações, empresas e artistas competem por visibilidade e influência cultural.
Nesse contexto, a música ocupa um papel central, mais do que simples trilhas sonoras, as canções associadas aos mundiais ajudam a construir memórias coletivas, fortalecer identidades e projetar imagens para audiências globais.
Quando se fala em músicas da Copa do Mundo, poucos nomes estão tão associados ao torneio quanto o de Shakira. Mais do que uma cantora convidada para interpretar canções oficiais, a artista colombiana tornou-se uma das principais representantes culturais do futebol global no século XXI (fifawatch, 2026).
De “Hips Don’t Lie”, utilizada como música promocional da Copa do Mundo de 2006, passando por “Waka Waka (This Time for Africa)”, em 2010, e “La La La (Brazil 2014)”, até chegar ao recente “Dai Dai” (2026), sua trajetória evidencia como a América Latina conquistou protagonismo simbólico dentro de um dos maiores eventos esportivos do planeta.
Esse fenômeno pode ser compreendido a partir do conceito de soft power desenvolvido por Joseph Nye (2004). Para o autor, a influência internacional não é exercida apenas por meio do poder militar ou econômico, mas também pela capacidade de atração cultural. Nesse sentido, a presença recorrente de Shakira nas Copas do Mundo demonstra como a música latino-americana se consolidou como uma importante fonte de influência simbólica, capaz de alcançar públicos globais e fortalecer a visibilidade internacional da região.
Por meio da perspectiva de Stuart Hall (2016), as identidades culturais não são fixas ou naturais, mas construídas através de processos de representação. Dessa forma, Shakira não representa apenas a si mesma ou a Colômbia, mas contribui para a construção de uma imagem da América Latina associada à diversidade, à celebração e à conexão entre diferentes culturas. Sua presença constante nos mundiais ajuda a produzir significados que ultrapassam as fronteiras nacionais e passam a integrar o imaginário global do futebol.
Além disso, a trajetória da artista pode ser analisada a partir do conceito de hibridação cultural desenvolvido por Néstor García Canclini (2019). As músicas associadas às Copas combinam elementos de diferentes tradições culturais, misturando espanhol e inglês, ritmos latinos, influências africanas e estruturas do pop internacional. Em “Waka Waka”, por exemplo, essa mistura é particularmente evidente, demonstrando como a globalização cultural não elimina as identidades locais, mas produz novas formas de interação e expressão.
A edição de 2026 trouxe um debate interessante sobre a relação entre música e identidade do torneio. Enquanto a FIFA apresentou sua música oficial, parte significativa das discussões nas redes sociais voltou-se para “World Cup (Champions)”, lançada pelo criador de conteúdo IShowSpeed. Embora não seja uma canção oficial do evento, a música rapidamente passou a ser associada ao clima do Mundial por muitos torcedores. Entre os fatores apontados pelo público estão a presença de elementos latinos, refrões de fácil assimilação e uma sonoridade que remete a músicas de Copa anteriores.(fifawatch, 2026; Soycarmin, 2026).
Essa recepção evidencia um aspecto importante: o sentimento de pertencimento a uma Copa do Mundo nem sempre é produzido pelas instituições responsáveis pelo torneio, muitas vezes, ele surge da identificação espontânea do público com determinadas referências culturais.
Nesse sentido, a associação feita por parte dos torcedores entre “World Cup (Champions)” e canções como “Waka Waka” ou “La La La” demonstra a força que ritmos latinos e estruturas musicais multiculturais adquiriram na construção da identidade sonora dos mundiais contemporâneos.
Não é apenas uma coincidência estética, essa percepção reforça o protagonismo cultural da América Latina dentro do espetáculo esportivo global. A permanência de elementos latinos no imaginário das Copas sugere que determinadas expressões culturais passaram a ser compreendidas como símbolos universais da celebração futebolística, mesmo quando produzidas fora do contexto latino-americano.
Dessa forma, os hinos dos mundiais representam uma festa global, mas também refletem os interesses políticos, econômicos e culturais que cercam os megaeventos esportivos contemporâneos.
A partir de Nye, é possível compreender essas canções como ferramentas de soft power, capazes de ampliar a influência cultural para além das fronteiras nacionais. Com Hall, observa-se que elas contribuem para a construção de representações sobre regiões, povos e identidades.
Para Canclini permite compreender como a mistura de idiomas, ritmos e referências culturais produz novas formas de expressão adequadas a um mundo cada vez mais interconectado. Em conjunto, esses autores ajudam a explicar por que músicas como “Waka Waka”, “La La La” e até mesmo produções não oficiais associadas ao torneio conseguem ocupar um espaço tão relevante na memória coletiva dos torcedores.
Nesse contexto, as canções da Copa deixam de ser apenas trilhas sonoras festivas e passam a funcionar como instrumentos de projeção cultural. Ao mesmo tempo em que celebram a diversidade e a união entre povos, também refletem disputas por visibilidade internacional e influência simbólica.
A escolha recorrente de Shakira para compor a trilha sonora dos mundiais evidencia não apenas o sucesso individual da artista, mas também o fortalecimento da cultura latino-americana demonstra que o futebol global não é construído apenas dentro dos estádios. A copa também é produzida por meio da cultura, da música e das narrativas que transformam um evento esportivo em uma experiência compartilhada por bilhões de pessoas ao redor do mundo.
Referências
CANCLINI, Néstor García. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. 4. ed. São Paulo: Edusp, 2019.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 12. ed. Rio de Janeiro: Lamparina, 2019.
HALL, Stuart. Cultura e representação. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio; Apicuri, 2016.
NYE, Joseph S. Soft power: the means to success in world politics. New York: PublicAffairs, 2004.
FIFA WATCH. Dai Dai: FIFA song. FIFA Watch, 2026. Disponível em: https://fifawatch.com/en/news/dai-dai-fifa-song/. Acesso em: 4 jun. 2026.
SOY CARMIN. From Waka Waka to Dai Dai: Shakira’s World Cup songs explained. Soy Carmin, 2026. Disponível em: https://www.soycarmin.com/en/from-waka-waka-to-dai-dai-shakiras-world-cup-songs-explained-t202605070028.html. Acesso em: 4 jun. 2026.
INFOBAE. Un golpe de Estado, asesinatos en masa y un Waka Waka que bailaría el mundo entero: el origen de la canción con la que Shakira ganó el Mundial de fútbol. Infobae, 14 maio 2026. Disponível em: https://www.infobae.com/espana/cultura/2026/05/14/un-golpe-de-estado-asesinatos-en-masa-y-un-waka-waka-que-bailaria-el-mundo-entero-el-origen-de-la-cancion-con-la-que-shakira-gano-el-mundial-de-futbol/. Acesso em: 4 jun. 2026.
