
Jacob Saragá – 3° Semestre
O mundo atual se encontra cada vez mais globalizado e conectado, nesse contexto é indubitável que o tema saúde passou por um processo de transformação, deixando de ser uma questão interna dos Estados e se tornando uma questão de saúde global sendo impossível isolar tal questão das dinâmicas geopolíticas, econômicas e ambientais do planeta.
A crescente circulação de pessoas e comercializáveis, a degradação do meio ambiente, mudanças climáticas e as constantes guerras e conflitos armados colocam o mundo em um risco progressivo à novas pandemias e crises internacionais de saúde, o que insere a temática para o centro das discussões das relações internacionais, os principais desafios sanitários passaram a ter impactos transnacionais, exigindo respostas coletivas e mecanismos de cooperação entre os Estados
A Organização Mundial da Saúde (OMS) possui o papel principal quando se trata de saúde, a organização é uma criação da Organização das Nações Unidas (ONU) e atua como principal autoridade coordenadora da saúde internacional, não substituindo os governos, mas sim fortalecendo as estruturas nacionais de saúde através de diretrizes globais.
Desse modo, no âmbito das crises Internacionais de saúde a organização atua no monitoramento e identificação de riscos sanitários, coordena a cooperação internacional e estabelece normas, protocolos e recomendações. Entretanto, apesar da grande importância a OMS enfrenta um dos maiores desafios que perpetuam entre as Organizações Internacionais (OIS), a dificuldade de cumprir sua missão enquanto depende da colaboração de seus países-membros, devido à natureza do sistema internacional onde os Estados são soberanos e são eles que tomam decisões.
Ao discutir sobre as crises de saúde no cenário global, é necessário analisar que pressões políticas influenciadas por disputas geopolíticas podem atrasar medidas e reduzir a efetividade da cooperação internacional, condicionando a atuação da organização à vontade política de seus membros. Algo que já pôde ser visto na pandemia da Covid-19, onde a demora no compartilhamento de informações e as disputas entre grandes potências impactaram a colaboração internacional.
É importante compreender também que as crises sanitárias nem sempre decorrem apenas de vírus, mas são profundamente agravadas por decisões políticas externas. Governos como o de Donald Trump nos Estados Unidos, ao adotarem posições céticas em relação às mudanças climáticas, enfraquecem a cooperação internacional, afinal a degradação ambiental afeta diretamente a saúde global através do surgimento de novas doenças, e o abandono desses compromissos por uma grande potência gera consequências sanitárias catastróficas para todo o planeta.
Diante do papel desempenhado pela Organização Mundial da Saúde e da necessidade de entender como essas ideias e posições políticas moldam o sistema, é possível destacar a teoria construtivista de Alexander Wendt (1999). Para o autor, o comportamento dos Estados não é determinado exclusivamente por interesses materiais ou pela distribuição de poder, mas também por normas, identidades e ideias construídas por meio das interações no sistema internacional.
Nesse sentido, a influência da OMS não decorre de um poder coercitivo, mas da legitimidade que conquistou como principal organização internacional de saúde e de sua capacidade de estabelecer padrões, difundir conhecimento científico e promover a cooperação entre os Estados, ou seja, a Organização Internacional, na visão de Wendt, não deve ser compreendida como fraca, mas como uma instituição cuja efetividade depende da cooperação e do reconhecimento de seus Estados-membros.
Sua influência é predominantemente normativa e técnica, sendo fortalecida quando os Estados compartilham objetivos comuns e enfraquecida quando interesses políticos e disputas geopolíticas prevalecem sobre a cooperação internacional.
Dessa forma, com o aumento da frequência e da complexidade das crises sanitárias, a OMS precisa responder simultaneamente a surtos, aos impactos das mudanças climáticas sobre a saúde, às crises humanitárias e à resistência aos antimicrobianos. O próprio diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, tem afirmado que a organização enfrenta um cenário de pressões crescentes, agravado por restrições financeiras, tensões geopolíticas e ameaças à cooperação internacional (CNN,2020).
Sob a perspectiva construtivista de Alexander Wendt, essa sobrecarga não deve ser compreendida apenas como um problema administrativo da OMS, mas como um reflexo das dificuldades dos Estados em construir e manter normas de cooperação diante de desafios cada vez mais transnacionais. Assim, fortalecer a organização exige não apenas ampliar seus recursos e capacidades institucionais, mas também consolidar o compromisso dos Estados com a governança global em saúde.
A partir dessa perspectiva, fica evidente que o papel da Organização Mundial da Saúde nas crises internacionais não pode ser medido apenas por suas capacidades materiais ou financeiras. Tal como se observa em Alexander Wendt, a organização atua como o principal motor para a construção de ideias e normas compartilhadas sobre o que significa a segurança sanitária no século XXI.
Os desafios práticos discutidos ao longo deste artigo, como as disputas geopolíticas na pandemia da Covid-19 ou os retrocessos políticos nas agendas ambientais, demonstram que as falhas na cooperação não ocorrem por falta de dados científicos, mas sim quando os Estados priorizam interesses egoístas em detrimento de uma identidade coletiva global.
Portanto, apesar de todas as limitações estruturais, do peso da soberania estatal e das frequentes pressões geopolíticas que tentam paralisar sua atuação, o papel da OMS permanece absolutamente insubstituível na política internacional.
Sob a lente construtivista, mesmo quando os Estados falham em cooperar, a organização continua sendo a única instituição capaz de fornecer estabelecer os protocolos de saúde e dar a direção científica para o planeta, ela é o farol que impede o sistema internacional de desabar em um isolacionismo cego diante do imprevisto biológico.
Assim, se a anarquia é o que os Estados fazem dela, a existência e a persistência da OMS provam que, apesar de tudo, a humanidade ainda escolhe construir a saúde não como um privilégio de fronteiras isoladas, mas como um destino coletivo e compartilhado.
Referências:
JORNAL DA USP. Mundo enfrenta risco crescente de novas pandemias, alerta órgão ligado à OMS. Jornal da USP, 2026. Disponível em: https://jornal.usp.br/atualidades/mundo-enfrenta-risco-crescente-de-novas-pandemias-alerta-orgao-ligado-a-oms/. Acesso em: 8 jul. 2026.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Organização Mundial da Saúde (OMS). Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG), 2026. Disponível em: https://funag.gov.br/biblioteca-nova/pdf/mostraPdf/1/897/organizacao_mundial_da_saude_oms. Acesso em: 8 jul. 2026.
OMS DIZ QUE SISTEMAS DE SAÚDE DE TODO O MUNDO ESTÃO SOBRECARREGADOS. CNN Brasil, 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/oms-diz-que-sistemas-de-saude-de-todo-o-mundo-estao-sobrecarregados/. Acesso em: 8 jul. 2026.
REVISTA CONVERSAS E CONTROVÉRSIAS. Artigo científico eletrônico. Conversas & Controvérsias, Porto Alegre, v. 14, n. 1, 2026. Disponível em: https://revistaseletronicas.pucrs.br/conversasecontroversias/article/view/39115. Acesso em: 8 jul. 2026.
REVISTA SCIELO. Artigo de periódico científico. Interface – Comunicação, Saúde, Educação, Botucatu, 2026. Disponível em: https://www.scielo.br/j/icse/a/TgjQxP5tGzJjWdV4VKxhGJj/?lang=pt. Acesso em: 8 jul. 2026.
REVISTA SIGNOS (ARACÊ). Artigo de periódico científico eletrônico. Aracê – Direitos Humanos em Revista, n. 3236, 2026. Disponível em: https://periodicos.newsciencepubl.com/arace/article/download/3236/3998/12208. Acesso em: 8 jul. 2026.
WENDT, Alexander. Social Theory of International Politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.
