
Sofia Dias, acadêmica do 3º semestre de Relações Internacionais da UNAMA.
Ficha Técnica
Ano: 1997
Gênero: Drama/Romance
Direção: Wong Kar-wai
Distribuição: Jet Tone Production / Golden Harvest
País de origem: Hong Kong
Lançado em 1997 e dirigido por Wong Kar-wai, Happy Together tornou-se uma das obras mais relevantes do cinema contemporâneo ao retratar a relação entre Lai Yiu-fai e Ho Po-wing, um casal homoafetivo que se descola de Hong Kong para a Argentina em busca de um recomeço (Brunette, 2005). Produzido durante o processo de transferência da soberania de Hong Kong para a China, o filme articula deslocamento, identidade, pertencimento e afetividade em um contexto marcado por transformações políticas e culturais (Abbas, 1997).
A narrativa acompanha a trajetória dos protagonistas em uma cidade estrangeira, marcada por dificuldades econômicas, barreiras linguísticas e constantes conflitos emocionais. Embora a viagem tivesse como objetivo conhecer as Cataratas do Iguaçu e recomeçar a relação, o casal acaba preso em um ciclo de separações e reconciliações que evidencia a instabilidade tanto do relacionamento quanto de suas próprias identidades. Para além da dimensão afetiva, Wong Kar-wai utiliza a condição de migrantes dos personagens para representar sentimentos de desenraizamento, solidão e não pertencimento, construindo uma reflexão sobre como fronteiras geográficas também produzem fronteiras sociais, culturais e identitárias (McElhaney, 2000).
Longe de constituírem uma unidade homogênea, Lai e Ho encarnam respostas distintas a experiência migratória: Ho entrega-se a uma performance afetiva fluida, sedutora e por muitas vezes autodestrutiva, Lai por sua vez busca refugiar-se na disciplina do trabalho e na tentativa de acúmulo de capital, como se, de algum modo, a estabilidade econômica pudesse mitigar sua precariedade identitária.
A impossibilidade de alcançar juntos as Cataratas do Iguaçu — objetivo inicial da viagem — transforma-se em uma metáfora da constante busca por pertencimento e estabilidade, enquanto o farol visitado por Lai no desfecho da narrativa simboliza a possibilidade de reconstrução individual após sucessivas experiências de deslocamento. O filme evidencia, então, que as fronteiras não são apenas territoriais, mas também afetivas, culturais e identitárias, revelando como a experiência migratória dos personagens é atravessada por relações de poder que condicionam suas formas de existir e de serem reconhecidas no espaço internacional.
Nesse sentido, a obra dialoga com a Teoria Queer das Relações Internacionais (RI), perspectiva que questiona os pressupostos consolidados pelas teorias mainstream da área ao problematizar concepções tradicionalmente estabelecidas de Estado, soberania, poder, segurança e identidade. Cynthia Weber (2016), professora de Relações Internacionais e uma das principais referências no desenvolvimento da Teoria Queer aplicada às RI, argumenta que a política internacional é atravessada por normas heteronormativas que definem quais sujeitos e formas de existência são considerados legítimos, isto é, aqueles que se enquadram nos padrões sociais e políticos reconhecidos pela ordem internacional dominante, enquanto identidades dissidentes tendem a ser invisibilizadas ou marginalizadas.
Nesse contexto, em Happy Together a experiência de Lai e Ho evidencia justamente essa dinâmica: seus deslocamentos não representam apenas mobilidade física, mas revelam como sujeitos queer vivenciam diferentes formas de exclusão, invisibilidade e pertencimento em espaços transnacionais. Dessa forma, o filme transforma experiências cotidianas de afeto, desejo e migração em elementos constitutivos do “internacional”, questionando os limites das abordagens tradicionais das Relações Internacionais (Weber, 2016).
No decorrer do enredo, Wong Kar-wai também desconstrói modelos tradicionais de masculinidade ao apresentar personagens vulneráveis, emocionalmente instáveis e incapazes de corresponder aos padrões normativos de relações afetivas. A quase invisibilidade do Estado e de suas instituições ao longo da narrativa, aliada ao protagonismo das experiências individuais, evidencia que as estruturas de poder não se manifestam apenas por meio das ações estatais, mas também através das normas sociais que definem quais identidades são reconhecidas como legítimas e quais permanecem à margem.
Essa linguagem atinge seu ápice na célebre cena em que Ho dança tango com Chang, um jovem taiwanês. O tango, gênero de dança nacional argentino que exige uma rigorosa performance binária de gênero (homem conduzindo, mulher seguindo), tem sua lógica subvertida ao ser dançado entre dois homens – um ato que desestabiliza não apenas as tradições culturais locais, mas também a própria espacialidade da nação, evidenciando que as fronteiras do “internacional” são também performativas, afetivas e culturalmente disputadas.
Em síntese, Happy Together demonstra que as Relações Internacionais podem ser compreendidas para além das disputas entre Estados, das estratégias diplomáticas e dos conflitos armados. Dessa forma, a obra amplia as possibilidades analíticas da disciplina ao demonstrar que os afetos, as experiências migratórias e as vivências de sujeitos historicamente invisibilizados também produzem conhecimento sobre o internacional, reafirmando o potencial do cinema como instrumento de reflexão crítica sobre as múltiplas dimensões do poder contemporâneo.
REFERÊNCIAS:
ABBAS, Ackbar. Hong Kong: Culture and the Politics of Disappearance. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1997.
BRUNETTE, Peter. Wong Kar-wai. Urbana: University of Illinois Press, 2005.
McELHANEY, Joe. Happy Together. Senses of Cinema, n. 10, 2000. Disponível em: https://www.sensesofcinema.com/2000/cteq/happy/. Acesso em: 5 jul. 2026.
WEBER, Cynthia. Queer International Relations: Sovereignty, Sexuality and the Will to Knowledge. Oxford: Oxford University Press, 2016.
