
Lucas Cardoso – 8° semestre
Personalidade – Maria Felipa de Oliveira
Maria Felipa de Oliveira ocupa lugar singular na memória das lutas pela Independência do Brasil. Mulher negra, trabalhadora e moradora da Ilha de Itaparica, na Bahia, sua trajetória associa-se à resistência da população local contra as forças portuguesas durante a emancipação política do território. Sua figura tornou-se importante na memória baiana por representar a participação de setores populares em um processo narrado, por muito tempo, a partir da atuação de homens ligados às elites políticas e militares, ampliando a compreensão sobre os sujeitos que participaram das transformações ocorridas no Brasil no início do século XIX.
A atuação atribuída a Maria Felipa relaciona-se à mobilização da população de Itaparica durante os conflitos da Independência da Bahia, processo estudado por Tavares (2005) como episódio prolongado e fortemente popular, distinto do simbolismo atribuído a 7 de setembro de 1822. Relatos históricos e a tradição oral associam sua figura à organização da resistência local e aos enfrentamentos contra as tropas portuguesas, que se estenderam até 1823. Ainda que aspectos de sua trajetória sejam objeto de debate historiográfico, sua permanência na memória coletiva confirma sua importância como símbolo de resistência popular.
A relevância de Maria Felipa é maior quando se considera sua posição social. Em uma sociedade marcada pela escravidão e por hierarquias raciais e de gênero, uma mulher negra das camadas populares encontrava-se distante dos espaços associados ao poder político. Sua presença nas narrativas sobre a Independência permite questionar uma história centrada em governantes, militares e elites, deslocando o olhar para grupos que nem sempre receberam o mesmo reconhecimento histórico problemática que dialoga com as reflexões de Davis (2016) e González (2020) sobre raça, classe e gênero na experiência das mulheres negras.
Para compreender essa participação social, é necessário considerar o contexto da Bahia no início do século XIX, região de grande importância econômica para o Império português e marcada pela presença de expressiva população negra escravizada (TAVARES, 2005). As tensões decorrentes da crise do domínio português produziram conflitos que ultrapassavam os círculos das elites, envolvendo diferentes localidades baianas. A Independência na Bahia não pode ser compreendida como simples extensão do episódio de 7 de setembro; os conflitos ali assumiram características militares e populares mais intensas, resultado de processos regionais nos quais a população local foi decisiva na ruptura com Portugal.
Essa problemática pode ser aprofundada pela perspectiva pós-colonial das Relações Internacionais, que questiona interpretações tradicionais sobre a formação dos Estados como processos desvinculados da dominação colonial. Quijano (2005) demonstra que o colonialismo produziu não apenas exploração econômica e dominação territorial, mas também uma colonialidade do poder capaz de hierarquizar racial e culturalmente os sujeitos, definindo quais seriam reconhecidos como legítimos agentes da história. A análise de Maria Felipa permite deslocar o foco das estruturas formais para os sujeitos que experimentaram diretamente essas relações de poder.
Entre os autores que oferecem instrumentos para essa interpretação, destaca-se Frantz Fanon. Em Pele Negra, Máscaras Brancas (FANON, 2020) e Os Condenados da Terra (FANON, 2005), o autor analisa os efeitos do colonialismo sobre indivíduos e sociedades submetidas à dominação, destacando a dimensão racial e os mecanismos de inferiorização e desumanização impostos aos povos colonizados. A perspectiva fanoniana permite compreender a resistência não apenas como reação militar, mas como manifestação de sujeitos que contestam a dominação o que fundamenta a leitura de Maria Felipa como sujeito ativo de resistência, e não vítima passiva das estruturas coloniais.
A problemática, contudo, não se encerra na participação de Maria Felipa nos acontecimentos da Independência. É necessário questionar também os critérios que definiram quais personagens seriam reconhecidos como protagonistas da formação nacional. A marginalização de figuras populares, sobretudo mulheres negras, pode ser lida à luz da pergunta de Spivak (2010) sobre a possibilidade do subalterno falar, e das reflexões de Nascimento (2016) sobre os mecanismos de silenciamento que atingiram a população negra brasileira.
Recuperar Maria Felipa não significa apenas acrescentar uma personagem esquecida à narrativa tradicional, mas questionar por que certas experiências foram valorizadas enquanto outras permaneceram à margem.
Diante disso, a trajetória de Maria Felipa de Oliveira evidencia que a Independência da Bahia não foi construída exclusivamente pelas elites políticas e militares, mas também contou com a participação de sujeitos populares historicamente marginalizados. A partir da perspectiva pós-colonial e, sobretudo, das contribuições de Frantz Fanon, sua atuação pode ser compreendida como uma forma de resistência às estruturas coloniais e raciais de seu tempo. Nesse sentido, Maria Felipa deixa de ser compreendida como uma figura secundária e passa a ser reconhecida como sujeito ativo na construção da Independência.
Ao mesmo tempo, sua posterior marginalização das narrativas históricas revela que as relações de poder também influenciam quais sujeitos são reconhecidos como protagonistas da história. Recuperar sua trajetória, portanto, não significa apenas acrescentar uma personagem à narrativa da Independência, mas questionar os mecanismos de silenciamento que atingiram especialmente mulheres negras e sujeitos das camadas populares. Maria Felipa representa, assim, não apenas a resistência ao domínio colonial, mas também a disputa pela memória e pelo reconhecimento daqueles que foram historicamente colocados à margem.
Referências
DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016.
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. São Paulo: Ubu, 2020.
FANON, Frantz. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
NASCIMENTO, Abdias do. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2016.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Buenos Aires: CLACSO, 2005.
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
TAVARES, Luís Henrique Dias. Independência do Brasil na Bahia. Salvador: EDUFBA, 2005.
TAVARES, Luís Henrique Dias. História da Bahia. Salvador: EDUFBA.
