
PARTE I
Valentina Medeiros Rosas Samuelsson (acadêmica do 2° semestre de R.I na UNAMA)
Ana Victória Padilha Carneiro (acadêmica do 6° semestre de R.I na UNAMA
O reconhecimento do Teatro Amazonas, em Manaus, e do Theatro da Paz, em Belém, como o 17° Patrimônio Mundial da UNESCO brasileiro, em julho deste ano, deve ser compreendido, inicialmente, a partir do processo histórico que possibilitou a construção desses espaços. Inaugurados em 1896 e 1878, respectivamente, os dois teatros são produtos de um período de profundas transformações econômicas, urbanas e culturais na Amazônia, especialmente relacionadas ao chamado ciclo da borracha.
Isso porque, durante a segunda metade do século XIX, a crescente demanda internacional por látex, utilizado pela indústria em expansão, inseriu a região amazônica de maneira intensa nos circuitos comerciais globais. Assim, Belém consolidou-se como importante porta de entrada e saída dessa economia, enquanto Manaus assumiu posição estratégica no interior amazônico, articulando os fluxos provenientes dos rios da região (UNESCO, 2026).
Nesse contexto, a riqueza produzida pela exploração da borracha possibilitou a implementação de projetos de modernização urbana que buscavam aproximar as cidades amazônicas dos padrões de urbanização e de sociabilidade presentes nas principais capitais europeias. A construção de grandes teatros, porém, não pode ser compreendida apenas como uma manifestação artística ou arquitetônica isolada. Esses edifícios materializaram um projeto de cidade e de sociedade associado às ideias de progresso, civilização e modernidade características do século XIX.
A própria arquitetura dos teatros revela essa conexão. Profissionais, materiais, técnicas e referências artísticas provenientes da Europa chegaram à Amazônia por meio das redes comerciais que conectavam Belém e Manaus a outros centros do mundo. Ao mesmo tempo, esses elementos foram incorporados a um contexto amazônico específico. Segundo o IPHAN (2025), os teatros articulam influências artísticas, urbanísticas e tecnológicas europeias com elementos da paisagem amazônica e materiais locais.
Essa característica é fundamental para compreender a dimensão internacional do patrimônio. Os Teatros da Amazônia são, simultaneamente, testemunhos da circulação internacional de capitais, pessoas, técnicas e ideias e expressões materiais de como esses fluxos foram apropriados localmente. Dessa maneira, sua existência evidencia que a Amazônia do século XIX não estava isolada do restante do mundo, mas inserida em uma complexa rede de relações econômicas e culturais.
O documento Decision 48: Amazonia Theaters (Brazil) da UNESCO que fundamentou a inscrição destaca que a expansão do capitalismo industrial levou a bacia amazônica, então principal região produtora de borracha, aos circuitos comerciais globais. A riqueza gerada por esse processo financiou projetos de modernização urbana em Belém e Manaus, tendo os dois grandes teatros como alguns de seus principais símbolos (UNESCO, 2026).
Assim, o patrimônio arquitetônico dos teatros permite interpretar a história amazônica a partir de uma perspectiva que ultrapassa as fronteiras nacionais. A história desses edifícios é também uma história das relações entre Amazônia, Europa e mercado internacional, revelando como transformações econômicas de escala global produziram consequências concretas na organização urbana e cultural de cidades localizadas no coração da floresta.
Entretanto, a valorização dos Teatros da Amazônia exige uma leitura histórica que não reduza o ciclo da borracha a um período de prosperidade e modernização. A monumentalidade dos edifícios também está relacionada às desigualdades econômicas e sociais presentes na estrutura daquela economia. A riqueza que financiou a modernização de Belém e Manaus sempre esteve vinculada à exploração da borracha e ao trabalho realizado por milhares de trabalhadores nos interiores amazônicos.
Essa dimensão é importante porque o patrimônio não deve ser compreendido somente pela aparência monumental de seus edifícios, mas também pelas relações sociais e históricas que tornaram sua existência possível. Os teatros representam, portanto, uma sociedade marcada por contrastes, onde de um lado estava a construção de espaços destinados à ópera, à música e à sociabilidade das elites urbanas, e de outro, uma economia sustentada por complexas relações de trabalho e pela exploração dos recursos naturais e da força de trabalho amazônica.
A inscrição na UNESCO não elimina essas contradições históricas. Pelo contrário, oferece uma oportunidade para que elas sejam incorporadas à interpretação do patrimônio. O reconhecimento internacional pode contribuir para uma compreensão mais ampla da história amazônica, na qual o luxo dos teatros seja analisado conjuntamente com as estruturas econômicas, sociais e territoriais que permitiram sua construção.
Nesse sentido, os Teatros da Amazônia não devem ser vistos apenas como símbolos de uma Belle Époque amazônica. Eles constituem documentos materiais de um momento histórico em que a região foi profundamente transformada por forças econômicas internacionais. Sua arquitetura expressa tanto o desejo das elites locais de demonstrar modernidade e cosmopolitismo quanto as contradições de um modelo econômico dependente da exportação de uma matéria-prima estratégica para a industrialização internacional.
Essa interpretação amplia o significado do patrimônio. Preservar os teatros não significa preservar apenas paredes, pinturas, objetos e ornamentos, mas também preservar a possibilidade de compreender criticamente a história que esses elementos representam. A própria decisão da UNESCO recomenda o desenvolvimento de pesquisas históricas e antropológicas sobre os impactos sociais e ambientais da exploração da borracha, particularmente sobre povos indígenas e migrantes do Nordeste (UNESCO, 2026).
O reconhecimento pela UNESCO está fundamentado no conceito de Valor Universal Excepcional, utilizado pela Convenção do Patrimônio Mundial para identificar bens considerados relevantes não apenas para uma determinada comunidade ou país, mas para a humanidade em escala mais ampla. No caso dos Teatros da Amazônia, a inscrição foi realizada com base nos critérios (II) e (IV) da UNESCO (UNESCO, 2026).
O critério (II) está relacionado ao intercâmbio de valores humanos ao longo de determinado período ou em uma área cultural do mundo, especialmente quando esse intercâmbio se manifesta na arquitetura, tecnologia, arte monumental, planejamento urbano ou paisagismo. Já o critério (IV) contempla exemplos notáveis de edifícios ou conjuntos arquitetônicos que representam etapas significativas da história humana. A aplicação conjunta desses critérios evidencia que o valor dos teatros ultrapassa sua dimensão estética e se relaciona aos processos históricos que eles materializam.
A escolha da candidatura conjunta é, portanto, significativa. Em vez de considerar os dois edifícios como monumentos isolados, a UNESCO os reconheceu como componentes de um patrimônio seriado denominado Teatros da Amazônia. O conjunto compreende o Teatro Amazonas e o Largo de São Sebastião, em Manaus, e o Theatro da Paz e a Praça da República, em Belém (UNESCO, 2026).
Essa abordagem demonstra que o valor patrimonial não está exclusivamente nos edifícios. Ele também está na relação entre arquitetura, espaço urbano, memória e funcionamento cultural. Em Belém, o Theatro da Paz mantém sua relação histórica com a Praça da República, que continua desempenhando uma função cívica importante no centro da cidade. Em Manaus, o Teatro Amazonas está relacionado ao Largo de São Sebastião, formando um conjunto urbano que preserva a memória do período de modernização associado ao ciclo da borracha (UNESCO, 2026).
Desse modo, o reconhecimento internacional não transforma os teatros em objetos congelados no tempo. A própria decisão da UNESCO reconhece que os componentes continuam exercendo funções sociais e culturais e permanecem inseridos em uma vida cultural ativa e em transformação. A autenticidade do bem está ligada, inclusive, à continuidade de seu uso e de suas funções culturais (UNESCO, 2026).
Outro aspecto fundamental do reconhecimento está relacionado à diferença entre preservar um edifício e manter vivo o patrimônio que ele representa. Um teatro histórico não possui relevância apenas por sua antiguidade ou por suas características arquitetônicas. Sua importância também está associada à continuidade de suas funções culturais.
Nesse sentido, os Teatros da Amazônia permanecem como espaços de produção e circulação artística. Óperas, concertos, espetáculos e outras manifestações culturais continuam ocupando esses espaços, permitindo que sua função histórica seja ressignificada e atualizada. A UNESCO destaca que os teatros permanecem como centros ativos de vida cultural (UNESCO, 2026).
Essa característica é particularmente importante para a compreensão do patrimônio cultural contemporâneo.O reconhecimento não precisa significar uma transformação dos teatros em meros objetos turísticos ou museológicos. A o contrário, sua preservação depende também da capacidade de continuar integrando a vida cultural das cidades.A manutenção dessa função permite estabelecer uma relação entre passado e presente. O público contemporâneo pode ocupar espaços originalmente construídos para uma sociedade do século XIX sem necessariamente reproduzir os mesmos valores sociais daquele período. O patrimônio, dessa maneira, torna-se um espaço de ressignificação, onde a arquitetura permanece, mas os sujeitos, as manifestações artísticas e as formas de utilização do espaço podem se transformar.
Essa continuidade também é relevante para a democratização do acesso à cultura. O reconhecimento internacional pode ampliar a visibilidade desses equipamentos, mas a valorização patrimonial precisa estar acompanhada de políticas que garantam sua apropriação pela população local. Caso contrário, corre o risco de que o patrimônio seja valorizado principalmente como produto turístico, enquanto sua dimensão social e cultural seja secundarizada.
Portanto, a preservação dos Teatros da Amazônia deve envolver não apenas a conservação física de seus elementos arquitetônicos, mas também políticas de acesso, educação patrimonial, formação artística e incentivo à produção cultural regional.
Ademais, recomenda-se o “FAQ: Candidatura dos Teatros da Amazônia a Patrimônio Mundial da UNESCO”, que fora publicado oficialmente no site do governo Federal do Brasil. O documento aborda de forma objetiva os principais aspectos técnicos, históricos e de gestão cultural envolvidos no reconhecimento do Teatro Amazonas (Manaus) e do Theatro da Paz (Belém) como Patrimônio Mundial. A publicação relata a relevância do patrimônio arquitetônico e artístico do período da economia da borracha, os critérios de conservação exigidos pela UNESCO e a importância socioeconômica da preservação cultural para a região amazônica.
Dessa forma, indica-se a leitura do livro: “A Belle Époque Amazônica” de Ana Maria Daou. A autora, que é uma referência na área, analisa o processo de modernização e urbanização de Belém e Manaus na virada do século XIX para o XX, impulsionado pelo auge da economia borracheira. O estudo destaca a constituição das elites locais, a transformação arquitetônica e espacial inspirada nos padrões europeus e a dinâmica social e cultural que marcou a construção da identidade urbana dessas metrópoles amazônicas.
Disponível para compra em: < https://www.estantevirtual.com.br/livro/a-belle-epoque-amazonica-073-1919-000-BK >
Por fim, recomenda-se a leitura do livro “Diplomacia Cultural: Seu Papel na Política Externa Brasileira”, de autoria de Edgard Telles Ribeiro e publicado pela Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG). A obra discorre sobre a difusão cultural como um instrumento estratégico e integrativo das Relações Internacionais do Brasil. O autor demonstra como a promoção das artes, da língua e dos valores socioculturais atua como um facilitador para o fortalecimento do comércio exterior, das negociações bilaterais e dos projetos de cooperação técnica e diplomática.
Disponível em: < https://funag.gov.br/biblioteca-nova/produto/loc_pdf/528/1/diplomacia_cultural:_seu_papel_na_politica_externa_brasileira >.
REFERÊNCIAS
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN). Os Teatros da Amazônia. Brasília, DF: IPHAN, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/iphan/pt-br/assuntos/teatros-da-amazonia/os-teatros. Acesso em: 19 set. 2026.
UNESCO. World Heritage Committee. Decision 48 COM 8B.34: Amazonia Theaters (Brazil). Paris: UNESCO World Heritage Centre, 2026. Disponível em: https://whc.unesco.org/en/decisions/9188. Acesso em: 19 set. 2026.
UNESCO. World Heritage List: Amazonia Theaters. UNESCO World Heritage Centre, [S.D]. Disponível em: https://whc.unesco.org/en/list/1774/. Acesso em: 23 set. 2026.
