Vinicius Kenui – Acadêmico do 2° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Sofia Dias – Acadêmica do 4° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Em um cenário dominado pelo pensamento masculino, a indústria do sertanejo destacou um dos maiores nomes femininos do gênero, Marília Mendonça. A artista revolucionou a imagem do sertanejo e se tornou uma das protagonistas do movimento do feminejo, onde abriu ao lado de outros grandes nomes muitas oportunidades para outras mulheres no mercado musical. Marília foi um símbolo na música por suas canções com letras que criticam a visão masculina habitual e alavanca as canções a partir da visão das mulheres, o que recebeu grande aclamação do público e fez com que a cantora recebesse o título de “Rainha da Sofrência” com o passar de sua carreira.

Marília nasceu em 22 de julho de 1995, no interior de Goiás, filha de Ruth Dias e Mário Mendonça, a artista tinha oito irmãos, sendo sete por parte de pai e seu irmão mais novo por parte materna, João Gustavo, também segue sendo parte da indústria musical. Desde pequena Marília Mendonça se mostrou uma grande amante de música, desde cedo cantava na igreja e no período da sua adolescência passou a cantar no bar da sua família e através dessas apresentações a  jovem de 12 anos foi descoberta por Wander Oliveira e foi convidada a trabalhar na produtora musical conhecida como “Work Show”, onde ajudaram a divulgar esse jovem talento para o Brasil e a deram apoio para compor suas primeiras músicas da carreira. (RADIOAGÊNCIA NACIONAL, 2026).

A cantora se tornou um dos sucessos mais amados de todo o Brasil e ainda teve a oportunidade de compor para outros cantores do sertanejo como Jorge & Mateus, Henrique & Juliano, Gusttavo Lima, Lucas Lucco e Zé Neto & Cristiano. Mesmo assim, a cantora sempre se mostrou ter muita facetas e também acabou compondo para outros estilos como o forró, escrevendo músicas para Wesley Safadão e Gabriel Diniz. (G1, 2026).

O início da sua carreira foi marcado pelo lançamento de sua primeira música chamada “Minha Herança”, mas o boom do sucesso veio aos seus 20 anos de idade, em 2015,  quando gravou o seu primeiro DVD, onde havia músicas como “Sentimento Louco” e “Infiel”, uma das músicas mais tocadas em 2016 que abriu espaço para que a carreira da artista fosse fortemente aclamada pelo público (CNN BRASIL, 2026; G1, 2026). Nos próximos anos, foram gravados álbuns como “Realidade” em 2017 e “Todos os Cantos” em 2019, essas músicas marcaram presença nas rádios em todo o Brasil e fez com que ela se transformasse na “Rainha da Sofrência”, suas músicas sempre buscavam retratar temas como o amor, traição e superação, o que articulou a identificação do público com as canções e aumentou a paixão do povo por ela.

Mesmo passando por diversos problemas na sua carreira como pressões e  problemas de autoestima, a artista também anunciou um relacionamento que mantinha por trás dos holofotes desde 2017 com o compositor e cantor sertanejo Murilo Huff. Assim, Marília Mendonça anunciou aos fãs o início de um novo desafio e um dos capítulos mais belos de sua vida, a maternidade, seu primeiro filho chamado Léo nasceu em 2019 e passou a dividir a cantora entre o mundo da música e da maternidade.(PAPO SERTANEJO, 2026; RÁDIO 104, 2026).

Mesmo assim, seus projetos só estavam começando e um dos maiores sucessos veio à tona no mundo do sertanejo, sendo a parceria com uma dupla chamada Maiara e Maraisa, irmãs gêmeas que também estavam no sertanejo e eram muito amigas da Marília, nomeadas  de “As Patroas”. Essa parceria entre as amigas permitiu refletir a visão feminina em letras de traição, superação e a vida de bebedeira, consagrando um grande reconhecimento para o trio e se tornando um enorme sucesso em meio aos Brasileiros e se tornou um arcabouço para o chamado “faminejo”, gênero que Marília fundou com sua ascensão no sertanejo e levou a sua identidade artística para outro patamar

Em meio a um dos cenários mais difíceis que o mundo enfrentava, todas as famílias se viam em lockdown durante a pandemia da COVID-19, Marília quebrou recordes de live mais assistida a nível mundial e marcou presença ao lado de grandes nomes de artistas mais vistos, dividindo espaço com Adele, Rihanna e Taylor Swift (CNN BRASIL, 2026). A artista conquistou lugar como a mais escutada em streaming do YouTube e Spotify, números esses que se mantêm até os dias de hoje após 6 anos de sua  partida.

Durante o seu auge do sucesso e com mais de 10 anos de carreira, a cantora estava a caminho  de outro estado para fazer um show quando houveram problemas que causaram a queda do avião em que estava, e em 5 de novembro de 2021 com seus 26 anos de idade, o Brasil recebeu a notícia que a “Rainha da Sofrência” teria partido, deixando seu filho, marido e fãs desolados com a notícia repentina (G1, 2026; RADIOAGÊNCIA NACIONAL, 2026). Mesmo após a sua morte, Marília Mendonça tinha algumas músicas gravadas em um álbum conhecido como  “Decretos Reais”, onde haviam três grandes músicas. Os lançamentos desses EPs foram rapidamente recebidos pelos fãs com um sentimento de amor e saudades pela cantora, obtendo músicas como “Te amo Demais”, “Morango do Nordeste” e um dos mais bem sucedidos “Leão”, canção gravada em parceria com o rapper Xamã, a música passou de 449 milhões de ouvintes no Spotify e 395 milhões no YouTube. Este álbum conquistou o Grammy Latino 2023 na categoria de Melhor Álbum de Música Sertaneja e fez algo histórico, “Leão” se tornou a primeira canção em língua portuguesa a atingir 1,9 milhões de reproduções em apenas um dia. (CNN BRASIL, 2026).

A trajetória de Marília Mendonça pode ser compreendida para além de seu sucesso comercial, considerando as relações de poder que historicamente condicionaram a participação das mulheres em diferentes espaços sociais. Nesse sentido, a Teoria Feminista das Relações Internacionais oferece instrumentos para analisar como as desigualdades de gênero ultrapassam as instituições políticas e alcançam também a cultura, a economia e a indústria do entretenimento.

Em Bananas, Beaches and Bases: Making Feminist Sense of International Politics, Cynthia Enloe (2014) questiona a aparente neutralidade das estruturas de poder e evidencia como as experiências cotidianas das mulheres estão relacionadas a hierarquias sociais mais amplas. A autora demonstra a importância de investigar quem ocupa posições de influência, quais atividades recebem reconhecimento e como as relações de gênero se manifestam em espaços frequentemente considerados distantes da política. Aplicada à trajetória de Marília, essa perspectiva permite compreender que sua ascensão na música sertaneja não representou apenas uma conquista individual, mas também uma contestação das hierarquias de gênero presentes nesse mercado (Enloe, 2014).

Historicamente, a música sertaneja brasileira é marcada pela predominância masculina, tanto na ocupação dos espaços de maior visibilidade quanto na construção das representações femininas presentes nas canções. Em diferentes momentos, cantores e duplas masculinas ocuparam posições centrais na consolidação comercial do gênero, contribuindo para estabelecer referências artísticas e narrativas que influenciaram o mercado.

Sob uma perspectiva feminista, o protagonismo masculino torna-se problemático quando não representa uma possibilidade de expressão entre outras, mas sim constitui uma referência predominante, diante da qual as mulheres precisam conquistar espaço para serem ouvidas. Nesse sentido, a análise de Enloe permite compreender que as relações de poder não se limitam às instituições políticas formais, pois também se reproduzem nas práticas culturais, nas relações de trabalho e nos padrões sociais que definem quais vozes são reconhecidas como relevantes (Enloe, 2014).

É nesse viés que a ascensão de Marília Mendonça adquire particular importância. Ao transformar a perspectiva feminina em elemento central de suas composições, a cantora contribuiu para deslocar o foco de narrativas nas quais as mulheres frequentemente apareciam como objetos do desejo, motivos da frustração ou responsáveis pelo sofrimento masculino.

Portanto, a importância de Marília Mendonça não se limita aos recordes alcançados, ao reconhecimento comercial ou à permanência de suas canções após sua morte. Sua trajetória também pode ser interpretada como parte de uma disputa mais ampla por reconhecimento, autonomia e representatividade feminina em uma indústria historicamente marcada por hierarquias de gênero e evidenciar como a cultura, a representatividade feminina e as relações de gênero participam da construção da realidade internacional.

REFERÊNCIAS:

ENLOE, Cynthia. Bananas, beaches and bases: making feminist sense of international politics. 2. ed. Berkeley: University of California Press, 2014.

G1. [Matéria sobre Marília Mendonça]. Disponível em: https://share.google/K11Hn4zDlV7yNiPWz. Acesso em: 15 out. 2026.

CNN BRASIL. [Matéria sobre Marília Mendonça]. Disponível em: https://share.google/o9lcnO7Iql4i6ZybS. Acesso em: 15 out. 2026.

RÁDIO 104. [Matéria sobre mulheres na música sertaneja]. Disponível em: https://share.google/7mfyVoDGysmiadIAK. Acesso em: 15 out. 2026.

PAPO SERTANEJO. 8 mulheres que mudaram a história da música sertaneja. Disponível em: https://share.google/KMfRu1CdRYOb9L1V7. Acesso em: 15 out. 2026.

RADIOAGÊNCIA NACIONAL. Marília Mendonça: confira a trajetória da cantora. Disponível em: https://share.google/fGfdvhPunZZxhsHCr. Acesso em: 15 out. 2026.