Sofia Dias, acadêmica do 4º semestre de Relações Internacionais da UNAMA.

Ficha Técnica

Ano: 1997
Gênero: Drama histórico e político
Direção: Bruno Barreto
País de origem: Brasil

Lançado em 1997 e dirigido por Bruno Barreto, O que é isso, companheiro? retrata a resistência à ditadura militar brasileira a partir do sequestro do embaixador estadunidense Charles Burke Elbrick, em setembro de 1969. Inspirada na obra homônima de Fernando Gabeira, a produção acompanha a atuação de militantes ligados à luta armada, que buscavam a libertação de presos políticos por meio da negociação com o regime. Ambientado em um período marcado pela censura, pela repressão e pela restrição das liberdades políticas, o filme apresenta os conflitos enfrentados pelos grupos revolucionários e evidencia as tensões entre o poder estatal e as tentativas de contestação da ordem estabelecida (CINEMATECA BRASILEIRA, s.d.).

A narrativa acompanha jovens que, diante do endurecimento do regime militar, optam pela luta armada como instrumentos de enfrentamento político. A captura de um dos integrantes do grupo e a organização do sequestro do embaixador demonstram como os militantes procuram transformar sua capacidade de ação em uma forma de pressão sobre o Estado (CINEMATECA BRASILEIRA, s.d.).  A escolha de um representante diplomático dos Estados Unidos como alvo evidencia a dimensão internacional da estratégia adotada, uma vez que a ação pretendia ampliar a repercussão das denúncias contra a ditadura. A obra permite refletir sobre como grupos organizados são capazes de desafiar estruturas de poder e conquistar visibilidade política mesmo quando não dispõem dos recursos institucionais do Estado.

A capacidade de confrontar o Estado demonstra a existência de uma força política, mas não significa, necessariamente, que essa força tenha conquistado apoio popular amplo ou condições suficientes para transformar as estruturas sociais. Assim, o filme apresenta uma tensão importante entre a iniciativa de grupos que buscam promover mudanças e a necessidade de construir uma participação coletiva capaz de sustentar um projeto de transformação.

Nesse sentido, a obra dialoga com a perspectiva marxista das Relações Internacionais a partir das contribuições de Antonio Gramsci, filósofo e teórico político italiano que desenvolveu importantes reflexões sobre hegemonia, Estado e organização das forças sociais. Para Gramsci (2000), a manutenção de uma ordem política não depende exclusivamente da coerção, mas também da construção de mecanismos de direção e consenso que contribuem para sua legitimidade. A hegemonia envolve, portanto, a capacidade de determinados grupos estabelecerem sua visão de mundo como referência para a organização da sociedade. Essa perspectiva permite compreender que a ditadura não se sustentava apenas pela força militar, mas também pela tentativa de controlar a circulação de ideias, restringir a oposição e preservar as condições políticas que favoreciam a continuidade do regime.

A partir dessa interpretação, o poder popular pode ser compreendido como uma capacidade construída por meio da organização política, da formação de consciência crítica e da articulação entre diferentes forças sociais. Na perspectiva gramsciana, a transformação da sociedade exige mais do que a disposição de confrontar diretamente o Estado: pressupõe também disputar a direção política e cultural da sociedade (Gramsci, 2000).

Na obra, os militantes demonstram capacidade de organização e resistência e, nesse sentido, a luta contra uma estrutura autoritária não se resume à substituição de seus representantes, pois envolve a construção de condições para que outros grupos sociais participem da disputa política e questionem os valores e as relações de poder que sustentam a ordem existente.

Essa discussão contribui para compreender a importância da sociedade civil na transformação política. Para Gramsci, as relações de poder ultrapassam o espaço das instituições estatais e envolvem diferentes organizações e práticas sociais nas quais se disputam ideias, interesses e projetos de sociedade (Gramsci, 2000).

Dessa forma, o poder popular não deve ser entendido apenas como a capacidade de promover ações contra o governo, mas também como a possibilidade de construir formas coletivas de participação e organização. A resistência apresentada no filme evidencia a disposição do povo de enfrentar a repressão, enquanto a análise gramsciana permite ampliar essa reflexão ao destacar que mudanças duradouras dependem da capacidade de disputar a hegemonia e estabelecer vínculos com forças sociais mais amplas.

Além disso, a escolha do embaixador estadunidense como instrumento de negociação demonstra que as relações internacionais podem ser mobilizadas por atores que não ocupam posições oficiais de poder. Ao utilizar a relevância diplomática do representante estrangeiro para pressionar o governo brasileiro, os militantes procuram deslocar uma questão política nacional para um espaço de repercussão internacional. Essa estratégia demonstra que os Estados não são os únicos atores capazes de interferir na dinâmica internacional, embora disponham de recursos institucionais e materiais que os diferenciam de organizações clandestinas. Essa dimensão permite observar como os conflitos políticos se relacionam com disputas mais amplas por poder e legitimidade.

Em síntese, O que é isso, companheiro? contribuí para a reflexão sobre a resistência política, a organização coletiva e o enfrentamento ao autoritarismo. A partir das contribuições de Antonio Gramsci, a obra permite compreender que o poder popular se compõe a partir da construção de consciência política, pela articulação das forças sociais e pela disputa da hegemonia e representatividade. Dessa forma, o filme ultrapassa a representação de um episódio da resistência à ditadura e suscita uma questão central para as Relações Internacionais: como grupos sociais podem transformar sua oposição à ordem estabelecida em uma força coletiva capaz de produzir mudanças políticas e sociais mais amplas?

REFERÊNCIAS

CINEMATECA BRASILEIRA. O que é isso, companheiro? Filmografia Brasileira. São Paulo: Cinemateca Brasileira, s.d.

GABEIRA, Fernando. O que é isso, companheiro? Rio de Janeiro: Codecri, 1979.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere: Maquiavel, notas sobre o Estado e a política. v. 3. Edição e tradução de Carlos Nelson Coutinho; coedição de Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.