Keity Silva de Oliveira (acadêmica do 6º semestre de RI da UNAMA)

A aproximação entre os estudos de Gênero e as Relações Internacionais acontece no contexto do chamado “terceiro debate” em RI, entre os positivistas e os pós-positivistas, responsáveis pela ruptura da visão tradicional de análise que desconsiderava as variáveis relacionadas com a inserção de novos atores que impactam nos fenômenos internacionais. A partir disso, os estudos de gênero nas RI contam com teóricas que buscam apresentar novas perspectivas de gênero para análise, fornecendo novos rumos para uma maior participação das mulheres no cenário internacional.  

V. Spike Peterson é professora do Departamento de Ciência Política da Universidade do Arizona, onde mantém afiliações no Departamento de Estudos de Gênero e Mulheres e no Instituto de Estudos LGBT e Estudos Internacionais. Seus livros incluem “Gendered States” (1992) e “A Critical Rewriting of Global Political Economy (2003). Anne Sisson Runyan é professora e ex-chefe do Departamento de Estudos sobre Mulheres, Gênero e Sexualidade da Universidade de Cincinnati, onde mantém afiliações ao Departamento de Ciência Política e ao Centro de Pesquisa Charles Phelps Taft. Suas publicações incluem “Gender and Global Restructuring (2000)”.

Juntas, as duas autoras escreveram o livro “Global Gender Issues in the New Millenium” (2015), no qual analisam as divisões de poder e recursos de gênero que contribuem para as crises mundiais de representação, violência e sustentabilidade. Enfatizam também como a atenção arduamente conquistada à igualdade de gênero nos assuntos globais pode ser cooptada quando a questão de gênero é usada para justificar ou mistificar formas injustas de governança global, segurança internacional e economia política global. Dessa forma, a obra levanta questões importantes através da lente feminista, permitindo a reflexão sobre debates globais fundamentais no sistema internacional contemporâneo. 

Em primeiro plano, as autoras trazem o questionamento do que se torna visível quando vemos as “relações internacionais” como relações interconectadas de desigualdade entre gêneros, raças, classes, sexualidades e nacionalidades, ao invés de simples interações entre os Estados e seus interesses próprios. Esse questionamento nos leva a seguinte pergunta “quais são os custos da falta de atenção às dinâmicas de gênero na política mundial para lidar com uma infinidade de problemas globais que, em última análise, afetam a todos nós? (Runyan e Peterson, 2015, p. 30, tradução nossa). 

As autoras identificam duas possibilidades de trabalhar o gênero como categoria de análise nas RI. A primeira é chamada posição das mulheres e a segunda, poder do gênero (Runyan e Peterson, 2015). A primeira perspectiva é própria das feministas que se engajam na reflexão sobre as mulheres em RI, a partir do lócus da ausência e marginalização das mulheres em espaços considerados pelas teorias tradicionais como próprios da disciplina. Para as autoras, essas seriam as feministas de ponto de vista que passaram a buscar as mulheres, nas margens e espaços anteriormente impensados e impensáveis como parte das relações internacionais. 

No entanto, elas apontam que a maior parte das feministas emprega o pós-positivismo para não apenas localizar as mulheres em suas posições marginalizadas, mas também para demonstrar que essas posições estão ligadas ao poder do gênero – gênero como um sistema de símbolos, empregados para interpretar a realidade e ser um guia para as nossas ações (Monte, 2013). Essa concepção de gênero inverte a visão tradicionalista sobre a relação entre indivíduos e suas identidades de gênero, que permitem que compreendemos que a diferenciação entre masculino e feminino não é apenas uma característica individualista, mas sim, um conjunto de normas e significados que perpassa os indivíduos.

Nessa perspectiva, também oferece o entendimento do gênero como categoria presente em discursos e instituições em diferentes níveis da vida social, em âmbito nacional ou internacional. Dessa forma, o ponto de vista do poder do gênero seriam, de acordo com Runyan e Peterson, a construção política dos gêneros. 

As autoras chamam atenção para a construção políticas dos gêneros que implica em uma valorização superior do masculino e das atividades masculinas, resultando em uma organização social e política hierarquizada, fazendo com que identidades e atividades que são concebidas como próprias dos homens, ou de características masculinas, se sobressaiam em detrimento de identidades e atividades associadas às mulheres ou a características tidas como femininas. Essa hierarquização condiciona uma construção política, na medida em que distribui poder, autoridade e recursos de forma a privilegiar os homens – o acesso das mulheres aos recursos, ao poder e à autoridade é, por conta disso, desigual e desprivilegiado (Monte, 2013). 

Nesse sentido, apesar da diferenciação feita por Runyan e Peterson, o poder do gênero está intimamente ligado à posição das mulheres. Esta perspectiva é ligada com a exclusão tradicional das mulheres da alta política, espaço entendimento como lócus por excelência das relações internacionais. A construção dessa esfera como algo de alto prestígio está intimamente ligada à sua construção como um espaço predominantemente masculinizado que resulta na difícil inclusão de mulheres nessa esfera. 

Runyan e Peterson (2015) citam como exemplos na perspectiva de poder do gênero, as diferenças no acesso a recursos, poder e autoridade que afetam a posição das mulheres na sociedade e que se relacionam também com a delimitação pelo gênero na forma como vemos e interpretamos o mundo. Destarte, certas normas e instituições são responsáveis pelas formas como somos socializados nas hierarquias de gênero, como internalizamos pressupostos culturais e os definimos como parte de nossas identidades sociais (Monte, 2013). Tais normas garantem o controle social, internalizado pela família, pelas leis, pelo mercado, pela coerção física e, também, pela organização do sistema internacional.

Sendo assim, o gênero é importante não apenas por definir as relações de poder entre homens e mulheres, mas porque também condiciona o pensamento da sociedade a funcionar a partir de dicotomias hierarquizadas que permitem a legitimação de formas múltiplas de dominação em diversas esferas sociais, ou seja, o poder do gênero (Monte, 2013). 

Portanto, o trabalho de Runyan e Peterson se tornou essencial para a ligação entre os estudos de gênero e as Relações Internacionais, que conceberia a adaptação e ruptura das tradicionais abordagens do campo e abriria novos caminhos para a inserção de autoras que através de uma nova categoria de análise com a perspectiva do gênero, questionaram a exclusão de mulheres em espaços de poder e decisão, sobretudo na política internacional.

Referências:

MONTE, Isadora Xavier do. O debate e os debates: abordagens feministas para as relações internacionais. IN. Estudos Feministas, Florianópolis, 21, 2013. Disponível em: <  https://www.jstor.org/stable/24328035?read-now=1&seq=1#metadata_info_tab_contents > Acesso em: 08 de dezembro de 2023. 

RUNYAN, Anne Sisson; PETERSON, V. Spike. Global gender issues in the new millennium. 4ª edição. Reino Unido: Ed. Routledge, 2015. Acesso em: 08 de dezembro de 2023.