Julia Castro, acadêmica do 6º semestre de Relações Internacionais 

Ficha Técnica:

Ano: 2003

Direção: Bernardo Bertolucci

Distribuição: Fox Searchlight Pictures

Gênero: Drama, 

Países de Origem: Itália, França e Reino Unido

Ambientado durante os protestos estudantis que ocorriam em Paris no final da década de 1960, o enredo de “Os Sonhadores” gira em torno de um estudante universitário americano que, após conhecer dois irmãos que são fanáticos por cinema, mergulham em um intenso triângulo de paixão e idealismo, enquanto as ruas parisienses fervilham com os movimentos revolucionários. O longa-metragem foi baseado no romance “The Holy Innocents”, de Gilbert Adair, e explora as descobertas da juventude e o desejo de mudança (AdoroCinema, 2024). 

A história começa com Matthew, um jovem estudante americano, em Paris como parte de um intercâmbio. Ele é apaixonado por cinema e durante um protesto na Cinemateca Francesa, conhece os irmãos Théo e Isabelle, também cinéfilos devotos. Logo, os três formam um vínculo forte e aproveitam uma viagem dos pais dos gêmeos para se fecharem no apartamento deles. Isolados do exterior, eles se envolvem em uma série de jogos desafiadores, que testam os limites de sua amizade e sexualidade. Entre esses jogos, eles recriam cenas icônicas do cinema, como manifestação de sua devoção à arte.

No entanto, o relacionamento entre eles se torna cada vez mais complexo. Matthew se sente atraído por Isabelle, mas também se vê em um triângulo amoroso com Theo, que é extremamente protetor em relação à irmã. Théo demonstra tendências políticas radicais e é profundamente influenciado pelas ideias de Mao Tse Tung, enquanto Isabelle apresenta total submissão às ideias de seu irmão. À medida que os protestos se intensificam nas ruas de Paris, Matthew busca oferecer uma perspectiva externa mais pragmática sobre o que está acontecendo e tenta trazer uma dose de realidade para os irmãos, que parecem alienados das lutas políticas ao redor. 

Analisando o contexto histórico do filme, num momento em que jovens tentavam romper com as normas tradicionais, buscando liberdade política, sexual e intelectual, podemos relacioná-lo diretamente com as Relações Internacionais a partir dos conceitos da Escola de Frankfurt. Em “Eros e Civilização”, Marcuse afirma que a sociedade capitalista moderna reprime os instintos e desejos humanos, para manter a ordem e a produtividade. Ele sugere que a verdadeira emancipação só seria possível com a libertação do Eros (desejo): “O poder criador de cultura de Eros é sublimação não-repressiva: a sexualidade não é desviada nem impedida de atingir seu objetivo; pelo contrário, ao atingir o seu objetivo, transcende-o em favor de outros, buscando uma gratificação mais plena” (MARCUSE, 1975).  O filme mostra essa tentativa de libertação quando os personagens buscam uma vida baseada no prazer, no cinema e na imaginação, desafiando as normas sociais. 

Na mesma obra, Marcuse também critica o conformismo causado pelo capitalismo, que transforma as pessoas em meros consumidores, alheios à crítica social e política. A liberdade não pode ser conquistada sem mudar as condições sociais que impõem a repressão: “A fantasia permanece agradável, mas torna-se inútil, inverídica, um mero jogo, divagação. Como tal, continua falando a linguagem do princípio de prazer, da liberdade de repressão, do desejo e gratificação desinibidos, mas a realidade procede de acordo com as leis da razão” (MARCUSE, 1975). No filme, os personagens vivem em um mundo de fantasia e explorando o princípio de prazer através da sexualidade e do cinema. Porém, a realidade, com as tensões políticas e sociais de 1968, seguiam seu próprio curso. Essa alienação reflete a crítica de Marcuse à forma como a sociedade moderna impede a ação revolucionária através da cultura de massas. 

Em suma, a obra cinematográfica é um retrato da desilusão que permeou a juventude da época, podendo ser vista como uma expressão das ideias de Herbert Marcuse sobre a repressão e a libertação em uma sociedade capitalista avançada. A busca dos personagens por liberdade sexual e política reflete o clima de contestação da ordem mundial e o desejo de transformação, abordando questões de poder e resistência, que são centrais nas Relações Internacionais.

REFERÊNCIAS:

MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização: uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. 6ª edição. Tradução Álvaro Cabral, Rio de Janeiro, Zahar, 1975. 

Os Sonhadores. AdoroCinema. 2024. Disponível em: https://www.adorocinema.com/filmes/filme-42949/