
Lucas Cardoso acadêmico do 4° Semestre de RI da UNAMA
A Guerra de Independência da Argélia (1954-1962) foi um dos conflitos mais intensos do processo de descolonização africana no século XX. Travada entre o movimento de libertação argelino, liderado pela Frente de Libertação Nacional (FLN), e o governo colonial francês, a guerra resultou de uma longa história de dominação, opressão e resistência local. Marcado pela violência brutal, incluindo guerrilhas, repressão e tortura, o conflito culminou em 1962 com a independência da Argélia, deixando profundas feridas na sociedade e nas relações franco-argelinas que reverberam até hoje.
A Argélia em 1827 cobrou uma dívida ao governo francês que se recusou a pagar, o governador da Argélia como provocação atingiu o cônsul francês com um espanta mosca e esse episódio foi usado como desculpa da França para uma intervenção armada na região que de 1830 a 1870 o país passaria por um período chamado por franceses na época de “pacificação” que em outras palavras e analisando o período histórico foi a conquista da região que inclusive no início desse período surgiu a legião estrangeira, o objetivo era criar uma força militar que pudesse utilizar soldados estrangeiros para defender os interesses da França, especialmente em suas colônias. onde sua principal base se encontrava na Argélia (AJAYI, 2010).
Por causa do conflito, escassez de alimento, água e epidemia de doenças cerca de 1/3 da população berbere morreu e o governo francês incentiva cada vez mais a imigração de colonos franceses e em 1848 a Argélia foi incorporada a um departamento francês fazendo ela uma parte oficial da França e não uma colônia, tendo status jurídicos como os outros departamentos na Europa, os colonos no norte da África eram chamados de “Pied-noirs”, para prosseguir o projeto de assimilação completa entre os berberes eles expandiram o sistema público de educação com aprendizagem do idioma e dos símbolos do país para as crianças e o serviço militar para os adultos, tanto europeus cristãos quanto berberes muçulmanos lutaram em 2 guerras mundiais (VISENTINI, 2013).
Havia diferenças políticas entre a população argelina cristã, judaica e muçulmana onde ocorreu um certo progresso após a participação na Primeira Guerra Mundial e após a Segunda Guerra Mundial toda a população argelina era considerada cidadã francesa o que incluía direito ao voto e trouxe uma série de crises na França como o movimento de 1954 que exigia a independência argelina após episódios de violência sectária, a França acabava de ser derrotada na guerra da Indochina e o governo queria fazer uma demonstração de força para evitar outra derrota (YASBEK, 2010).
Para o presidente da época René Coty não se tratava da perda de colônias, mas da separação do território que era visto como parte da França, a independência então não foi aceita, o governo francês enviou tropas para Argélia assim iniciando a guerra que durou 8 anos com 3 lados no conflito, a Frente de Libertação Nacional (FLN) liderada por berberes muçulmanos contra tropas do governo que era composta por europeus e argelinos muçulmanos que eram contra a independência, onde as tropas principais eram batalhões da legião estrangeira e por fim as organizações paramilitares formada por europeus nascidos na Argélia que eram contra a independência e fazia atentados terroristas para tentar influenciar a opinião pública (YASBEK, 2010).
A guerra resultou em 300 mil mortos e se tornou infame pelo uso de violência e tortura por ambos os lados, no último ano do embate aconteceu dois episódios políticos que foram decisivos para o fim da guerra onde em 1961 um referendo convocado pelo presidente De Gaulle obteve 75% da população votando favor do reconhecimento da independência e da negociação da paz, e a falha tentativa de golpe por parte do exército e das organizações paramilitares, a Argélia se tornou um país independente no dia 5 de julho de 1962 pelo acordo de Évian (YASBEK, 2010).
A guerra resultou em um grande número de refugiados como 1 milhão de Pied noirs e 2 milhões de berberes e após episódios de hostilidades, europeus remanescentes no país saíram para França o que na atualidade é uma pauta bem presente visto que 12,5% da população francesa atual têm origem do norte da África e quase 9% é muçulmana, como consequência os ataques terroristas no país nos últimos anos sempre é debatido, a formação da sociedade francesa nas eleições onde o ponto principal é que independente da origem e religião são cidadãos franceses, a Argélia fazia parte da França e o reconhecimento de nacionalidade antecede a independência (MAZRUI, 2010).
Por exemplo a Mesquita de Paris foi construída em 1926 como reconhecimento aos 100 mil argelinos que lutaram na Primeira Guerra Mundial ao lutarem pela França, de acordo com as leis do país qualquer pessoa nascida na Argélia até 1962 e os filhos até 1994 são considerados franceses possuindo todos os direitos de um cidadão, o que torna a discussão de terrorismo ou o que seria imigrante ou um francês bastante complexa (BOAHEN, 2010).
Em Social Theory of International Politics (1999), Alexander Wendt argumenta que a anarquia no sistema internacional não leva inevitavelmente ao conflito, pois os interesses e identidades dos Estados são moldados socialmente, através de suas interações. Aplicando essa ideia à relação entre França e Argélia, pode-se compreender que, apesar de um histórico de dominação e resistência, suas identidades nacionais foram em parte co-construídas ao longo do tempo. A identidade da Argélia como nação independente e a visão francesa sobre os argelinos emergiram dessas interações. Segundo Wendt, essas construções identitárias ainda influenciam questões atuais, como debates sobre cidadania e integração na França.
Dessa forma, observa-se que as identidades nacionais são construídas e transformadas ao longo do tempo, moldadas pelas interações entre os Estados. A dinâmica histórica entre França e Argélia exemplifica como um passado marcado pela colonização e resistência contribuiu para a definição das identidades nacionais de ambos, que continuam a se influenciar mutuamente. Esse processo de construção mútua impacta discussões atuais sobre cidadania e integração na França, evidenciando como relações coloniais ainda repercutem nas questões contemporâneas e influenciam o cenário global.
Referências:
AJAYI, J.F Ade. História Geral da África – Vol. VI: África do século XIX à década de 1880. 2. Ed. UNESCO, 2010.
BOAHEN, Albert Adu. História Geral da África – Vol. VII – África sob dominação colonial, 1880-1935.UNESCO, 2010.
MAZRUI, Ali A. (Org.). História Geral da África – Vol. VIII: África desde 1935. 2. ed. UNESCO, 2010.
MAZRUI, Ali A. (Org.). História Geral da África – Vol. VIII: África desde 1935. 2. ed. São Paulo: Ática, 2010.
VISENTINI, Paulo. O Grande Oriente Médio. Editora GEN Atlas, 2014.
WENDT, Alexander. Social Theory of International Politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.
YASBEK, Mustafa. A Revolução Argelina. São Paulo:UNESP, 2010
