Maria Luiza Garcia Lira – 2º semestre de Relações Internacionais da Unama.

No estudo da Relações Internacionais existe um embate entre as duas principais correntes de pensamento: o Realismo, que parte da compreensão de que os estados são os atores principais no sistema internacional e que a natureza de seu comportamento é de egoísmo e de desconfiança, gerando guerra e intensas disputas de poder; e o Idealismo, que se sustenta no pluralismo, entendendo ser possível a existência da paz no sistema internacional e a legitimidade das instituições (Sarfati, 2000).

O realismo de Tucídides considera a inevitabilidade da guerra e como essa busca por hegemonia antecipa e potencializa conflitos violentos entre estados, marcando a guerra pelo desequilíbrio de poder e gerando anarquia entre os Estados. O historiador ateniense abordou em sua obra “A História da Guerra do Peloponeso” a importância das alianças em um período de conflitos, como a aliança de um estado médio a uma grande potência, para garantir o fornecimento de armas e apoio político e econômico durantes conflitos. No entanto, Tucídides também discorria sobre como os estados médios se aliam pensando nos próprios interesses e como as alianças, nesse cenário, são frágeis (Tucídides, 1476).

Em contraposição à ideia de que a guerra é inevitável, os idealistas acreditam na construção da paz como algo possível. Neste contexto, é importante destacar as ideias de Hugo Grotius, em especial a sociabilidade como regra reguladora e o direito internacional a partir de suas considerações a guerra justa e o jus in bello. Para o jurista holandês, uma guerra justa só é possível se motivada por causas legítimas e pelo seguimento das regras da guerra, como a proporcionalidade, a qual inclui o tratamento humanitário de civis e prisioneiros. Para ele, a construção da paz só é possível por meio de uma ação reguladora (Grotius, 1625).

A escalada de conflitos no Oriente Médio ocorre por múltiplos fatores, dentre eles, a busca e a manutenção de poder do presidente israelense Benjamin Netanyahu na região. O conflito que ocorre desde 1948 entre Israel e Palestina – motivado por disputas territoriais, ideológicas, religiosas e hegemonia política – vem apresentando desdobramentos graves ao bem-estar das sociedades da região e à soberania desses Estados. Assim, desde 7 de outubro de 2023, após os ataques do grupo Hamas aos cidadãos israelenses, o presidente de extrema-direita utiliza forças desproporcionais para justificar os horrores de uma guerra injusta e desumana, na realidade, um genocídio do povo palestino.

Dentre os fatores que motivam a continuidade e o alastramento desses conflitos por outros países, os interesses regionais e internacionais são fundamentais para entender essa dinâmica da guerra. Sendo a região do Oriente Médio uma grande potência em reservas de petróleo e gás natural, e contando com a presença em alguns grupos como Hamas e Hezbollah em países vizinhos, como o Líbano, Israel utiliza uma narrativa similar a estadunidense durante a “guerra ao terror”, quando os Estados Unidos invadiram o Iraque e o Afeganistão sob o discurso de combater o terrorismo e garantir a democracia nos países.

Em contrapartida ao passado de tensões entre Israel e Líbano, a persistência da questão da Palestina reascendeu a crise com o Líbano, principalmente por estar em localização estratégica, que possibilita os ataques de grupos que apoiam o movimento palestino, dentre eles, Hamas e Hezbollah, a quantidade expressiva de refugiados palestinos e a presença de membros do alto escalão desses grupos em cidades do Líbano, o que, segundo Israel, necessitava de uma resposta rápida e efetiva para combater essas ações, resultando em bombardeios diários no país (Portal G1, 2024).

Nesse contexto, pode-se analisar a partir do pensamento realista que Estados buscam a garantia e a manutenção do poder num contexto de alianças, o qual foi elucidado pelo autor Tucídides. Israel, então, alia-se aos Estados Unidos para garantir apoio econômico e político no sistema internacional e potencializar sua hegemonia na região.

Contudo, como previsto pelo autor ateniense, as alianças são voláteis e apresentam mudanças a medida que os interesses mudam, e os interesses de Benjamin Netanyahu tornam-se uma ameaça a soberania de múltiplos estados, sendo assim, o que contribuiu em dezembro de 2023, para um questionamento dentro do próprio governo de Joe Biden, potencializado por pressões internas e externas das sociedades e autoridades, acerca da manutenção do apoio militar à Israel que sustentava uma carnificina dos palestinos pela ofensiva dos israelenses (BBC NEWS Brasil, 2023).

Em paralelo a perspectiva realista, é possível analisar esse conflito em uma perspectiva idealista do jurista Hugo Grotius. Nota-se a partir dessa ótica, que o princípio de proporcionalidade não foi utilizado no contexto da guerra e ocasionou a dilaceração dos direitos humanitários dos civis vitimados nesse conflito. Quando Israel responde aos ataques do Hamas, exerce um direito de defesa, para começar um confronto, o que para o autor seria o jus ad bellum, mas ao continuar as ofensivas de forma desproporcional, atacando áreas que devem ser protegidas (escolas, hospitais e templos religiosos) e áreas civis não militarizadas, há uma violação dos direitos humanitários na região. Assim, em uma visão idealista de Hugo Grotius, a paz só seria possível se a guerra tivesse iniciado com causas legítimas e seguindo uma proporcionalidade, por isso, o estabelecimento de uma paz duradoura ainda é uma incerteza no cenário internacional.

REFERÊNCIAS:

Bombardeios de Israel ao Líbano deixaram pelo menos 41 mortos e 124 feridos em 24 horas, diz governo libanês. Portal G1. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2024/10/15/bombardeios-de-israel-ao-libano-deixaram-pelo-menos-41-mortos-e-124-feridos-em-24-horas-diz-governo-libanes.ghtml. Acesso em 02 de novembro de 2024.

GROTIUS, Hugo. De Jure Belli ac Pacis. Leiden. Daniel Elzevir, 1625.

SARFATI, Gilberto. Teorias de relações internacionais. Editora Saraiva, 2000.

TUCÍDIDES. Historiae Belli Peloponnesiaci. Roma. Johann Balthasar, 1476.

WENDLING, M; BACHEGA, H. Israel está perdendo apoio mundial por conta de bombardeios em Gaza, diz Biden. BBC NEWS BRASIL, 2023. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cw0d549kjywo. Acesso em 01 de novembro de 2024.

WONG, Tessa. O papel que a China quer na guerra entre Israel e Hamas. BBC NEWS BRASIL, 2023. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cyd1dqylrego. Acesso em 02 de novembro de 2024.