Alciane Carvalho Dias – Acadêmica do 7º semestre de Relações Internacionais

O carnaval, muito além de uma simples festividade, emerge como uma poderosa manifestação cultural que desafia estruturas de poder e reafirma identidades marginalizadas. No Brasil, essa celebração transcende o aspecto lúdico, transformando-se em um espaço de resistência social e política, onde vozes historicamente silenciadas encontram eco. Sob a perspectiva das Relações Internacionais, o carnaval pode ser analisado à luz da Teoria do Reconhecimento de Axel Honneth (1995), que destaca a luta por identidade e respeito como motores de transformação social. Além disso, o carnaval resiste à homogeneização cultural imposta pela globalização, afirmando-se como um fenômeno que promove influência internacional e contestação sociopolítica.

Um aspecto fundamental dessa resistência é a intrínseca ligação do carnaval com as religiões afro-brasileiras, como o Candomblé e a Umbanda, que desempenham um papel central na formação da identidade cultural e na luta pelo reconhecimento das comunidades negras e periféricas.

A Teoria do Reconhecimento (HONNETH, 1995) oferece uma lente valiosa para compreender o carnaval como um espaço de disputa simbólica. Grupos marginalizados – como comunidades negras, indígenas e periféricas – utilizam essa manifestação cultural para reivindicar visibilidade e desafiar narrativas excludentes. No Brasil, o carnaval tem sido historicamente um palco de resistência, desde os tempos da escravidão até os dias atuais. As escolas de samba, por exemplo, surgiram como expressões populares que resgatam a identidade afro-brasileira e confrontam o racismo estrutural (FREYRE, 1933).

Os desfiles das escolas de samba frequentemente abordam temas como desigualdade social, violência policial e racismo, desafiando versões oficiais da história e promovendo uma releitura crítica da realidade (CALDEIRA, 2020). Além disso, as religiões afro-brasileiras, como o Candomblé e a Umbanda, estão profundamente enraizadas na cultura carnavalesca. Os ritmos, as cores e os símbolos presentes nos desfiles muitas vezes remetem a orixás e entidades espirituais, celebrando a ancestralidade africana e resistindo à marginalização dessas práticas religiosas (PRANDI, 2005). Assim, o carnaval não se limita à celebração da diversidade; ele se consolida como um campo de luta por reconhecimento político e social.

Essa dinâmica não se restringe ao Brasil. O Notting Hill Carnival, em Londres, e o Mardi Gras, em Nova Orleans, são exemplos de como o carnaval se tornou um fenômeno global de resistência. Ambos têm raízes na luta de comunidades racializadas contra a exclusão e a repressão policial (HALL, 1992). Essas manifestações evidenciam que o carnaval é mais do que entretenimento: é uma plataforma de negociação identitária e contestação social.

A globalização, conforme David Held (1999), intensifica as interconexões culturais, mas também impõe desafios como a padronização e a mercantilização das tradições. O carnaval brasileiro, embora beneficiado pela projeção internacional, enfrenta riscos de descaracterização devido à crescente influência de interesses corporativos e à elitização do acesso às festividades. A proliferação de camarotes exclusivos e blocos patrocinados, por exemplo, ameaça excluir as camadas populares de um espaço que historicamente lhes pertence (RATTNER, 2015).

No entanto, o carnaval resiste. Blocos de rua independentes e escolas de samba com narrativas críticas continuam a afirmar essa manifestação como um espaço de contestação. No Pará, por exemplo, blocos como o Amigos do Urubu, Rabo do Peru, Fofó do Lino mantêm viva a tradição carnavalesca local, resistindo ao avanço da mercantilização e preservando a cultura popular. Esses blocos, que há décadas animam as ruas do Estado, em Belém e Cametá, são exemplos de como o carnaval pode ser um espaço de resistência e afirmação cultural (G1, 2015). Temas como racismo estrutural, crise climática e violência policial têm ganhado destaque nos desfiles, demonstrando que o carnaval permanece um território de luta e reivindicação. Essas expressões culturais não apenas preservam a identidade local, mas também a projetam globalmente, desafiando a homogeneização cultural.

A presença das religiões afro-brasileiras no carnaval é um exemplo marcante dessa resistência. Os terreiros de Candomblé e Umbanda, espaços sagrados de culto e preservação da cultura africana, muitas vezes servem como pontos de encontro e organização para blocos e escolas de samba. A música, a dança e os símbolos religiosos são incorporados às celebrações, reforçando a conexão entre espiritualidade e cultura popular (SANTOS, 2008). Essa interseção entre o sagrado e o profano não apenas enriquece o carnaval, mas também desafia a marginalização histórica das religiões de matriz africana.

Essa resistência não é exclusiva do Brasil. O Carnaval de Barranquilla, na Colômbia, por exemplo, tem sido utilizado por comunidades afrodescendentes para reivindicar seu lugar na identidade nacional, confrontando narrativas eurocêntricas (WADE, 2005). Assim, o carnaval se consolida como um espaço dinâmico, onde identidades são reafirmadas e a luta pelo reconhecimento se entrelaça com as disputas políticas e sociais.

O carnaval, enquanto fenômeno cultural, transcende seu caráter festivo para se tornar uma arena de resistência e reconhecimento. Sob a ótica da Teoria do Reconhecimento, ele se revela como um espaço onde grupos marginalizados afirmam suas identidades e desafiam estruturas de poder. Em um contexto de globalização e mercantilização da cultura, o carnaval resiste como um símbolo de autenticidade, ressignificando tradições e promovendo formas alternativas de influência e contestação.

A interseção entre cultura e poder, destaca como manifestações culturais podem atuar como mecanismos de transformação social. A preservação da autenticidade e da acessibilidade do carnaval torna-se, portanto, uma questão política crucial, essencial para garantir que essa celebração continue a ser um espaço de inclusão e resistência. A presença das religiões afro-brasileiras no carnaval reforça essa luta, conectando espiritualidade, cultura e política em uma expressão única de resistência e afirmação identitária.

REFERÊNCIAS

CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidades de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo: Edusp, 2020.

DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala: Formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 3. ed. Rio de Janeiro: Maia & Schmidt, 1933.

G1, Pará. Conheça a história dos tradicionais blocos de carnaval de Belém.https://g1.globo.com/pa/para/e-do-para/noticia/2015/01/conheca-historia-dos-tradicionais-blocos-de-carnaval-de-belem.html. 24 de Janeiro de 2015

HALL, Stuart. The Question of Cultural Identity. In: HALL, Stuart; HELD, David; McGREW, Anthony (eds.). Modernity and Its Futures. Cambridge: Polity Press, 1992. HELD, David. Global Transformations: Politics, Economics and Culture. Stanford: Stanford University Press, 1999.

HONNETH, Axel. The Struggle for Recognition: The Moral Grammar of Social Conflicts. Cambridge: MIT Press, 1995.

PRANDI, Reginaldo. Segredos guardados: orixás na alma brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

RATTNER, Henrique. Globalização e Cultura: Impasses e Perspectivas. São Paulo: Annablume, 2015.

SANTOS, Jocélio Teles dos. O poder da cultura e a cultura no poder: a disputa simbólica da herança cultural negra no Brasil. Salvador: Edufba, 2008.

WADE, Peter. Race and Ethnicity in Latin America. London: Pluto Press, 2005.