Ana Gabriela de Souza e Silva – Acadêmica do 4º semestre de Relações Internacionais da UNAMA.

A Santa Sé é um importante mediador, um ator internacional respeitado, que tem um lugar permanente como observador na ONU (Organização das Nações Unidas). Representada pelo Papa, cuja voz é ouvida por milhares de pessoas pertencentes à religião católica ou não. A influência papal vem desde os primórdios de sua fundação como instituição religiosa, adaptando-se aos anos e mudando seu nível de influência de acordo com a época vivida, coroando e destronando reis, começando e findando guerras ao longo de sua história.

Há diferença entre o Estado do Vaticano e a Santa Sé, o primeiro tendo caráter político, reconhecido pelo Direito Internacional como um Estado teocrático, e o segundo é religioso, sendo basicamente o Papa, mas também a Cúria Romana (Brustolin, Ambrogi, 2025; Monsenhor Oliveira, 2021). Atualmente, a Santa Sé tem um importante papel diplomático, porém, nem sempre sua influência e negociações com os Estados foram apenas no nível da diplomacia.

No ano 452 d.C, o Papa Leão I impediu que o Huno, Átila, invadisse Roma. Ele já havia saqueado e devastado cidades vizinhas, porém o Papa conseguiu convencê-lo a ir embora, da mesma forma com invasores vindos da África comandados pelo rei Genserico. Conseguiu impedir que a cidade fosse saqueada, mas não queimada, entretanto duas igrejas onde pessoas haviam se refugiado, ficaram intactas (Vatican News, 2025).

Leão III coroou Carlos Magno como Imperador dos Romanos, iniciando uma tradição que não apenas foi seguida, mas também profundamente vivida. Somente o Papa poderia indicar e coroar reis e imperadores (Carvalho, 2025). Para além disto, outorgou a eles, uma autoridade suprema, onde passavam a ter poder, não apenas sob os fiéis e a Igreja, mas também sob os imperadores e seus exércitos, influenciando até mesmo na dinâmica do reino.

Um exemplo disso, são os Papas Gregório VII e Inocêncio III que excomungaram os reis após desavenças por conta da nomeação de bispos e arcebispos. Posteriormente, tanto Henrique IV quanto rei João da Inglaterra, tiveram que desculpar-se. Henrique IV passando por humilhação pública, e João entregando seu reino ao papa como se fosse um feudo e ele na posição de vassalo, pagando anualmente um tributo para a Santa Sé (ibid).

Outro exemplo da influência papal, foi Urbano II que iniciou a primeira Cruzada. O Império Bizantino que estava sendo invadido por turcos seljúcidas, pediu ajuda ao papa, este fez um discurso pedindo aos cavaleiros que livrassem a Terra Santa e protegessem os cristãos dos mulçumanos, prometendo também, a quem participasse da guerra o perdão máximo (Carvalho, 2025).

Com isso, fica notório o poder da Santa Sé que é um forte aliado diplomático da paz. Em tempos antigos, a guerra e os conflitos não eram vistos com o peso que tem atualmente, até porque a capacidade de destruição mudou muito. Diferença esta que foi percebida e sentida a partir da Primeira Guerra Mundial, quando os armamentos mudaram e foram ficando cada vez mais destrutivos. Esta diplomacia exercida pela Santa Sé é uma das mais influentes do mundo, pela autoridade moral que carrega, pela boa relação com os Estados e pela neutralidade, o que permite fazer boas mediações em conflitos internacionais (Brustolin; Ambrogi, 2025).

O Papa Francisco possibilitou transformações na diplomacia do Vaticano, envolvendo-se em questões que são pautas internacionais como o meio ambiente, marcando a entrada da Santa Sé nas questões ecológicas mundiais, bem como a questão dos migrantes e refugiados, posicionando-se na agenda global. Promovendo uma maior interação entre as religiões através de diálogos, destacando a importância de cooperação entre elas. Foi mediador nos diálogos entre Estados Unidos e Cuba, ajudando a restabelecer as relações diplomáticas entre eles (Brustolin; Ambrogi, 2025).

Pode-se perceber a evolução da Santa Sé ao longo dos séculos, que um dia brigou com imperadores por causa de nomeações, que iniciou guerras e interditou reinos, fica evidente que sua autoridade não se restringia somente às questões religiosas, mas se expandia para o campo político e militar. Este poder que foi amadurecendo e se adaptando ao tempo, usando sua influência para tentar sanar dores e aflições ao invés de causá-las, sendo conciliador em guerras e conflitos, usando a diplomacia para tratar de assuntos sérios que merecem um olhar cuidadoso, como os desafios ambientais.

REFERÊNCIAS

AMBROGI, Arthur; BRUSTOLIN, Vitelio. Vaticano: papel diplomático num mundo em guerra. NEXO JORNAL. 5 maio de 2025. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/externo/2025/05/05/vaticano-papel-diplomatico-mundo-em-guerra. Acesso em: 2 jul. 2025.

CARVALHO, Marta Coropos. Trono mais poderoso da história: quem foram os papas que mandavam no mundo? CNN Brasil. 17 jun. 2023. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/trono-mais-poderoso-da-historia-quem-foram-os-papas-que-mandavam-no-mundo. Acesso em: 2 jul. 2025.

OLIVEIRA, Monsenhor André Sampaio. Entenda o que é a Santa Sé e o Estado da Cidade do Vaticano. VATICAN NEWS. 12 abr. 2021. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2021-04/entenda-o-que-santa-se-e-o-estado-da-cidade-do-vaticano.html. Acesso em: 2 jul. 2025.

VATICAN NEWS. S. Leão Magno, Papa e Doutor da Igreja. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/santo-do-dia/11/10/s–leao-magno–papa-e-doutor-da-igreja.html. Acesso em: 2 jul. 2025.