
Railson Silva (acadêmico do 8º semestre de RI da UNAMA)
A teoria das Relações Internacionais (RI) vem sendo tradicionalmente dominada por paradigmas que, direta ou indiretamente, aceitam a ordem mundial existente como um dado imutável ou natural. Nesse contexto, Robert W. Cox propôs uma abordagem de teor crítico que desafia esse pressuposto, partindo da premissa de que “uma teoria é sempre para alguém e para algum propósito” (Cox, 1981, p. 128). A relevância dessa formulação reside em deslocar o foco analítico da mera gestão dos problemas internacionais para a interrogação das estruturas históricas que produzem esses problemas.
O ponto de partida do pensamento de Robert Cox é a célebre distinção entre dois tipos de teoria. A teoria de “resolução de problemas” (problem-solving theory), que domina o mainstream da disciplina, toma o mundo como ele é. Suas premissas fundamentais – a anarquia, a existência de Estados como atores centrais, a racionalidade instrumental – são aceitas como parâmetros fixos e imutáveis dentro dos quais os problemas como a guerra ou a crise econômica devem ser resolvidos (Cox, 1981). Esta teoria é, por natureza, conservadora, pois visa a eficácia e a estabilidade do sistema existente, não a sua transformação.
Em contrapartida, a teoria crítica recusa-se a tomar as instituições e as relações de poder como dadas. Ela é, por definição, reflexiva. O seu objetivo é investigar a origem dessas estruturas, entender como elas surgiram de um processo histórico específico e, crucialmente, identificar as possibilidades de mudanças inerentes ao presente.
Para o teórico, a teoria crítica está sempre orientada para o futuro, buscando avaliar em que rumo vão as coisas. Ela pergunta para quem uma determinada ordem é benéfica, que formas de dominação ela sustenta e que alternativas de organização social podem ser vislumbradas. Enquanto a teoria de resolução de problemas serve aos interesses daqueles que detêm o poder no status quo, a teoria crítica procura ser um instrumento de emancipação (Cox, 1981).
E para operacionalizar a sua teoria crítica, Cox propõe uma estrutura analítica dialética que permite desmontar qualquer ordem mundial histórica. Segundo ele, uma ordem não é simplesmente imposta pela força, mas é estabilizada através de uma complexa interação entre três categorias de forças, que se influenciam mutuamente (Cox, 1981).
Capacidades Materiais: Referem-se aos recursos económicos e militares, à base produtiva e tecnológica. É a dimensão do poder tangível, a infraestrutura sobre a qual a ordem se assenta.
Ideias: Esta categoria opera em dois níveis. O primeiro são as ideias intersubjetivas, que são crenças partilhadas, normas e valores que conferem significado à ordem. O segundo, e mais crucial, são as ideias que legitimam a ordem, um conjunto de concepções sobre a natureza da realidade social que justificam as estruturas de poder existentes, frequentemente apresentadas como universais e naturais.
Instituições: São as formas estáveis e cristalizadas que emergem para consolidar uma certa conjugação de ideias e capacidades materiais. Elas “congelam” as relações de poder de uma época e tornam-se os mecanismos através dos quais a ordem é reproduzida (Cox, 1981).
A chave de sua análise está na relação dialética entre estes três elementos. Não há uma determinação mecânica, mas uma influência recíproca. Por exemplo, uma nova capacidade material como a Revolução Industrial gera novas ideias sobre a produção e o comércio, que por sua vez levam à criação de novas instituições como o padrão-ouro ou a fábrica, as quais, uma vez estabelecidas, reforçam certas ideias e consolidam o poder de quem detém as capacidades materiais dominantes.
É com base nesse contexto que Cox (1987) desenvolve os seus conceitos centrais de produção, Estado e hegemonia mundial. Para ele, as relações sociais de produção são a base a partir da qual se formam as forças sociais fundamentais. Diferentes modos de produção (feudal, capitalista) geram diferentes classes sociais (senhores feudais/camponeses, burguesia/proletariado) com interesses contraditórios.
O Estado não é uma entidade neutra ou um mero instrumento, como sugerem algumas teorias realistas. Para Cox (1987), o Estado é uma arena onde as forças sociais oriundas do processo produtivo se encontram e disputam a sua influência. O Estado é, portanto, uma expressão historicamente contingente de uma certa correlação de forças sociais. A sua forma e as suas políticas refletem o compromisso instável entre as classes dominantes e as classes subalternas, sendo um local privilegiado para o exercício da hegemonia.
A hegemonia mundial é a aplicação deste conceito à escala global. Uma ordem hegemônica, como a Pax Britannica ou a Pax Americana, não é sustentada apenas pela coerção militar ou econômica (dominação). Ela é estabilizada quando uma potência líder consegue projetar um conjunto de ideias e valores que são aceites como legítimos e universais por uma ampla gama de Estados e forças sociais, incluindo muitas daquelas que são por ela oprimidas (Cox, 1981; 1983).
Assim, esta hegemonia opera através de instituições internacionais (FMI, OMC) que difundem normas, disciplinam comportamentos e criam um consenso em torno da “racionalidade” da ordem liberal. O declínio da hegemonia ocorre quando este consenso se fragmenta, quando as contradições internas da ordem se tornam insustentáveis e quando emergem contra-hegemonias que desafiam as ideias, instituições e estruturas materiais dominantes.
Por fim, a contribuição de Robert Cox para as Relações Internacionais é, em essência, um convite à desobediência intelectual. Ao cunhar a distinção entre teoria problem-solving e teoria crítica, ele forneceu à disciplina um poderoso instrumento de autocrítica, forçando-a a reconhecer seu próprio enraizamento em contextos históricos e interesses específicos. A sua obra desmistifica a aparente neutralidade e objetividade do mainstream teórico das RI, revelando-o como um discurso que, voluntária ou involuntariamente, tende a servir à perpetuação das estruturas de poder existentes.
Referências:
COX, Robert W. Social Forces, States and World Orders: Beyond International Relations Theory. Millennium: Journal of International Studies, v. 10, n. 2, p. 126-155, 1981.
COX, Robert W. Gramsci, Hegemony and International Relations: An Essay in Method. Millennium: Journal of International Studies, v. 12, n. 2, p. 162-175, 1983.
COX, Robert W. Production, Power, and World Order: Social Forces in the Making of History. New York: Columbia University Press, 1987.
