Pedro Paes, acadêmico do 6° semestre de Relações Internacionais

Wangari Maathai nasceu em 1º de abril de 1940, na vila de Ihithe, no Quênia, em uma época em que o país ainda vivia sob domínio colonial britânico. Ela mostrou desde pequena um grande interesse e um forte laço com o mundo natural. Com o incentivo de sua família, foi uma excelente aluna e ganhou uma bolsa de estudos para graduação em Biologia nos Estados Unidos da América (EUA), sendo a primeira mulher da África Oriental a obter um PhD em ciências biológicas (Nobel Foundation, 2004).

Após seu retorno ao Quênia, Maathai dedicou-se a causas socioambientais, notando como o desmatamento e a destruição da natureza afetavam a vida das pessoas no interior, principalmente das mulheres. Em 1977, fundou o Green Belt Movement (Movimento Cinturão Verde), um plano que juntava o plantio de novas florestas com o apoio às mulheres. A ideia era incentivar as mulheres a plantar árvores para ajudar a natureza a se recuperar e garantir seu sustento. Era uma maneira nova de relacionar o meio ambiente à igualdade entre as pessoas (Green Belt Movement, 2018).

A atuação de Wangari Maathai ultrapassou a simples proteção da natureza, destacando-se como uma voz firme contra o governo ditatorial no Quênia, enfrentando detenções, opressão e violência em resposta às suas denúncias. Ela revelou a prática de corrupção, o abuso de autoridade e a maneira como figuras políticas abastadas se apropriavam dos recursos naturais. Sua coragem e integridade lhe renderam admiração global, resultando em sua eleição para o parlamento e nomeação como ministra do Meio Ambiente em 2003 (Araujo, 2024).

No ano de 2004, Wangari Maathai recebeu o Prêmio Nobel da Paz, um feito inédito para uma mulher africana. A organização do prêmio destacou tanto sua dedicação ao meio ambiente quanto sua batalha em prol da democracia, dos direitos humanos e da paz mundial. Sua visão abrangente revelava uma conexão fundamental entre a proteção ambiental e a busca por dignidade, igualdade e liberdade para todos (Nobel Foundation, 2004).

Wangari Maathai faleceu em 2011, deixando um legado profundo e duradouro. Seu ativismo incentivou ações ecológicas globalmente e ainda serve de modelo para quem procura alternativas verdes e que integrem a todos. Ela não foi apenas uma ambientalista, mas também uma pensadora que desafiou as estruturas coloniais e patriarcais, aproximando-se da crítica pós-colonial e decolonial, e uma fervorosa defensora da equidade, uma figura cujas origens se transformaram em árvores que seguem a dar frutos (Nobel Foundation, 2004).

A perspectiva pós-colonial de Gayatri Spivak (SPIVAK, 2010) se destaca por examinar minuciosamente as forças que impedem a expressão dos marginalizados, indivíduos à margem das histórias tradicionais, incluindo mulheres, trabalhadores rurais e grupos colonizados. No seu influente texto “Pode o Subalterno Falar?”, Spivak (2010) indaga se estes indivíduos conseguem, de fato, ter suas opiniões consideradas dentro das abordagens de conhecimento e retratação ocidentais.

Spivak (2010) sustenta que, mesmo quando o marginalizado se manifesta, suas ideias são comumente modificadas, deturpadas ou suprimidas por sistemas coloniais, dominados por homens e intelectuais. Para Spivak (2010), o objetivo é estabelecer ambientes onde essas opiniões consigam aparecer de forma independente, sem serem absorvidas por narrativas dominantes.

Wangari Maathai personifica essa chance de expressão marginalizada. Como africana, pesquisadora e militante, ela superou diversos obstáculos ao criar o Movimento Cinturão Verde, que não só plantava árvores, mas também fomentava o discernimento cívico entre as mulheres do campo (Araujo, 2024).

Ao estimular o replantio florestal como um tipo de oposição, Maathai expressava conhecimentos regionais e ações ecológicas que questionavam tanto a forma de progresso ocidental como o despotismo doméstico. Seu trabalho restituiu o poder de ação às mulheres quenianas, possibilitando que elas se manifestassem, não só figurativamente, mas realmente, sobre suas carências, seus domínios e suas prerrogativas. Deste modo, Maathai concretiza o que Spivak sugere: a insurgência da fala subalterna que emerge do Sul global, convertendo o ato de plantar árvores em um gesto político e epistêmico.

Além disso, Maathai não se limitou a expressar a voz dos marginalizados; também uniu diferentes formas de conhecimento. Com uma educação em instituições ocidentais, aproveitou esse aprendizado para valorizar as tradições africanas, sem impor a elas uma visão colonialista.

Essa abordagem integra o conhecimento científico e o saber tradicional, questiona a divisão
entre o dominante e o dominado, demonstrando que os oprimidos podem não só se manifestar, mas também gerar mudanças. Wangari Maathai, portanto, transcende a imagem
de resistência; ela é uma criadora de conhecimento que remodela o cenário mundial, exemplificando o que autores pós-coloniais e decoloniais, como Spivak e Boaventura de Sousa Santos descrevem como uma “epistemologia do Sul”. Tal concepção valoriza os saberes de populações marginalizadas, reconhecendo-os como formas legítimas de produzir conhecimento e propor alternativas ao modelo ocidental, ampliando as maneiras de compreender e transformar o mundo. (SANTOS; MENESES, 2009).

REFERÊNCIAS:

ARAUJO, Dulce. Wangari Maathai – O ativismo ambiental em pessoa. Vatican News, 5 dez. 2024. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/africa/news/2024-12/wangari-maathai-o-ativismo-ambiental-em-pessoa.html. Acesso em: 08 nov. 2025.

GREEN BELT MOVEMENT. The Green Belt Movement: 40 Years of Impact. Goldman Environmental Prize, 21 mar. 2018. Disponível em:
https://www.goldmanprize.org/blog/green-belt-movement-wangari-maathai/. Acesso em: 08
nov. 2025.

NOBEL FOUNDATION. Wangari Maathai – Biographical. NobelPrize.org, 2004. Disponível em: https://www.nobelprize.org/prizes/peace/2004/maathai/biographical/. Acesso
em: 08 nov. 2025.

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG,
2010.

SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula (Orgs.). Epistemologias do Sul.
Coimbra: Edições Almedina, 2009.