Julia Pimenta e Yasmin Cavalcante, respectivamente alunas do 3° semestre de Relações Internacionais da Unama

A dinâmica do sistema financeiro internacional vem passando por transformações graduais, porém significativas. Nesse contexto, torna-se fundamental compreender o papel dos petrodólares. O termo refere-se aos recursos em dólares obtidos por países exportadores de petróleo, sobretudo a partir dos choques do petróleo da década de 1970, como a Crise do Petróleo de 1973. Entre as décadas de 1970 e 2000 (FMI, 2010), esses fluxos assumiram papel central na sustentação da liquidez global, consolidando um circuito financeiro relativamente previsível e centrado no dólar. Esse processo reforçou a posição da moeda norte-americana como eixo do sistema financeiro internacional.

Esse arranjo contribuiu para ampliar a influência estrutural dos Estados Unidos sobre os fluxos globais de capital. Nas décadas seguintes, especialmente entre os anos 1980 e o início dos anos 2000, esse padrão se manteve relativamente estável. Os excedentes petrolíferos eram majoritariamente reinseridos no sistema financeiro internacional por meio de bancos ocidentais e títulos do Tesouro norte-americano. Esse mecanismo garantiu previsibilidade e continuidade aos fluxos financeiros internacionais. Ao mesmo tempo, consolidou a centralidade das instituições financeiras ocidentais na mediação desses recursos.

No entanto, a partir dos anos 2000, e de forma mais evidente após a crise financeira de 2008, observa-se uma inflexão nesse comportamento. Dados recentes do Fundo Monetário Internacional indicam que, no contexto pós-2020, os fluxos de capital tornaram-se mais diversificados e sensíveis a decisões macroeconômicas e energéticas (FMI, 2024; FMI, 2025). Esse processo reflete maior volatilidade e reconfiguração das dinâmicas financeiras globais. Nesse cenário, observa-se a crescente aproximação entre grandes gestoras de ativos e economias exportadoras de petróleo. Trata-se de uma mudança relevante na estrutura do sistema financeiro internacional.

Destaca-se, nesse contexto, a atuação de grandes gestoras como a BlackRock, em articulação com países do Golfo, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Qatar. Esses Estados passaram a adotar estratégias mais sofisticadas de alocação de capital por meio de fundos soberanos. Os investimentos concentram-se em setores como tecnologia, infraestrutura, energias renováveis e mercados financeiros globais. Essa diversificação busca reduzir a dependência do petróleo e ampliar a inserção internacional dessas economias. Assim, observa-se uma atuação mais ativa e estratégica desses países.

Apesar desse movimento de diversificação, a base material dos petrodólares permanece relevante. Segundo dados da OPEP, os países membros concentram cerca de 79,5% das reservas mundiais de petróleo e aproximadamente 38% da produção global (OPEP, 2024). Esses números evidenciam a continuidade da importância estrutural desses Estados no sistema energético global. Consequentemente, os fluxos financeiros derivados do petróleo seguem desempenhando papel significativo. O que se altera não é sua existência, mas suas formas de gestão e alocação. Trata-se de uma transformação qualitativa, e não de substituição.

Nesse contexto, a atuação dessas economias deixa de ser passiva e assume caráter estratégico. Em vez de apenas acumular reservas em moeda estrangeira, esses países buscam maximizar retornos e ampliar sua influência em setores-chave. Esse movimento está associado à tentativa de garantir maior autonomia econômica e projeção internacional. A perspectiva de Susan Strange contribui para a compreensão desse processo. Para a autora, o poder estrutural está relacionado à capacidade de moldar os contextos nos quais os atores operam (STRANGE, 1988).

No âmbito financeiro, esse poder manifesta-se na capacidade de influenciar fluxos de capital, critérios de investimento e regras de mercado. Historicamente, os petrodólares eram reintegrados ao sistema financeiro internacional por meio de instituições ocidentais. Esse arranjo sustentava uma estrutura relativamente estável e centrada no dólar. Contudo, esse padrão vem sendo progressivamente transformado. Países exportadores de petróleo passaram a adotar estratégias mais complexas, voltadas também à influência geopolítica e à diversificação econômica (FMI, 2024). Isso contribui para a reconfiguração do sistema financeiro global.

A atuação da BlackRock adquire relevância analítica nesse contexto. Como a maior gestora de ativos do mundo, a empresa desempenha papel central na intermediação dos fluxos financeiros globais. Sua atuação envolve investimentos em mercados emergentes e desenvolvidos, além de projetos de infraestrutura e transição energética. Ao conectar o capital dos fundos soberanos a oportunidades globais, a gestora influencia a alocação de recursos. Esse processo impacta diretamente as prioridades econômicas em escala internacional (BRAUN, 2021).

Sob a ótica de Susan Strange, essa dinâmica não indica enfraquecimento do poder estrutural financeiro, mas sua reconfiguração. O sistema torna-se mais complexo à medida que o poder passa a ser compartilhado entre Estados e instituições privadas. Esse novo arranjo opera por meio de redes de interdependência cada vez mais densas. As decisões de investimento e as políticas econômicas tornam-se interligadas. O poder, portanto, torna-se mais difuso, mas permanece central na organização do sistema (STRANGE, 1988).

Assim, o sistema financeiro contemporâneo caracteriza-se por uma estrutura híbrida. Persistem hierarquias tradicionais, como a centralidade do dólar, mas emergem novos polos de influência. Esses polos não substituem completamente os anteriores, mas introduzem novas dinâmicas de poder. O funcionamento do sistema torna-se menos previsível e mais distribuído. Trata-se de uma transformação que exige análise cuidadosa. A compreensão dessas mudanças depende da articulação entre teoria e evidência empírica.

Por esse viés, presencia-se uma nova forma de conduzir o sistema financeiro internacional, que veio de um poder estrutural mais concentrado pelos Estados Unidos e uma reciclagem previsível de petrodólares – mecanismo em que os países exportadores de petróleo acumulam seus excedentes (petrodólares) e os reinvestem no sistema financeiro internacional (HIGGINS; KLITGAARD; LERMAN, 2006) –  para uma gerência mais difusa e complexa, com maior participação de Estados do Golfo e da Ásia, instituições privadas e abertura de novos fluxos de capital, tornando o sistema cada vez mais multipolar.

Logo, essa mudança não significa o fim do poder ou influência dos Estados Unidos, mas uma reconfiguração do sistema, abrindo espaço para a BlackRock atuar como um “agente organizador” desses fluxos mais difusos e complexos. Nesse contexto, a lógica automática de reciclagem dá lugar a uma coordenação mais estratégica do capital, na qual a condução estatal se amplia e se torna compartilhada, sendo mediada por uma grande gestora de ativos, o que dificulta a identificação clara de quem exerce o controle efetivo do sistema.

Essa dinâmica aproxima-se do que a Susan Strange define como poder estrutural financeiro: não se trata apenas de influenciar a direção dos fluxos de capital, mas de moldar as próprias condições de acesso ao crédito, os critérios de financiamento e os parâmetros dentro dos quais Estados e agentes econômicos operam, reforçando uma forma de poder mais difusa, porém profundamente condicionante (STRANGE, 1988).

Referências:

BRAUN, Benjamin. Capitalismo de gestão de ativos como regime de governança corporativa. Nova Economia Política. v. 26, n. 5, p. 798–812, 2021

FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL (FMI). Oil Market Developments and Issues. Washington, DC: IMF, 2010

FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL (FMI). World Economic Outlook: Statistical Appendix. Washington, DC: International Monetary Fund, 2025.

FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL (FMI). World Economic Outlook: Steady but Slow – Resilience amid Divergence. Washington, DC: International Monetary Fund, 2024.

HIGGINS, Matthew; KLITGAARD, Thomas; LERMAN, Robert. Recycling Petrodollars. New York: Federal Reserve Bank of New York, 2006.

ORGANIZAÇÃO DOS PAÍSES EXPORTADORES DE PETRÓLEO (OPEP). Annual Statistical Bulletin 2024. Viena: OPEC, 2024.

SOVEREIGN WEALTH FUND INSTITUTE (SWFI). Global Sovereign Wealth Fund Rankings 2023. Disponível em: SWFI Products & Services | Sovereign Wealth Fund Institute. Acesso em: 11 abr. 2026.

STRANGE, Susan. States and markets. London: Pinter Publishers, 1988.