
Julia Castro, Internacionalista formada pela UNAMA
Ficha Técnica:
Ano: 1989
Direção: Hayao Miyazaki
Distribuição: Studio Ghibli
Gênero: Fantasia
País de Origem: Japão
Baseado no romance homônimo Majo no Takkyūbin, escrito por Eiko Kadono, “O Serviço De Entregas Da Kiki” segue a trajetória de uma jovem bruxa em busca de autonomia ao se mudar para uma nova cidade (Adorocinema, 2026). De maneira sensível e delicada, clássica das animações do Studio Ghibli, o filme explora os desafios do crescimento, adaptação e formação da identidade.
A trama acompanha Kiki, uma bruxa de 13 anos que deixa sua casa para viver de forma independente em outra cidade por um ano, seguindo a tradição familiar. Ao chegar, ela encontra conforto em Osono, proprietária de uma padaria, que lhe oferece abrigo. Em busca de autonomia, Kiki opta por utilizar sua capacidade de voar para estabelecer um serviço de entregas, começando a trabalhar e a se relacionar com diversas pessoas (Bolsa Nerd, 2020) .
Porém, com o passar do tempo, as pressões do dia a dia, a ansiedade e o desgaste mental começam a impactar Kiki de forma significativa, fazendo com que ela perca temporariamente suas habilidades de voo. Essa crise representa um período de reflexão e incerteza acerca de sua identidade e habilidades. Ao se afastar da rotina e refletir sobre si mesma, Kiki gradualmente recupera sua confiança (Bolsa Nerd, 2020).
O longa-metragem é frequentemente interpretado como uma narrativa suave sobre o amadurecimento juvenil, mostrando que amadurecer implica não só em ganhar autonomia, mas também em enfrentar inseguranças e mudanças internas. Mas, ao analisá-lo sob uma perspectiva crítica guiada pela teoria pós-moderna das Relações Internacionais (RI), a narrativa explora uma camada mais profunda: a crise de identidade e o burnout na sociedade contemporânea.
Na visão pós-moderna das RI, os atores não são entidades estáticas, mas construções discursivas que dependem de interações e percepções (Sarfati, 2005). A jornada da jovem pode ser vista como uma representação do indivíduo pós-moderno, cuja identidade não é estável, mas formada por meio de relações sociais e pressões externas. Ao deixar sua cidade natal para começar sua vida independente, Kiki se insere em um ambiente urbano que demanda dela não só adaptação, mas também desempenho (Russell, 2019).
Na obra “Sociedade do Cansaço”, Byung-Chul Han (2017) afirma que o sujeito contemporâneo sofre não por repressão, mas por excesso de cobrança interna. O autor defende que evoluímos de uma “sociedade disciplinar”, com controle externo, para uma “sociedade de desempenho”, na qual o indivíduo explora a si mesmo. No filme, não existe uma figura autoritária que force Kiki a trabalhar, porém a jovem passa a exigir muito de si mesma. O cansaço que a aflige não é de natureza física, mas mental, resultando na perda de sua habilidade de voar, que é um símbolo central de sua identidade (Russell, 2019).
Em suma, a obra cinematográfica transcende sua aparência como uma história infantil, proporcionando uma crítica profunda sobre a condição do indivíduo na modernidade tardia em que vivemos. Ao abordar questões de saúde mental, o filme mostra que, em uma sociedade focada em resultados, até o prazer de “voar” pode se transformar em um peso.
REFERÊNCIAS:
HAN, Byung-Chul. Sociedade Do Cansaço. Giachini, Enio Paulo. 2. 2017. Vozes, Petrópolis: 128
O Serviço de entregas da Kiki. AdoroCinema. 2026. Disponível em: https://www.adorocinema.com/filmes/filme-40137/. Acesso em: 11 abr. 2026.
O Serviço De Entregas Da Kiki: Uma História Sobre Independência, Adaptação E Amadurecimento. Bolsa Nerd, 19 fev. 2020. Disponível em: https://bolsanerd.home.blog/2020/02/19/o-servico-de-entregas-da-kiki-uma-historia-sobre-independencia-adaptacao-e-amadurecimento/. Acesso em: 11 abr. 2026.
RUSSELL, Erica. What Kiki’s Delivery Service tells us about burnout. The Face, 30 jul. 2019. Disponível em: https://theface.com/culture/kikis-delivery-service-burnout-witches-anime. Acesso em: 11 abr. 2026.
SARFATI, Gilberto. Teorias de Relações Internacionais. São Paulo: Saraiva, 2005.
