
Região: Ásia
Felipe Ranieri – Acadêmico do 5º semestre de Relações Internacionais (UNAMA)
A recente cobertura do periódico japonês Mainichi Shimbun (2026) acerca da resistência governamental à ascensão de uma Imperatriz ao Trono do Crisântemo, contrastada com o apoio de 61% da opinião pública, oferece um estudo de caso contundente para as Teorias Feministas das Relações Internacionais (RI). O fenômeno transcende a política interna japonesa, inserindo-se no debate global sobre como as identidades nacionais são performadas através da exclusão sistemática do feminino das esferas de soberania máxima.
Sob a ótica da Teoria Feminista Construtivista, o Estado é percebido como uma entidade cuja identidade é forjada em oposição ao “outro” feminizado. J. Ann Tickner (2001), afirma que a própria definição de “Poder” nas RI foi construída sobre atributos associados à masculinidade: força, autonomia e racionalidade técnica. No Japão, a Lei da Casa Imperial de 1947 não é apenas um regulamento sucessório, mas uma ferramenta de manutenção da masculinidade hegemônica. Ao impedir que a Princesa Aiko suceda seu pai, o Estado japonês sinaliza que a continuidade da “linhagem ininterrupta” depende da “pureza patrilineal”, reduzindo a mulher a um papel biológico passivo e excluindo-a da agência política simbólica.
Essa exclusão se fundamenta na dicotomia entre o público e o privado, uma das críticas centrais de Carol Pateman (1988). A estrutura imperial japonesa opera sob a lógica de que o feminino pertence ao suporte emocional e à reprodução da linhagem (esfera privada), enquanto o exercício do rito soberano e o comando representativo do Estado são estritamente públicos e masculinos. A resistência à reforma sucessória evidencia um esforço estatal para impedir a “contaminação” da esfera pública por normas de gênero igualitárias, o que, na visão conservadora, desestabilizaria a própria essência mística da nação. Assim, o corpo da mulher na monarquia japonesa torna-se um local de contenção, onde a modernidade democrática do país esbarra em uma fronteira de gênero intransponível.
Ademais, a análise de Cynthia Enloe (2014) sobre “onde estão as mulheres” na política global permite questionar a contradição da gestão de Sanae Takaichi. O fato de uma liderança feminina perpetuar políticas de exclusão de gênero exemplifica o conceito de “patriarcado por procuração”. Para as RI feministas, a presença física de mulheres no Estado não garante a desconstrução das estruturas patriarcais se a lógica subjacente permanecer o realismo defensivo e o tradicionalismo neoconservador. O governo japonês utiliza a figura da “tradição” como uma barreira normativa para proteger a ontologia de um Estado que se vê como guardião de valores imutáveis, mesmo quando estes colidem com os direitos humanos e a equidade de gênero contemporânea.
Aprofundando a crítica, V. Spike Peterson (1992) argumenta que o nacionalismo é frequentemente construído sobre o controle dos corpos femininos. A sucessão imperial japonesa é, portanto, um campo de batalha biopolítica: a insistência em herdeiros masculinos reflete o medo de que a “feminização” do trono possa enfraquecer a imagem de autoridade do Japão no sistema internacional. Esta visão ignora que a segurança ontológica de um Estado moderno no século XXI deveria advir da sua capacidade de refletir a vontade de sua sociedade e de adaptar-se às normas internacionais de igualdade, e não da manutenção de um anacronismo excludente.
Por fim, é imperativo observar como essa postura afeta o soft power do Japão e sua inserção na ordem internacional liberal. Ao ignorar as recomendações de órgãos internacionais e a pressão de movimentos feministas globais que advogam pela reforma da Lei Salica, o Estado japonês escolhe uma identidade de resistência ao cosmopolitismo de gênero. Esta decisão reforça o argumento de que as Relações Internacionais, quando analisadas sem a lente de gênero, falham em perceber como a política de segurança nacional é frequentemente usada como pretexto para silenciar demandas por justiça social e equidade, mantendo o status quo de uma elite masculina que teme perder o controle sobre os símbolos de poder que definem a nação.
Em que se pese as devidas críticas, fica nítido a diferença de discurso no ocidente para aqueles que são seus aliados. Enquanto a exclusão das mulheres em países inimigos do centro capitalista é tida como atraso e barbárie, a reprodução desses estigmas (que estão presentes no mundo inteiro) nas nações aliadas podem ser veladas e absorvidas sob a hipótese da tradição.
As teorias feministas das Relações Internacionais são muito certeiras em apontar um Estado masculinizado e excludente; a crítica fica ainda mais afinada quando se percebe que as categorias de identidade definem as características do Sistema Internacional, não por si só, mas porque são necessárias para a estruturação do sistema capitalista: eis o feminismo classista.
REFERÊNCIAS:
ENLOE, Cynthia. Bananas, Beaches and Bases: Making Feminist Sense of International Politics. 2. ed. Berkeley: University of California Press, 2014
MAINICHI SHIMBUN. Public support for female Emperor reaches 61% amid government resistance. Tóquio, 13 abr. 2026. Seção Política.
PATEMAN, Carol. The Sexual Contract. Stanford: Stanford University Press, 1988.
PETERSON, V. Spike. Gendered States: Feminist (Re)Visions of International Relations Theory. Boulder: Lynne Rienner Publishers, 1992.
TICKNER, J. Ann. Gendering World Politics: Issues and Approaches in the Post-Cold War Era. Nova York: Columbia University Press, 2001.
UNSEEN JAPAN. What Japan Thinks: 61% Support a Female Emperor, But the Government Won’t Listen. 13 abr. 2026. Disponível em: https://unseen-japan.com/sentiment/what-japan-thinks-61-support-a-female-emperor-but-the-government-wont-listen-2/. Acesso em: 18 abr. 2026.
