Ana Victória Padilha Carneiro (acadêmica do 5° semestre de R.I UNAMA)

Rodrigo Lobato dos Prazeres (acadêmico do 7 semestre de R.I UNAMA

Na região Amazônica, o fenômeno da urbanização nas capitais apresentou algumas diferenças entre as capitais de estados de outras regiöes. Por isso, é interessante analisar como tais metrópoles ainda apresentam um desafio estrutural ao planejamento urbano brasileiro, pois ao mesmo tempo em que o crescimento populacional é acelerado, é possível observar a falta de uma infraestrutura adequada.

Como discute Antoinette Winklerprins (2009), a urbanização na Amazônia é um processo complexo que interliga o desenvolvimento local à globalização, mas que muitas vezes resulta em “cidades da floresta” que sofrem com a precariedade de serviços básicos. Assim, cidades como Belém do Pará demonstram uma grave deficiência em saneamento e drenagem urbana, ao passo que existe uma abundância de recursos naturais. Por isso, é importante entender as dificuldades estruturais que permeiam a região, tanto pela urbanização acelerada, quanto pelas especificidades ambientais, sociais e históricas dessas capitais.

O crescimento das metrópoles amazônicas ocorreu, historicamente, sob uma lógica de ocupação que desconsidera as particularidades do bioma, resultando em cidades que dão as costas para os seus rios e para a sua geografia. Diferente de outras regiões brasileiras, a infraestrutura da urbanização na Amazônia enfrenta o desafio de precisar coexistir com regimes de cheias sazonais e um solo de alta porosidade.

Nessas capitais a expansão urbana acelerada nas últimas décadas superou a capacidade de planejamento estatal, empurrando as populações de baixa renda para as zonas periféricas baixas e áreas de preservação permanente. O déficit de saneamento não é apenas uma questão de engenharia,mas um entrave ao desenvolvimento humano, visto que a ausência de sistemas de drenagem e tratamento de resíduos em um ambiente de calor e umidade extremos potencializa, por exemplo, a proliferação de doenças endêmicas.

Esse cenário é resultado de uma negligēncia histórica de investimentos estruturais e pela fragmentação da gestão metropolitana, que raramente integra o planejamento urbano a preservação ambiental. Configurando a concentraçao da infraestrutura moderna em núcleos centrais e, por muitas vezes, nobres das cidades amazônicas. Tal negligência é corroborada pelos dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (2023), que, em seus diagnósticos de serviços de água e esgotos, evidencia o abismo entre a demanda populaciona] amazônica e a oferta real de serviços.

Essa configuração de exclusão socioespacial gera um ciclo de degradação que compromete a qualidade de vida das comunidades urbanas, pois a poluição dos corpos d’água locais reduz principalmente a oferta de água potável e sobrecarrega também os sistemas de saúde pública.

No caso específico de Belém, essa problemática se manifesta na ocupação histórica de suas bacias hidrográficas, que foram progressivamente impermeabilizadas e transformadas em canais de esgoto a céu aberto. Conforme analisa o geógrafo Saint-Clair Cordeiro da Trindade Júnior (1998), a capital paraense vivenciou uma “metropolização inconclusiva”, onde desenvolvimento demográfico não foi acompanhado pela oferta de serviços públicos básicos.

Ele usa o termo para explicar que a capital paraense possui os problemas e a escala de uma metrópole (Trindade Júnior, 1998), mas não possui a infraestrutura, a integração de serviços e a gestão urbana que caracterizariam uma metrópole “concluída” ou plenamente funcional para enfrentar os desafios naturais do bioma amazônico e, portanto, das características geográficas particulares que permeiam a cidade.

Em levantamentos do Instituto Trata Brasil (2025), baseado em dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), a rede deIesgotamento sanitário da cidade se configura entre as dez mais precárias do país. A capital belenense apresenta índices inferiores a 20% na coleta de esgoto, cerca de 27% no tratamento desses dejetos e com um investimento por média per capita apenas de R$93,00Assim, sem uma rede coletora eficiente, os grandes canais muitas vezes funcionam como depósitos diretos de resíduos sólidos por parte da população, poluindo e os transformando em focos de contaminação constante, que afetam diretamente a saúde pública, sobretudo da parcela mais vulnerável. Demonstrando que o sistema de macrodrenagem é obsoleto para a realidade amazônica, e por sua vez acaba contribuindo para que a posição da cidade no ranking de saneamento nacional seja cada vez mais baixa.

Por conseguinte, a infraestrutura de drenagem de Belém sofre ainda com a complexa interação entre o índice pluviométrico equatorial e a dinâmica das marés. A pavimentação extensiva, que soterrou antigos cursos d’água sob camadas de concreto e asfalto, impede a absorção natural das águas, resultando em alagamentos crônicos que invadem as residências, paralisam o fluxo urband durante as chuvas intensas, se tornando um ciclo de prejuízos econômicos e sociais recorrentes.Paralelamente, o abastecimento de água potável na capital apresenta um paradoxo técnico: a cidade está inserida em uma região de abundância hídrica, mas sofre com uma rede de distribuição ineficientemente precária. Segundo Instituto Trata Brasil (2025), as perdas fiísicas no sistema de abastecimento giram em torno de 60%, causadas por tubulações antigas e a falta de manutenção nas Estações de Tratamento de Agua, geram um cenário de insegurança hidrica para milhares de familias todos os dias em diversos bairros da cidade.Por fim, ao analisar os recursos hidricos da capital paraense e a sua gestão, é correto afirmar que Belém ainda carece de uma abordagem integrada, visto que, é necessário integrar água, esgoto e o manejo de águas fluviais em um único sistema. Assim, entender que estes três fatores são de suma importância para a infraestrutura da cidade e que são fatores indissociáveis para apreservação dos rios, sendo necessário que a infraestrutura urbana respeite, e não tente suprimir a característica hidrográfica amazônica.

Ademais, recomenda-se o documentário “Ilha das Flores” de Jorge Furtado, a obra retrata a desigualdade social e econômica no Brasil. Ao contar a história de um tomate, desde a produção no campo até o seu descarte em um lixão. O curta-metragem, apesar de não se situar diretamente na região amazônica, é muito eficaz em retratar a realidade brasileira de uma maneira crítica e irônica, tratando de temas como: descarte de resíduos, exclusão urbana e sistemas precários de saneamento nas metrópoles brasileiras:

Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=3W-0S9xkJgo&gt;.

Dessa forma, indica-se a leitura de *Cidades de floresta: urbanização, desenvolvimento e globalização na Amazônia Brasileira”, de John O. Browder. 0 autor comenta as dificuldades estruturais (infraestrutura, ocupação do solo e integração com o meio ambiente) que as metrópoles amazônicas apresentam em seus processos de urbanização. Além de destacar como fatores econômicos, sociais e globais influenciam a formação das cidades na região.

Disponível em: < https://books.google.com.br/books/about Cidades_de_floresta.html?id=MF9ktQAACAAJ&redir_esc=y >

REFERÊNCIAS:

BRASIL. Ministério das Cidades. Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento: diagnóstico dos serviços de água e esgotos. Brasília: Ministério das Cidades, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/cidades/pt-br/acesso-a- informacao/acoes-e-programas/saneamento/snis/produtos-do-snis/diagnosticos- snis. Acesso em: 19 abr. 2026.

INSTITUTO TRATA BRASIL. 5 das 7 capitais da Região Norte figuram nas últimas posições do Ranking do Saneamento 2025. Instituto Trata Brasil. São Paulo, 25 de jul. 2025. Disponfvel em: https://tratabrasil.org.br/ranking-do-saneamento-2025/ Acesso em: 19 abr. 2026.