
Armelle Lydie Moussavoult – 5° semestre
A crise migratória global refere-se a um fenômeno caracterizado pelo deslocamento massivo de pessoas, repentino ou contínuo, através de fronteiras internacionais provocado por fatores como conflitos armados, mudanças climáticas, crises econômicas e perseguições que ultrapassam a capacidade de resposta dos Estados e das instituições internacionais, resultando em desafios humanitários, políticos e de governança em escala regional e global. O aumento dos fluxos migratórios tem se intensificado nas últimas décadas como um dos principais desafios das Relações Internacionais (ACNUR, 2023). Nesse sentido, emerge um dilema central entre a proteção humanitária dos migrantes e ao mesmo tempo em que se busca preservar a soberania e a segurança dos Estados. Dessa forma, este artigo tem como objetivo analisar os principais desafios humanitários e políticos relacionados à crise migratória global.
A análise da crise migratória global pode ser compreendida por diferentes abordagens teóricas das Relações Internacionais. Na abordagem da teoria realista, representada por autores como Kenneth Waltz e Hans Morgenthau, os Estados são os principais atores do sistema internacional, destacando a busca por segurança e interesses nacionais. Nesse contexto, os Estados tendem a adotar políticas restritivas em relação à migração, como por exemplo, fechamento de fronteiras, reforço da vigilância de fronteiras, etc . Essas medidas restritivas podem ser percebidas como autopreservação estatal.
No entanto, o liberalismo enfatiza a importância da cooperação internacional e das instituições na gestão de problemas globais. Segundo Keohane (1984), a crescente interdependência entre os Estados favorece a criação de mecanismos institucionais de cooperação para lidar com desafios transnacionais, como a migração. Assim, organizações internacionais desempenham papel fundamental na proteção de refugiados e migrantes.
Além disso, o construtivismo destaca o papel das identidades, ideias e percepções sociais na formulação das políticas internacionais.
Diversos fatores têm contribuído para o agravamento da crise migratória global em diversas regiões do mundo, sendo associada, principalmente, a conflitos armados, crises econômicas e instabilidades políticas. Percebe-se tais realidades em, por exemplo, casos observados no Oriente Médio com a Guerra Civil Síria, que gerou milhões de refugiados nos últimos anos, sendo uma das maiores crises humanitárias recentes (ACNUR, 2023).
Na América Latina, a crise econômica e social na Venezuela provocou um intenso fluxo migratório para países vizinhos como o Brasil (ACNUR, 2023). Além disso, o continente africano também apresenta situações críticas. No Sudão, o conflito de 2023 provocou uma importante crise humanitária, com milhões de deslocados internos e refugiados em países vizinhos. Da mesma forma, na República Democrática do Congo, conflitos armados e atuações de grupos armados têm forçado milhares de pessoas a abandonar suas casas em busca de segurança (ACNUR, 2023).
De acordo com dados do Alto Comissariado das Nações Unidas (ACNUR), o número de pessoas deslocadas forçadamente no mundo atingiu níveis recordes nos últimos anos, evidenciando a gravidade da situação (ACNUR, 2023). Apesar disso, esse aumento de deslocamento da migração também é causado por fatores ambientais, como mudanças climáticas e desastres naturais.
A crise migratória global revela uma tensão constante entre os interesses dos Estados e a necessidade de proteção dos direitos humanos, evidenciando a complexidade da questão migratória no cenário internacional. Trata-se de uma problemática que envolve preocupações com a segurança do Estado e a garantia de condições dignas para as populações em deslocamento.
Sob a perspectiva realista apresentada anteriormente, muitos países adotam políticas migratórias restritivas com o objetivo de preservar sua soberania e assegurar a ordem interna. A priorização da soberania e da segurança nacional leva os Estados a reforçar o controle de suas fronteiras e a limitar a entrada de pessoas em deslocamento. Um exemplo disso pode ser observado nos Estados Unidos durante o governo de Donald Trump, marcado pelo endurecimento das políticas migratórias e pela intensificação das ações do U.S. Immigration and Customs Enforcement (ICE), refletindo uma abordagem centrada na segurança nacional (Migration Policy Institute, 2018).
Por outro lado, conforme discutido na abordagem liberal, a crise migratória também evidencia a necessidade de cooperação internacional como forma de enfrentar problemas globais. A atuação de organizações como o UNHCR desempenha um papel crucial na assistência humanitária e na proteção dos migrantes. Dessa forma, a crise migratória não se limita apenas a uma questão de controle de fronteiras, mas também de dimensões políticas, sociais e humanas, exigindo uma análise de diferentes perspectivas teóricas.
Em conclusão, a crise migratória global configura-se como um desafio relevante no cenário internacional contemporâneo, envolvendo tanto questões políticas quanto humanitárias. Assim, observa-se a necessidade de equilibrar a proteção dos direitos dos migrantes com as preocupações dos Estados em relação à segurança e soberania. Nesse contexto, é fundamental o fortalecimento da cooperação internacional como forma de enfrentar esse fenômeno de maneira mais eficaz e humana.
Referências:
ACNUR. Tendências globais de deslocamento forçado. 2023. Disponível em: https://www.unhcr.org. Acesso em: 19 abr. 2026.
KEOHANE, Robert. After Hegemony: Cooperation and Discord in the World Political Economy. Princeton: Princeton University Press, 1984.
MIGRATION POLICY INSTITUTE. U.S. immigration policy under Trump: deep changes and lasting impacts. 2018. Disponível em: https://www.migrationpolicy.org/research/us-immigration-policy-trump-deep-changes-impacts. Acesso em: 21 abr. 2026.
MORGENTHAU, Hans. A Política entre as nações: a luta pelo poder e pela paz. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2003.
WALTZ, Kenneth. Theory of International Politics. New York: McGraw-Hill, 1979.
WENDT, Alexander. Social Theory of International Politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.
