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Marcelo Eduardo Alves de Brito – acadêmico do 7° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

A Conferência de Bretton Woods, realizada em 1944, instituiu um novo sistema financeiro internacional no contexto do pós-Segunda Guerra Mundial, no momento em que a Europa estava devastada economicamente e as principais economias do mundo no período estavam passando pelo processo de reconstrução, os Estados Unidos encontravam-se em posição privilegiada para consolidar sua hegemonia no sistema internacional (WORLD BANK GROUP, 2026). A partir deste momento, se estabeleceu um modelo monetário baseado na centralidade do dólar, cuja conversibilidade conferia estabilidade ao sistema e o posicionava como principal referência nas transações internacionais. 

Contudo, no início do século XXI, observa-se um processo de declínio relativo da potência dos Estados Unidos, cujo status de hegemonia internacional passa a ser questionado no sistema internacional. No âmbito econômico, um marco fundamental desse processo foi a Crise Financeira Global de 2008, que evidenciou fragilidades estruturais na principal economia mundial e suscitou dúvidas quanto à estabilidade do sistema financeiro internacional centrado no dólar, ainda assim, não representando uma substituição absoluta da moeda/ativo (STIGLITZ, 2010). 

Fonte: IMF. Dollar Dominance in the International Reserve System: An Update. 2024. 

Os gráficos acima evidenciam que, apesar de uma recente valorização, a participação do dólar nas reservas internacionais globais segue em trajetória de queda desde o início deste século, com destaque para as reduções mais acentuadas após 2008. Esse movimento indica uma tendência de diversificação das reservas nacionais por parte dos países, que passam a incorporar outras moedas e ativos em alternativa ao dólar. Assim, a principal moeda internacional passa a apresentar uma perda relativa de centralidade no sistema financeiro internacional.    

Deste modo, as finanças globais passam a apresentar características multipolares, abrindo espaço para a ampliação da atuação de outras potências econômicas que buscam fortalecer sua inserção nos fluxos financeiros e comerciais globais. Ademais, esse movimento reflete uma reconfiguração da balança de poder no sistema internacional, na qual a China emerge como um dos principais polos de contestação relativa à centralidade dos Estados Unidos (EICHENGREEN, 2011). 

Nesse sentido, o país tem adotado estratégias voltadas à acentuação do processo de Desdolarização, como a internacionalização do renminbi e a ampliação de acordos bilaterais de swap cambial, além do incentivo ao uso de sua moeda em transações comerciais (COHEN, 2015). Iniciativas como a Belt and Road Initiative também contribuem para a expansão da influência econômica chinesa, ao promover a integração financeira e comercial sob maior protagonismo do país (COHEN, 2015). Outrossim, a atuação de instituições financeiras multilaterais alternativas, como o Asian Infrastructure Investment Bank e o Novo Banco de Desenvolvimento, reforça a tentativa de ampliar sua participação na governança econômica global (EICHENGREEN, 2011). 

Por conseguinte, este processo representa uma ruptura estrutural dos padrões financeiros internacionais, pois quebra com os privilégios e vantagens dos Estados Unidos, como o financiamento mais barato de sua dívida pública, a capacidade de influência sobre fluxos financeiros globais e a utilização do sistema financeiro como instrumento de pressão política por meio de sanções econômicas. Com isso, a eventual redução da dependência internacional do dólar tende a enfraquecer gradualmente tais mecanismos de projeção de poder internacional. Além disso, este processo pode implicar uma redistribuição mais fragmentada da liquidez internacional, com potenciais impactos sobre a estabilidade e a previsibilidade dos fluxos financeiros globais (COHEN, 2015).  

De acordo com Robert Gilpin (1987), cientista político norte-americano e professor de Política e Relações Internacionais na Escola Woodrow Wilson de Assuntos Públicos e Internacionais da Universidade de Princeton, as relações econômicas dos Estados são condicionadas pela distribuição dos poderes no Sistema Internacional. Para Gilpin, a ordem internacional não é neutra e nem espontânea, mas estruturada pela ação de uma potência hegemônica capaz de organizar e estabilizar o sistema econômico, especialmente por meio de instituições, regras e mecanismos monetários. Contudo, esta hegemonia não é permanente e, ao longo do tempo, ocorrem mudanças no equilíbrio de poder entre os Estados que tendem a gerar tensões e processos de erosão da ordem vigente, podendo levar a períodos de instabilidade e reconfiguração sistêmica. 

A partir desta visão, o processo de Desdolarização pode ser interpretado como uma transformação gradual da ordem econômica internacional, historicamente estruturada pela hegemonia dos Estados Unidos a partir da Conferência de Bretton Woods. Logo, o sistema financeiro internacional não se caracteriza por uma ruptura abrupta dessa ordem, mas por um processo de erosão gradual da hegemonia norte-americana, evidenciado pelos impactos da Crise Financeira Global de 2008, pelas políticas alfandegárias do atual governo norte-americano e pela crescente diversificação das reservas internacionais. Para o teórico, tais mudanças refletem deslocamentos na distribuição de poder econômico entre os Estados, especialmente com a ascensão da China, que passa a desafiar a centralidade dos Estados Unidos por meio da expansão de sua influência financeira e institucional. 

Portanto, as transformações econômicas e políticas observadas no globo não constituem fenômenos isolados, mas desdobramentos de um processo histórico mais amplo de reconfiguração do status quo internacional. Por isso, o processo de desdolarização, ao impactar o modus operandi do sistema financeiro internacional, evidencia não apenas como uma mudança técnica na composição das reservas, mas como expressão de uma disputa estrutural entre potências globais, trata-se de um movimento que reflete interesses estratégicos, busca por maior autonomia econômica e tentativa de redistribuição de poder no sistema internacional.

Assim, mais do que uma substituição monetária, a desdolarização evidencia a emergência de novas dinâmicas de poder, nas quais Estados procuram reduzir sua vulnerabilidade à influência norte-americana e ampliar sua capacidade de atuação nos fluxos financeiros e comerciais globais. Esse processo, ainda em curso, tende a intensificar a complexidade do sistema financeiro internacional, ao mesmo tempo em que sinaliza a consolidação de uma ordem mais plural e competitiva, marcada pela coexistência de múltiplos atores que buscam exercer mais influência global. 

Referências: 

COHEN, Benjamin J. Currency power: understanding monetary rivalry. Princeton: Princeton University Press, 2015.

EICHENGREEN, Barry. Exorbitant privilege: the rise and fall of the dollar and the future of the international monetary system. Oxford: Oxford University Press, 2011.

GILPIN, Robert. The political economy of international relations. Princeton: Princeton University Press, 1987.

IMF. Dollar Dominance in the International Reserve System: An Update. 2024.

STIGLITZ, Joseph E. Freefall: America, free markets, and the sinking of the world economy. New York: W. W. Norton & Company, 2010.

WORLD BANK GROUP. Bretton Woods and the Birth of the World Bank. Disponível em: https://www.worldbank.org/en/archive/history/exhibits/Bretton-Woods-and-the-Birth-of-the-World-Bank