
Maria Eduarda Perdigão, acadêmica do 3° semestre de Relações Internacionais da Unama.
Ficha Técnica:
Ano: 2000
Gênero: Comédia Romântica
Diretor: Dennis Carvalho
Distribuição: Tv Globo
País de Origem: Brasil
“O Cravo e a Rosa” (2000), telenovela dirigida por Dennis Carvalho e exibida pela TV Globo, destacou-se como uma das produções mais marcantes da teledramaturgia brasileira. Inspirada no clássico “A Megera Domada” de William Shakespeare, a novela combina comédia romântica com crítica social, explorando questões relacionadas ao gênero, classe social e relações interpessoais inseridas no contexto brasileiro da década de 1920 (Lopes, 2023).
A trama acompanha a trajetória de Catarina Batista, uma mulher de personalidade forte, à frente de seu tempo e resistente às imposições sociais da época em relação à liberdade feminina, principalmente no que diz respeito a casamentos. Entretanto, a personagem acaba envolvida em um casamento por interesse com Julião Petruchio, personagem que representa valores tradicionais da época, dando início a uma dinâmica marcada por conflitos, transformações mútuas e negociações (Maria, 2020).
A narrativa da telenovela se desenvolve a partir dos embates entre Catarina e Petruchio, onde ao rejeitar os padrões femininos tradicionais, a protagonista simboliza uma ruptura com as normas patriarcais impostas, enquanto Petruchio simboliza a tentativa de manutenção das estruturas. Contudo, ao decorrer da história, Catarina enfrenta desafios que vão além de seus conflitos amorosos com Petruchio, indo contra as limitações sociais e pressões familiares, onde sua independência é constantemente pressionada pelas expectativas sociais ao seu redor.
Nesse viés, a telenovela pode luz da Teoria Feminista das Relações Internacionais (RI), vertente que busca abranger a compreensão a cerca dos conceitos da área, historicamente formulados por uma visão majoritariamente patriarcal, desconsiderando contribuições femininas para o entendimento das dinâmicas internacionais e acabando por tratar mulheres e outras expressões de gênero como margens da sociedade (Smith, 2018).
Nesse sentido, a Teórica Feminista das Relações Internacionais, Judith Butler, apresenta em sua obra “Gender Trouble: Feminism And the Subversion of Identity” (1990), uma crítica a noção de gênero como algo fixo ou natural, defendendo que ele é, na verdade, construído socialmente. Para Butler (1990), as identidades de gênero são efeitos de normas sociais que regulam os corpos, comportamentos e expectativas. Sendo assim, o cotidiano torna-se um espaço onde tais normas podem ser contestadas ou reproduzidas, e o corpo e as interações sociais se tornam elementos políticos de expressão, podendo expressar conformidade ou resistência perante às estruturas dominantes.
Em “O Cravo e a Rosa”, essa perspectiva se manifesta na forma em como Catarina constrói uma feminilidade contrária ao comportamento imposto às mulheres da época. Catarina recusa propostas de casamento e declara abertamente sua aversão à submissão conjugal da época, onde o matrimônio era um destino quase inevitável para as mulheres. Além disso, mesmo após entrar em matrimônio com o personagem Petrucio, Catarina mantém sua postura forte e se recusa a adotar a conduta recatada vista como “adequada” para uma esposa, transformando a relação em um espaço de disputa de poder.
Por fim, “O Cravo e a Rosa” conduz o telespectador a refletir sobre a naturalização das relações desiguais de gênero no âmbito social. A trajetória de Catarina Batista evidencia que, mesmo em ambientes marcados por normas rígidas de gênero e expectativas sociais limitantes, é possível ressignificar o papel imposto às mulheres através da resistência no cotidiano, reforçando a importância da autonomia feminina e do reconhecimento dentro das esferas sociais de poder.
REFERÊNCIAS:
LOPES, Fernanda. Qual é o segredo de O Cravo e a Rosa? Autor explica por que a novela ainda faz sucesso. 2023. Disponível em: https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/novelas/qual-e-o-segredo-de-o-cravo-e-a-rosa-autor-explica-por-que-novela-ainda-faz-sucesso-105932?cpid=txt Acesso em: 26 abr. 2026.
RAQUEL, Maria. A megera Indomada de Walcyr Carrasco. 2020. Disponível em: https://valkirias.com.br/o-cravo-e-a-rosa/ Acesso em: 27 abr. 2026
SMITH, Sarah. Introducing Feminism in International Relations Theory. 2018. Disponível em: https://www.e-ir.info/2018/01/04/feminism-in-international-relations-theory Acesso em: 27 abr. 2026.
BUTLER, Judith. Gender Trouble: Feminism And the Subversion of Identity. 1990. Cambridge University Press.
