Caira Queiroz, acadêmica do 7° semestre de Relações Internacionais

Conhecida como “Mama África”, sendo intitulada como a voz que ecoou da África para o mundo por ser a primeira artista africana a popularizar a música africana globalmente, Miriam Makeba tornou-se uma das figuras mais emblemáticas da cultura e da resistência negra no século XX. Além de seu legado musical, a artista é lembrada pelo seu desempenho ainda maior na história da África do Sul como ativista política de enfrentamento ao Apartheid e pelos direitos civis de sua terra natal (Negrete, 2020). 

Nascida em Joanesburgo, em 1932, Miriam Makeba cresceu em uma família de baixa renda, sua mãe trabalhava como empregada doméstica e seu pai era professor de xhosa (Letras, s.d.). Ambos faleceram precocemente, ainda durante sua infância, o que agravou sua situação de vulnerabilidade. Ainda assim, foi nesse cenário difícil que surgiu seus primeiros contatos com a música, pois ela estudava em uma escola primária metodista, onde integrou o coral e cantava em inglês, xhosa, sotho e zulu (Gerard; Silva, 2026).

Na adolescência, ao participar de apresentações escolares e eventos culturais, despertou seu interesse pelo jazz e experimentações musicais, começando a construir uma estética própria que articula modernidade e ancestralidade. Já na vida adulta, após a crise de seu primeiro casamento, precisou sustentar a si mesma e sua filha trabalhando como empregada doméstica (UFRGS, 2021).

Mas foi em Sophiatown que Miriam iniciou sua carreira artística, a princípio acompanhando os Cuban Brothers, fazendo covers de músicas americanas com a banda sul-africana, e depois como integrante dos Manhattan Brothers, o primeiro grupo vocal negro sul-africano a obter destaque internacional (UFRGS, 2021). Posteriormente, integrou o grupo formado por mulheres chamado  Skylarks, onde formou um repertório que reunia canções populares, harmonias vocais e referências da tradição sul-africana (1001 outros álbuns, 2025).

O primeiro sucesso solo de Miriam foi seu primeiro álbum solo intitulado ‘Lovely Eyes (1959), sob a Gallotone Records. Lançado nos Estados Unidos, o disco se tornou o primeiro álbum sul-africano a chegar à parada da Billboard 200. Após, Miriam passou por vários países da África, apresentando-se em locais como o Congo Belga, Moçambique, Zimbábue e Zâmbia.  

Mas em sua terra natal, mesmo com o prestígio, tanto ela quanto outros artistas negros ainda sofriam restrições de deslocamento, segregação de plateias, policiamento e a falta de segurança, ganhos proporcionais ou autonomia aos negros por parte da industria cultural. Assim, no mesmo período, ascendia o anti-apartheid na África do Sul, e Miriam tornou-se uma grande apoiadora do movimento (celeb-true, s.d.). 

Diante deste contexto, ela secretamente participou do documentário Come Back, Africa (1959), que expunha as condições de vida da população negra sob o Apartheid, e desde então sua carreira ganhou visibilidade. O sucesso foi tanto que o filme ganhou o prêmio de Escolha da Crítica no Festival de Veneza e possibilitou a Miriam estabelecer contato com as comunidades artísticas da Europa e dos Estados Unidos (Neves, 2026).

Esse momento foi decisivo: ao sair do país para divulgar o filme, teve seu retorno proibido pelo governo sul-africano. A partir daí, inicia-se um longo período de exílio, que moldaria sua identidade artística e política. Na década de 60, Miram já era uma grande porta-voz do movimento anti-apartheid, o que era tão importante para ela quanto a sua carreira como cantora (UFRGS, 2021). 

Durante esse exílio, Makeba construiu uma carreira internacional sólida, especialmente nos Estados Unidos e na Europa. Tornou-se conhecida mundialmente por canções como “Pata Pata”, que se consagrou como o seu maior “hit” e um dos maiores ícones do afro-pop, mas nunca desvinculou sua música da luta política (celeb-true, s.d.). 

Junto com Belafonte, ela também recebeu um prêmio Grammy por seu álbum de 1965, An Evening with Belafonte/Makeba, sendo a primeira africana a ganhar esta distinção (O explorador, 2009). Uma curiosidade é que este álbum foi produzido em paralelo às suas atividades políticas, inclusive tal se destacou justamente por incluir diversas canções anti-apartheid, incluindo Ndodemnyama we Verwoerd (Neves, 2026). Em 1964, fez um discurso histórico na Organização das Nações Unidas (ONU), denunciando o Apartheid, o que intensificou ainda mais sua perseguição pelo regime sul-africano (World wide, s.d.).

“As pessoas dizem que eu canto política, mas o que eu canto não é política, é a verdade. Vou continuar cantando, dizendo a verdade.” 

Miriam Makeba, em discurso da ONU (1964)

Ao longo dos anos, sua vida foi marcada por deslocamentos e alianças políticas. Por conta do seu ativismo e seu casamento com Stokely Carmichael, ligado ao movimento dos Panteras Negras, trouxe ainda mais vigilância e restrições à sua atuação nos Estados Unidos, e assim sua carreira internacional começou a desmoronar, contratos foram cancelados, a procura por ela no meio artístico diminuiu drasticamente, levando-a a se mudar para países africanos como a Guiné, onde pôde continuar se apresentando e gravando (UFRGS, 2021).

Na Guiné, Miriam Makeba aproximou-se do então presidente Ahmed Sékou Touré, o que possibilitou seu envolvimento em projetos públicos de valorização da música africana, a fim de construir uma cultura nacional moderna, entendida como parte fundamental do processo de descolonização. Makeba também atuou como diplomata, assumindo como delegada da Guiné junto à ONU. Neste espaço, contribuiu para fortalecer a pressão internacional contra o regime do Apartheid, articulando sua trajetória artística à luta política global (Neves, 2026).

Com o fim do Apartheid, depois da libertação de Nelson Mandela em 1990, Makeba retornou à África do Sul após 31 anos de exílio, onde seu retorno foi celebrado como simbolo da derrocada do regime de segregação racial. A partir de então, passou a viver em sua terra natal com os netos e bisnetos, seguindo ativamente sua carreira, lançando álbuns e atuando em documentários e filmes. A artista morreu de um ataque cardíaco quando se apresentava em um concerto no Castel Volturno, na Itália (UFRGS, 2021).

Nesse sentido, a trajetória de Miriam Makeba pode ser analisada à luz do pensamento de Frantz Fanon, especialmente sob a obra de “Os Condenados da Terra” (1961), no qual o autor compreende a cultura como elemento central nos processos de descolonização. Para Fanon, a libertação não se limita ao campo político-institucional, mas envolve também a reconstrução simbólica das identidades historicamente subalternizadas. Sua música pôde ser compreendida, capaz de mobilizar, construir narrativas e influenciar a opinião pública global em torno da luta contra o Apartheid.

Dessa forma, Miriam Makeba não apenas denunciou um regime opressor, mas também atuou na reconstrução simbólica da África no imaginário internacional, transformando cultura em instrumento de resistência, identidade e poder. Sua trajetória evidenciou como arte e política podem ser uma junção poderosa para mudanças. Sua voz atravessou fronteiras, denunciou injustiças e contribuiu para a construção de uma consciência global sobre o Apartheid. Mais do que uma artista, Makeba foi uma agente política do Sul Global, cuja atuação reforça a importância de perspectivas não ocidentais nas Relações Internacionais, mostrando que resistência também se faz com música, memória e identidade.

REFERÊNCIAS

CELEB-TRUE. Zenzile Miriam Makeba era um famoso músico sul-africano, ator e um ativista dos direitos civis. Celeb-true, s.d. Disponível em: https://pt.celeb-true.com/zenzile-miriam-makeba-famous-south-african-musician-actor-keen

FANON, Frantz. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Zahar, 1968. 

LETRAS. Miriam Makeba. Letras, s.d. Disponível https://www.letras.com.br/miriam-makeba/biografia

GERARD, Nicole; SILVA. Estevam. Miriam Makeba: a Mama África e voz da luta contra o apartheid. Opera Mundi, 2026. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/pensar-a-historia/miriam-makeba-a-mama-africa-a-voz-da-luta-contra-o-apartheid/

NEVES, Raissa. Miriam Makeba, a Mama África: a voz da luta contra o apartheid. MSN, 2026. Disponível em https://www.msn.com/pt-br/sociedade-cultura-e-hist%C3%B3ria/cultura-pop/miriam-makeba-a-mama-%C3%A1frica-a-voz-da-luta-contra-o-apartheid/ar-AA1XwzjI

O EXPLORADOR. A primeira africana a ganhar a distinção do prêmio Grammy. O Explorador, 2009. Disponível em: https://www.oexplorador.com.br/a-primeira-africana-a-ganhar-a-distincao-do-premio-grammy/

UFRGS. Miriam Makeba (1932-2008) – Biografia de mulheres africanas. UFRGS, 2021. Disponível em: https://www.ufrgs.br/africanas/1111/

WORLD WIDE. Miriam Makeba. World Wide, s.d. Disponível em: https://www.worldwidemagazine.org/vol-31-no-5/i-sing-the-truth/

1001 OUTROS ÁLBUNS. Miriam Makeba & The Skylarks O Melhor de Miriam Makeba & The Skylarks (1956-59, África do Sul). 1001 outros álbuns, 2025. Disponível em: https://1001otheralbums.com/2025/02/21/miriam-makeba-the-skylarks-the-best-of-miriam-makeba-the-skylarks-1956-59-south-africa/