
Sofia Dias, acadêmica do 3° semestre de Relações Internacionais e Thaís Carvalho, internacionalista formada pela UNAMA
Ficha Técnica:
Ano: 2025
Direção: Anna Muylaert
Distribuição: Galeria Distribuidora
Gênero: Drama
País de Origem: Brasil
O filme A Melhor Mãe do Mundo (2025), dirigido por Anna Muylaert, insere-se no cinema contemporâneo brasileiro como uma obra de forte teor social, ao abordar de maneira sensível e crítica a violência doméstica e as estratégias de resistência feminina. A produção articula uma narrativa que, ao mesmo tempo em que expõe a brutalidade das relações de gênero marcadas pela violência, também evidencia a agência e a resiliência de mulheres em contextos de vulnerabilidade (Cruz, 2025).
A obra acompanha a trajetória de Gal, uma mulher que, diante de um relacionamento abusivo, precisa reorganizar sua vida e proteger seus filhos, enfrentando não apenas a violência direta, mas também as limitações estruturais impostas por desigualdades sociais e institucionais. Nesse sentido, o filme transcende a dimensão individual do drama e projeta uma crítica mais ampla às condições sociais que perpetuam a violência doméstica, evidenciando-a como fenômeno estrutural e não episódico.
A narrativa enfatiza não apenas a violência, mas sobretudo os mecanismos de resistência e reconstrução, deslocando o foco da vítima para a protagonista como sujeito ativo. Tal abordagem contribui para uma leitura que rompe com representações passivas da mulher, ao mesmo tempo em que denuncia a insuficiência das redes de proteção institucional.
A análise também pode ser aprofundada a partir da noção de violência estrutural e interseccionalidade, evidenciando como gênero, classe e outras dimensões sociais se articulam na produção de vulnerabilidades. Conforme aponta o Instituto Pensi (2025), os impactos da violência doméstica estendem-se às crianças, revelando seu caráter intergeracional e reforçando a ideia de que tais dinâmicas não são apenas individuais, mas socialmente reproduzidas.
Nesse sentido, a obra cinematográfica pode ser observada sob a lente da Teoria Feminista das Relações Internacionais (RI), vertente que busca romper com a masculinização dos conceitos e discursos da área, demonstrando como as relações de gênero – presentes na politica, na família e na economia – são influenciadas e modificadas por processos exógenos à sociedade. Conforme explicita Halliday (2007, p. 182), trata-se de reorientar o campo “em direção ao estudo não somente do comportamento interestatal, mas também de como os Estados e as sociedades interagem.”
Dessa forma, segundo o pensamento de J. Ann Tickner, em sua obra “Gender in International Relations: Feminist Perspectives on Achieving Global Security” (1992), os estudos feministas ampliam o conceito realista de segurança, que deixa de ser apenas bélico e estatal e passa a incluir perspectivas até então marginalizadas pelas teorias mainstream, como os aspectos do cotidiano das mulheres.
Assim, ao apresentar o conceito de segurança humana, Tickner (1992) demonstra que questões até então consideradas privadas, como atividades ligadas ao cuidado da vida e bem-estar e da reprodução social, também são entendidas como práticas centrais para a manutenção da vida e das próprias dinâmicas de poder e de segurança na arena internacional.
Em diálogo com essa abordagem, a ativista brasileira Lélia Gonzalez, em sua obra “Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira” (1984), aprofunda essa ampliação ao evidenciar que as experiências das mulheres não podem ser compreendidas de forma universal. A autora demonstra que gênero, raça e classe atuam de maneira articulada, produzindo diferentes formas de inserção social e de acesso, ou negação, às condições básicas de existência. Nesse sentido, as práticas de cuidado e reprodução social, destacadas por Tickner (1992) como centrais para a segurança humana, são vivenciadas de maneira desigual, recaindo de forma mais intensa sobre mulheres negras e periféricas.
Por fim, A Melhor Mãe do Mundo revela, de forma sensível, que a violência doméstica e a resistência feminina ultrapassam o espaço privado e refletem desigualdades estruturais profundas presentes em escala global. A trajetória de Gal evidencia que proteção, dignidade e bem-estar não dependem apenas de escolhas individuais, mas de condições sociais muitas vezes negadas, ao mesmo tempo em que demonstra como essas experiências são atravessadas por desigualdades de gênero, raça e classe, que se articulam e intensificam a vulnerabilidade.
Assim, o longa-metragem convida a refletir sobre o cuidado como um ato de resistência, ao evidenciar a força cotidiana de mulheres – especialmente as mães negras brasileiras – que, mesmo diante de múltiplas adversidades, persistem em sobreviver e proteger quem amam.
REFERÊNCIAS:
CRUZ, Elaine Patrícia. A melhor mãe do mundo: filme aborda violência doméstica e resistência. Agência Brasil, 25 jul. 2025. Disponível em:https://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2025-07/melhor-mae-do-mundo-filme-aborda-violencia-domestica-e-resistencia. Acesso em: 28 abr. 2026.
HALLIDAY, Fred. Repensando as Relações Internacionais. 2a. ed. Porto Alegre, Editora da UFRGS, 2007.
INSTITUTO PENSI. A melhor mãe do mundo. Instituto Pensi. Disponível em:https://institutopensi.org.br/a-melhor-mae-do-mundo. Acesso em: 28 abr. 2026.
GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje, v. 2, n. 1, p. 223-244, 1984.
TICKNER, J. Ann. Gender in International Relations: Feminist Perspectives on Achieving Global Security. New York: Columbia University Press, 1992.
