Crédito da foto: Serviço de Segurança Ucraniano

Ícaro Santos Pereira – Acadêmico do 5° semestre de Relações Internacionais da UNAMA.

O conceito de Guerra Híbrida, formulado inicialmente em 2007 pelos militares norte-americanos Frank Hoffman e James Mattis, passou a ser amplamente utilizado como ferramenta de compreensão e análise geopolítica, sobretudo a partir da década de 2010, com o surgimento de eventos como as Revoluções Coloridas, a Primavera Árabe e as interferências sobre processos eleitorais ao redor do globo. O conceito pode ser compreendido como a substituição das disputas entre atores estatais exclusivamente cinéticas e bélicas por formas mistas de manipulação política, informacional e social, nas quais a estratégia deixa de ser apenas a destruição material do adversário e passa a priorizar a erosão de sua unidade e estabilidade sociopolítica, questionando a legitimidade de suas instituições (Hoffman, 2007; Korybko, 2015).

A Guerra Híbrida consiste, na combinação de diferentes táticas, como guerra informacional, disseminação de notícias falsas, lawfare (guerra jurídica), pressão diplomática, influência e manipulação eleitoral, além da provocação e organização da dissidência política em determinados grupos, seja de maneira consciente ou inconsciente. Tais mecanismos são utilizados como instrumentos para a realização dos objetivos políticos de determinados atores do sistema internacional, tanto em processos de mudança de regime quanto na defesa de interesses estratégicos e econômicos (Korybko, 2015).

Os exemplos relacionados à Guerra Híbrida ao longo do século XXI são numerosos. O termo foi inicialmente ultilizado para descrever as chamadas Revoluções Coloridas na Europa Oriental e na Ásia Central, eventos em que se confrontavam projetos políticos distintos no período pós-Guerra Fria. De um lado, encontravam-se governos considerados conservadores ou autoritários, de outro, movimentos de oposição que mobilizaram amplíssimos setores políticos através de discursos que transitavam entre o combate à corrupção e ao autoritarismo, a defesa da democratização, da integração ocidental e, em determinados casos, do nacionalismo chauvinista (Korybko, 2015).

Um dos casos mais emblemáticos ocorreu na Ucrânia, durante a Revolução Laranja, entre 2004 e 2005, marcada pela disputa entre setores alinhados ao Ocidente e grupos favoráveis à Rússia. Está tensão aprofundou-se posteriormente durante os protestos do Euromaidan, entre 2013 e 2014, quando o conflito entre grupos pró-União Europeia e setores favoráveis à manutenção da proximidade com Moscou revelou diversos elementos associados à Guerra Híbrida. Entre eles, destacam-se o uso das redes sociais como instrumento decisivo de mobilização política, a presença de organizações nacionalistas extremistas e alegações recorrentes de financiamento estrangeiro para grupos políticos e organizações civis (BBC, 2014). Estes acontecimentos são frequentemente interpretados como antecedentes diretos da anexação da Crimeia pela Rússia, dos movimentos separatistas em Donetsk e Lugansk e, posteriormente, da guerra entre Rússia e Ucrânia (Mearsheimer, 2014).

Outra dimensão relevante das guerras híbridas corresponde às ingerências em processos eleitorais. Além das denúncias de fraudes diretas em diferentes partes do mundo, observa-se o crescimento de formas indiretas de manipulação política realizadas por Estados e outros atores internacionais. Um dos episódios mais conhecidos ocorreu nas eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2016, quando surgiram acusações de interferência russa por meio de campanhas de desinformação digital, utilização de perfis automatizados e disseminação massiva de conteúdos polarizadores nas redes sociais. O objetivo dessas operações não seria apenas favorecer determinado candidato, mas ampliar divisões internas e reduzir a confiança da população nas instituições democráticas estadunidenses (The New York Times, 2017).

No caso do Brasil, diversos autores relacionam os acontecimentos posteriores às manifestações de 2013 à lógica da Guerra Híbrida. As mobilizações do período, inicialmente voltadas a pautas amplas relacionadas à crise econômica, corrupção e serviços públicos, mesmo que não necessariamente resultantes de uma arquitetura organizada de desestabilização, acabaram estabelecendo uma conjuntura favorável para uma profunda reorganização do cenário político nacional. Posteriormente, o avanço da Operação Lava Jato e as acusações de cooperação entre instituições brasileiras e organismos ligados aos Estados Unidos, como o Departamento de Justiça, passaram a ser interpretados por determinados analistas como exemplos de lawfare e de disputa geopolítica por influência regional e interesses econômicos estratégicos (The Intercept Brasil, 2019).

Nesse sentido, a Guerra Híbrida pode ser compreendida como expressão da disputa pela hegemonia contemporânea. Conforme argumenta John Mearsheimer, as grandes potências buscam constantemente ampliar sua influência e impedir o fortalecimento de rivais estratégicos. Em um contexto de elevada interdependência econômica e de altos custos militares, instrumentos informacionais, cibernéticos e políticos tornam-se alternativas mais eficientes para projeção de poder do que o confronto militar convencional (Mearsheimer, 2001).

Ao mesmo tempo, a Guerra Híbrida amplia significativamente o número de atores envolvidos nos conflitos internacionais. Empresas de tecnologia, plataformas digitais, organizações privadas, grupos paramilitares, influenciadores digitais e redes transnacionais passam a exercer funções anteriormente monopolizadas pelos Estados. Isto produz um cenário no qual a soberania estatal torna-se progressivamente mais vulnerável à influência externa.

Dessa forma, a Guerra Híbrida representa não apenas uma transformação nas formas contemporâneas de conflito, mas também uma reconfiguração dos mecanismos de poder e influência no sistema internacional. A informação, a comunicação digital e o controle narrativo tornam-se elementos centrais da disputa geopolítica do século XXI.

REFERÊNCIAS

ARRIGHI, Giovanni. Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século XXI. São Paulo: Boitempo, 2008.

BBC NEWS. Ukraine crisis: Timeline. 2014. Disponível em: https://www.bbc.com/news/world-middle-east-26248275, Acesso em 7 Maio 2026.

HOFFMAN, Frank. Conflict in the 21st Century: The Rise of Hybrid Wars. Arlington: Potomac Institute for Policy Studies, 2007. Disponível em: https://www.potomacinstitute.org/images/stories/publications/potomac_hybridwar_0108.pdf

KORYBKO, Andrew. Hybrid Wars: The Indirect Adaptive Approach to Regime Change. Moscou: Peoples Friendship University of Russia, 2015.

MEARSHEIMER, John. The Tragedy of Great Power Politics. New York: W. W. Norton & Company, 2001.

MEARSHEIMER, John. Why the Ukraine Crisis Is the West’s Fault. Foreign Affairs, 2014, Disponível em: https://www.mearsheimer.com/wp-content/uploads/2019/06/Why-the-Ukraine-Crisis-Is.pdf

THE INTERCEPT BRASIL. As mensagens secretas da Lava Jato. 2019.