Railson Silva (acadêmico do 8° semestre de Relações Internacionais da UNAMA)

O teórico Immanuel Wallerstein nascido em 1930 , nos Estados Unidos, foi um dos mais influentes intelectuais das Ciências Sociais no século XX, reconhecido principalmente pela formulação da Teoria do Sistema-Mundo. Sua formação intelectual foi fortemente influenciada pelo marxismo, pela Escola dos Annales e pelos estudos sobre dependência econômica latino-americana. Atuou como professor e pesquisador em importantes universidades, destacando-se pela análise das relações entre economia, política e poder em escala internacional.

Sua principal contribuição teórica consistiu em demonstrar que o capitalismo deve ser entendido como um sistema histórico mundial integrado, estruturado pela divisão entre países centrais, periféricos e semiperiféricos, dinâmica que reproduz desigualdades econômicas e políticas ao longo do tempo (Pennaforte, 2023). 

A Teoria do Sistema-Mundo foi formulada durante a década de 1970, em um contexto marcado pela crise econômica internacional, pela descolonização afro-asiática e pelo questionamento das teorias tradicionais da modernização. Wallerstein propôs uma interpretação histórica do capitalismo como um sistema global integrado, estruturado a partir de relações econômicas desiguais (Martins, 2015). 

Em contraposição às abordagens mainstream das Relações Internacionais, que atribuíam centralidade ao Estado-nação, Wallerstein defendia que a verdadeira unidade de análise deveria ser o sistema-mundo capitalista. Para o autor, os Estados não poderiam ser compreendidos isoladamente, pois suas economias e estruturas políticas estavam inseridas em uma rede global de interdependência e exploração (Pennaforte, 2023). Assim, o capitalismo deveria ser interpretado como um fenômeno histórico transnacional, cuja expansão ocorreu desde o século XVI por meio da incorporação progressiva de diferentes regiões do planeta.

Segundo o intelectual, o sistema-mundo moderno consolidou-se na Europa Ocidental durante a transição do feudalismo para o capitalismo. Esse processo foi impulsionado pela expansão marítima europeia, pelo colonialismo e pela ampliação do comércio internacional. A formação da economia-mundo capitalista permitiu a criação de um mercado internacional integrado, no qual diferentes regiões passaram a ocupar funções específicas na divisão internacional do trabalho (Grazziotin, 2019).

Um dos conceitos centrais da teoria é a divisão do sistema em três categorias: centro, periferia e semi-periferia. Os estados centrais concentram maior desenvolvimento tecnológico, capacidade industrial, poder militar e influência política internacional. Além disso, controlam os fluxos financeiros e os mecanismos mais lucrativos da economia global (Pennaforte, 2023). Historicamente, Estados como a Inglaterra e os Estados Unidos ocuparam posições centrais dentro do sistema capitalista .

A atualidade do pensamento de Wallerstein reside, entre outras coisas, na perspectiva crítica que fundamenta a resistência aos processos de dominação não somente no campo econômico, mas, principalmente, no nível das superestruturas que naturalizam e justificam essas dominações.

Por outro lado, os estados periféricos caracterizam-se pela dependência econômica, pela exportação de matérias-primas e pela baixa industrialização. Nessas regiões, predominam relações de trabalho mais precárias e menor capacidade de acumulação de capital. Para Wallerstein, a periferia desempenha uma função primordial no capitalismo global, pois esses estados fornecem recursos naturais e mão de obra barata aos estados centrais. Dessa forma, o desenvolvimento dos estados centrais ocorre de forma simultânea à manutenção do subdesenvolvimento da periferia (Martins, 2015).

A semi-periferia, por sua vez, ocupa uma posição intermediária entre o centro e a periferia. Esses estados apresentam certo nível de industrialização e desenvolvimento econômico, entretanto ainda mantêm relações de dependência em relação aos centros hegemônicos e ao mesmo tempo, exploram economicamente regiões periféricas. De acordo com Pennaforte (2023), a existência da semi-periferia contribui para a estabilidade do sistema-mundo, pois reduz tensões estruturais e dificulta a polarização absoluta entre estados ricos e pobres.

Outro elemento fundamental da teoria wallersteiniana é a noção de ciclos hegemônicos. Ao longo da história do capitalismo mundial, determinados estados assumem temporariamente a posição de hegemonia econômica e política. Porém, Pennaforte (2023) enaltece que essa posição não é permanente, sendo gradativamente substituída por novas potências emergentes. E durante esse processo, ocorreram sucessivas transições hegemônicas, como da Holanda para a Inglaterra e, posteriormente, dos britânicos para os EUA. 

Por fim, a Teoria do Sistema-Mundo continua sendo utilizada para compreender fenômenos como o neocolonialismo, a financeirização da economia, a expansão das multinacionais e disputas geopolíticas entre as grandes potências. O crescimento econômico da China, por exemplo, é frequentemente analisado sob a ótica de uma possível reorganização da estrutura do sistema-mundo e de uma eventual transição hegemônica. Sendo assim, as contribuições do pensador permanecem pertinentes para fins de análises das reverberações do sistema capitalista internacional.

Referências:

GRAZZIOTIN, Henrique de Abreu. O processo histórico de formação do sistema-mundo capitalista. Economia Ensaios, Uberlândia, v. 32, n. 2, 2019.  Disponível em: 

<https://seer.ufu.br/index.php/revistaeconomiaensaios/article/view/40899/27757&gt;

MARTINS, José Ricardo. Immanuel Wallerstein e o sistema-mundo: uma teoria ainda atual? Iberoamérica Social: revista-red de estudios sociales, v. V, p. 95-108, dez. 2015. 

<https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/6582409.pdf>

PENNAFORTE, Charles Pereira. Análise dos sistemas-mundo: uma introdução ao pensamento de Immanuel Wallerstein. Pelotas: Editora UFPel, 2023. Disponível em:

<https://guaiaca.ufpel.edu.br/handle/prefix/919&gt;