Lucas Cardoso – Acadêmico do 7° semestre de Relações Internacionais da UNAMA.

As Mães da Plaza de Mayo surgiram durante a ditadura militar argentina, instaurada após o golpe de Estado de 1976. O regime militar promoveu intensa repressão política contra opositores, estudantes, sindicalistas e militantes considerados ameaças ao governo. Neste contexto, milhares de pessoas foram sequestradas, torturadas e desapareceram sem informações oficiais sobre seus destinos. Diante da ausência de respostas do Estado, um grupo de mães passou a se reunir na Plaza de Mayo, em Buenos Aires, exigindo informações sobre seus filhos desaparecidos e denunciando as violações de direitos humanos cometidas pelo regime (Feitlowitz, 1998).

O movimento começou oficialmente em 1977, quando algumas mulheres decidiram ocupar o espaço público de maneira pacífica para pressionar o governo militar. As manifestações ocorriam em frente à Casa Rosada, sede do governo argentino, local simbólico da política nacional. Como reuniões públicas eram proibidas pela ditadura, as mães passaram a caminhar em círculos pela praça para evitar repressão imediata. O lenço branco utilizado por elas tornou-se símbolo internacional da luta por memória, verdade e justiça, representando tanto a ausência dos filhos desaparecidos quanto a resistência civil diante da violência estatal (Bonafini, 2005).

Ao longo dos anos, as Mães da Plaza de Mayo ganharam projeção internacional ao denunciar os crimes da ditadura argentina em organismos internacionais, organizações de direitos humanos e meios de comunicação estrangeiros. Sua atuação contribuiu para ampliar a pressão internacional contra o regime militar e para expor práticas de terrorismo de Estado na América Latina durante o período da Guerra Fria. Mesmo sob ameaças e perseguições, o movimento continuou ativo, tornando-se referência global na defesa dos direitos humanos e no combate ao desaparecimento forçado (Jelin, 2003).

Com o fim da ditadura em 1983 e a redemocratização da Argentina, as Mães da Plaza de Mayo continuaram exercendo papel importante no debate político e social do país. O movimento passou a defender políticas de memória, responsabilização dos agentes envolvidos na repressão e preservação da história das vítimas do regime militar. Além disso, sua atuação influenciou outros movimentos de familiares de desaparecidos em diferentes países da América Latina, especialmente em contextos marcados por violência política e autoritarismo (Jelin, 2003).

No campo das Relações Internacionais, a trajetória das Mães da Plaza de Mayo pode ser analisada a partir da teoria construtivista de Alexander Wendt. O construtivismo argumenta que a política internacional não é determinada apenas por fatores materiais, mas também por ideias, identidades e normas construídas socialmente. Desta forma, valores relacionados aos direitos humanos, à memória coletiva e à justiça internacional são resultado de processos históricos e sociais que moldam o comportamento dos atores políticos (Wendt, 1999).

A atuação das Mães da Plaza de Mayo exemplifica essa perspectiva ao demonstrar como atores não estatais podem influenciar normas internacionais. Por meio de protestos, discursos e mobilização transnacional, o movimento ajudou a fortalecer a ideia de que violações de direitos humanos não devem ser tratadas apenas como assuntos internos dos Estados. Sua atuação contribuiu para consolidar debates internacionais sobre desaparecimento forçado, justiça de transição e responsabilização estatal, ampliando a relevância dos direitos humanos no sistema internacional.

O movimento também contribuiu para a construção de uma identidade coletiva baseada na memória e na resistência política. As Mães da Plaza de Mayo transformaram a dor individual da perda em ação política coletiva, criando uma narrativa que ultrapassou as fronteiras argentinas e passou a representar a luta contra o autoritarismo em diferentes partes do mundo. Sob a perspectiva construtivista, essa identidade coletiva foi fundamental para legitimar o movimento internacionalmente e ampliar sua capacidade de influência política.

Por fim, as Mães da Plaza de Mayo demonstram como movimentos sociais podem participar ativamente da transformação das normas internacionais. Sua trajetória evidencia que o sistema internacional é constantemente moldado por interações sociais e disputas de significado, nas quais diferentes atores buscam redefinir conceitos como justiça, memória e direitos humanos. Desta maneira, o movimento tornou-se um dos principais símbolos globais de resistência civil contra a repressão política e a violência de Estado.

Referências:

BONAFINI, Hebe de. Historia de las Madres de Plaza de Mayo. Buenos Aires: Asociación Madres de Plaza de Mayo, 2005.

FEITLOWITZ, Marguerite. A Lexicon of Terror: Argentina and the Legacies of Torture. Oxford: Oxford University Press, 1998.

JELIN, Elizabeth. State Repression and the Labors of Memory. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2003.

WENDT, Alexander. Social Theory of International Politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.