
Ana Clara Falcão – Acadêmica do 3º semestre de Relações Internacionais da UNAMA.
A obra cinematográfica italiana “La Vitta È Bella”, foi dirigida e protagonizada por Roberto Benigni, o filme também conta com a atuação central da atriz Nicoletta Braschi, no papel de Dora, esposa do protagonista Guido. Lançado em 1997, o filme se tornou um sucesso mundial, a confirmação desse sucesso veio através das 3 categorias vencidas no Oscar de 1999, além das sete indicações que recebeu.
O filme traz um retrato sensível, porém com nuances de humor em meio ao cenário de tragédia da II Guerra Mundial. A trama acompanha Guido, um livreiro judeu, que vive no contexto mais severo do Nazifascismo italiano, mas o tom humorístico vem justamente de sua posição frente às políticas cruéis do período.
Roberto Benigni representa um pai, que diante de todo o sofrimento após ser levado junto ao seu filho para um campo de concentração, busca amenizar a situação ao simular para o filho que estão em um jogo, e que precisam se esconder para garantir os pontos e a vitória neste jogo. De forma bem-humorada ao criar esta narrativa, o protagonista escolhe proteger o filho, que caso soubesse da realidade, poderia sofrer ainda mais.
Inicialmente a trama mostra a rotina de sua família, em um cenário já ameaçador para Guido, o filho Giosué inclusive demonstra curiosidade do porquê alguns estabelecimentos de sua cidade proíbem a entrada de judeus, e Guido em sua tentativa de protegê-lo responde que todo estabelecimento é assim, e que restringem o acesso para as pessoas que não gostam.
Apesar da tentativa de proteção, a colocação de Guido também pode ser avaliada por uma lente crítica, ao remontarmos a outras guerras e crises, e que em cada uma delas, alguns grupos de pessoas, povos diferentes foram vítimas da rotulação e perseguição.
O filme pode ser analisado pela obra “Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente” do autor Edward Said. Entende-se que o Oriente seja uma construção feita pelo Ocidente, de modo a beneficiar a visão do mundo em favor do Ocidente, posicionando o mesmo como superior ou mais civilizado. De outro lado, pontua a criação de uma visão estereotipada e inferiorizada de países do Oriente, reduzindo a pluralidade de um extenso espaço a uma visão forjada pelos países dominantes do Ocidente que busca justificar as dominações e explorações desses povos (Said, 2007).
Ainda que o filme não trate diretamente da dinâmica Oriente versus Ocidente, é possível observar a construção de uma visão inferiorizada de um povo: neste caso, o povo judeu, justificada pela “superioridade ariana”, doutrina racista, da qual os países expoentes do Nazifascismo sustentavam a sua política de desumanização e perseguição.
Por fim, o drama se faz relevante para compreender os processos de dominação ocorridos no sistema internacional, e que ainda ocorrem, de superioridade, e em busca de maior domínio neste sistema. A obra audiovisual torna-se então uma ferramenta interessante para compreender as disputas de poder naquele período, e confirma que a “guerra de narrativas” também é uma realidade, conforme proposto por Said (2007), ao trazer a ideia de forjar a visão sobre um outro povo, e os prejuízos trazidos por estas construções refletidos no comportamento dos Estados na dinâmica global.
REFERÊNCIAS:
A VIDA É BELA. Direção: Roberto Benigni. Produção: Elda Ferri e Gianluigi Braschi. [S.l.]: Cecchi Gori Group, 1997.
SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. Tradução de Tomás Rosa Bueno. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007
