
Rafael de Souza Corrêa, acadêmico do 3° semestre de Relações Internacionais
Ficha técnica:
Ano: 2015 – 2018
Direção: Drew Goddard
Distribuição: Netflix/Disney+
Gênero: Drama Policial, Vigilantismo, Neo-noir.
País de Origem: Estados Unidos
A série Demolidor narra a vida de Matt Murdock, um advogado de Hell’s Kitchen, Nova York, que perdeu a visão na infância em decorrência de um acidente com produtos químicos, porém seus outros sentidos ficaram extremamente aguçados e sobre-humanos. Nesse contexto, Murdock leva uma vida dupla: de dia, luta contra as injustiças no tribunal; à noite, atua como o vigilante “Demolidor”, também conhecido como “Demônio de Hell’s Kitchen” (DEMOLIDOR, 2015).
A trama desenvolve-se a partir de três arcos fundamentais: observa-se a ascensão e queda do império de Wilson Fisk, o Rei do Crime, na primeira temporada; o surgimento de justiceiros letais e a ameaça de organizações milenares como o “Tentáculo” na segunda temporada; e a desconstrução da identidade do herói diante do retorno manipulador de Fisk ao poder na terceira temporada (DEMOLIDOR, 2015). Assim, a obra é reconhecida por sua abordagem sombria e pelo profundo questionamento sobre a moralidade da violência.
A princípio, pode-se analisar a segunda temporada da série sob a ótica do Primeiro Debate das Relações Internacionais. Este confronto intelectual, ocorrido no período entreguerras, colocou em oposição o Idealismo (ou Liberalismo Utópico) e o Realismo Político. Fundamentado na ética kantiana, o Idealismo propõe uma ordem baseada na moral e em instituições para evitar a barbárie. De acordo com Jackson e Sørensen (2007), essa vertente acredita na Harmonia de Interesses, isto é, onde normas e regimes amenizam a anarquia sistêmica. Desse modo, a legitimidade reside no ideal de Imperativo Categórico, que preserva a dignidade humana como valor absoluto e construindo a paz através do Direito e da cooperação institucional.
Em oposição, o Realismo Político surge como uma denúncia àquilo que E.H. Carr (2001), classificou como a “Utopia Liberal”, ao defender que a política é governada por leis objetivas baseadas na natureza humana competitiva. Para Hans Morgenthau (2003), o motor das relações sistêmicas anárquicas é o interesse definido como poder. Ademais, pela perspectiva da “autoajuda” (self-help) de Kenneth Waltz (2002), a segurança depende do equilíbrio de força e da capacidade ofensiva, não de tratados. Dessa forma, a escola prioriza a “Ética da Responsabilidade”, onde a sobrevivência coletiva justifica meios que a moral individual consideraria condenáveis.
Isto posto, para o aprendizado das Relações Internacionais, a segunda temporada de Demolidor retrata perfeitamente essa desavença e oferece um laboratório perfeito para o estudo de sistemas em crise. Após a prisão de Wilson Fisk na temporada anterior, observa-se o colapso de uma “Hegemonia Regional”. O vilão mantinha uma ordem, ainda que a mesma fosse criminosa. Sem ele, Hell’s Kitchen mergulha em um vácuo de poder, resultando em uma anarquia urbana que remete ao Estado de Natureza, defendido pelo realista Thomas Hobbes. É nesse cenário de desordem que dois atores – o Demolidor e o Justiceiro – emergem para impor suas próprias visões de governança e segurança.
Matt Murdock, como Demolidor, é a personificação do Idealismo clássico. Sua atuação como advogado e vigilante é pautada na crença inabalável nas instituições e no Direito. Para o idealista, a anarquia pode ser amenizada por intermédio de normas e regimes que regulam o comportamento dos atores. O herói acredita que o “Estado de Direito” é o que nos separa do caos.
No diálogo central do episódio “New York’s Finest” (2×03), Matt defende que “ninguém está além da redenção”. Esta é uma aplicação da ética Kantiana: o ser humano como um fim em si mesmo. Para o Demolidor, se o sistema falha, a solução é fortalecê-lo, nunca abandoná-lo. Matar o criminoso, para o idealista, é admitir que a civilização perdeu para a barbárie, ou seja, é destruir a própria base moral que diferencia o herói dos vilões. Assim, o uso da força por Matt é sempre limitado, pois recusa-se a executar seus inimigos, visando a manutenção da legitimidade do sistema jurídico.
Em contrapartida drástica, Frank Castle, o Justiceiro, pensa diferente, podendo ser representado pelo pensamento do Realismo Político de autores como Hans Morgenthau. O anti-herói possui uma visão totalmente pessimista e pragmática do mundo: atores perigosos não mudam, eles devem ser eliminados. No Realismo, o conceito de “autoajuda” (self-help) é o motor da ação. Se as instituições, como a polícia e a justiça, falham em garantir a segurança, o ator racional deve acumular poder e agir de forma independente para aniquilar a ameaça.
Castle argumenta que Murdock apenas “coloca curativos em feridas de bala”. Para o Justiceiro, o Idealismo do Demolidor é perigoso porque permite que o agressor retorne para ferir novos inocentes. Desse modo, Frank foca no resultado final (output), pois, na sua lógica de guerra total, a única paz duradoura é aquela alcançada pela eliminação definitiva da capacidade ofensiva do inimigo. Ele, então, não busca a justiça moral, mas a segurança pragmática, através da execução de criminosos para garantir a paz.
Dessa forma, enquanto o Demolidor ecoa a esperança idealista de que a civilização pode ser gerida por normas e pela cooperação institucional, o Justiceiro personifica a virada realista de meados do século XX, argumentando que a política, neste caso, a segurança urbana, é ditada pela força e pelo poder, e não por desejos morais subjetivos. Esse confronto de ideias é o que sustenta a tensão intelectual de toda a segunda temporada.
A série se recusa a dar uma resposta fácil. O idealismo de Matt Murdock muitas vezes parece ingênuo diante de crimes perversos, enquanto o realismo de Frank Castle gera um rastro de sangue que não constrói uma sociedade estável. Para as Relações Internacionais, a conclusão é que a ordem internacional vive nessa tensão constante.
Por fim, o Idealismo é importante para indicar os valores e manter a humanidade dos cidadãos, mas constantemente esses princípios são confrontados pela necessidade de respostas Realistas diante de atores que não respeitam as normas. O Demolidor e o Justiceiro são, portanto, as duas faces da mesma moeda da governança em um mundo imperfeito e anárquico.
REFERÊNCIAS:
CARR, E.H. Vinte Anos de Crise: 1919-1939. Uma Introdução ao Estudo das Relações Internacionais, 2001.
DISNEY+. Demolidor. Disney+, 2015. Disponível em: https://www.disneyplus.com. Acesso em: 27 abr. 2026.
HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Martin Claret, 2002 (1651).
JACKSON, Robert; SØRENSEN, Georg. Introdução às Relações Internacionais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
MORGENTHAU, Hans J. A política entre as nações. Brasília: Editora UnB, 2003.
WALTZ, Kenneth N. Teoria das Relações Internacionais. Lisboa: Gradiva, 2002.
