Foto: Adem AY/Unsplash

Kalwene Ibiapina – Internacionalista formada pela Universidade da Amazônia (UNAMA)

A ascensão das redes sociais e das plataformas digitais transformou profundamente a forma como líderes políticos exercem influência sobre a população. No cenário internacional contemporâneo, observa-se o fortalecimento de estratégias de comunicação política baseadas no populismo digital, na manipulação da opinião pública e na disseminação de discursos polarizadores. Nesse contexto, atores políticos passaram a utilizar mecanismos tecnológicos e midiáticos para mobilizar massas, consolidar poder e influenciar processos democráticos em escala global, demonstrando que as disputas políticas no século XXI ultrapassam as formas tradicionais de poder.

Nesse sentido, o controle das massas no contexto atual ocorre principalmente por meio do domínio das narrativas digitais, da mediação algorítmica e da mobilização simbólica, configurando novas formas de exercício do poder político. 

Diante disso, o construtivismo, corrente teórica das Relações Internacionais, compreende que a política internacional é socialmente construída por meio de ideias, discursos, símbolos e práticas compartilhadas. Para Alexander Wendt (1999), as identidades são a base dos interesses políticos, portanto, a influência política contemporânea depende cada vez mais da capacidade de moldar interpretações da realidade e direcionar comportamentos sociais. 

Na mesma lógica, outros autores e teorias contribuem para compreender as formas contemporâneas de controle e poder: Michel Foucault compreende o poder como uma rede disseminada socialmente através da vigilância, do discurso e da produção de “verdades” legitimadas. Joseph Nye desenvolve o conceito de soft power, relacionado à capacidade de influência política e cultural sem o uso direto da força. Já Noam Chomsky analisa os meios de comunicação como instrumentos de direcionamento da opinião pública e fabricação de consensos ou consentimentos políticos, enquanto Guy Debord discute a “sociedade do espetáculo”, marcada pela predominância da imagem, da performance e da espetacularização da vida social.

Paralelamente às discussões teóricas, algumas distopias literárias do século XX também anteciparam elementos presentes na realidade contemporânea. Obras como “1984” e “Revolução dos Bichos” de George Orwell, “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, “Fahrenheit 451” de Ray Bradbury, e “We” de Yevgeny Zamyatin, abordam temas como vigilância, manipulação informacional, alienação coletiva, extremismo ideológico e controle social.

A partir disso, percebe-se grande aproximação entre essas discussões com o cenário político contemporâneo. As redes sociais passaram a ocupar posição central na comunicação entre líderes políticos e população, permitindo interação direta, instantânea e mobilizadora, e evidenciando que o domínio narrativo e simbólico se tornou elemento estratégico das disputas de poder. Nesse contexto, fortalece-se o chamado “populismo digital”, caracterizado pelo uso estratégico das plataformas digitais para construção de narrativas políticas, mobilização das massas e intensificação da polarização ideológica.

Os discursos políticos disseminados pelas redes sociais tornam-se ferramentas fundamentais para mobilização popular e fortalecimento de identidades coletivas, enquanto líderes políticos passam a estabelecer comunicação direta com a população por meio de plataformas como X, Instagram, TikTok e Facebook, reduzindo a mediação dos veículos tradicionais de imprensa e ampliando o alcance de mensagens emocionais, nacionalistas, e apelativas, caracterizadas pelo uso estratégico desses meios para criação de vínculos emocionais entre líderes e massas. 

Ao mesmo tempo, as chamadas big techs, que são as grandes empresas de tecnologia responsáveis pelo controle dessas plataformas digitais, adquiriram papel central na circulação de informações e na formação da opinião pública. Os algoritmos dessas plataformas influenciam quais conteúdos recebem maior visibilidade, condicionando debates públicos, reforçando polarizações e direcionando percepções sociais. Dessa forma, o ambiente digital deixou de representar apenas um espaço de interação para se tornar um território de disputa política e controle narrativo. 

Essa dinâmica pode ser observada em diferentes lideranças internacionais contemporâneas: Donald Trump utilizou intensamente as redes sociais durante as eleições de 2016 e nos episódios relacionados à invasão do Capitólio, em 2021, mobilizando apoiadores através de discursos nacionalistas e antissistema. Jair Bolsonaro também consolidou forte presença digital baseada em discursos polarizadores, ataques institucionais e mobilização virtual, contexto associado aos atos de 8 de janeiro de 2023, em Brasília. 

Na Argentina, Javier Milei representa o fortalecimento da política performática e da viralização digital, utilizando linguagem agressiva, apelo emocional e intensa presença nas redes sociais como estratégias de comunicação política. Já Vladimir Putin utiliza mecanismos de controle informacional e domínio narrativo como instrumentos de legitimação política, especialmente no contexto da guerra entre Rússia e Ucrânia, evidenciando o papel estratégico da comunicação no fortalecimento do poder estatal. 

Neste sentido, no cenário político contemporâneo, a atuação desses líderes evidencia como o poder está cada vez mais associado ao controle das narrativas, à mediação digital e à construção simbólica da realidade social. 

As reflexões de Michel Foucault permitem compreender como plataformas digitais e sistemas algorítmicos atuam na vigilância e no direcionamento de comportamentos sociais. Essa lógica aproxima-se de “1984”, de George Orwell, ao evidenciar o controle da informação como instrumento de dominação, onde a coleta constante de dados, o monitoramento digital e a circulação controlada de informações aproximam-se das formas contemporâneas de exercício do poder observadas nas estratégias discursivas de Trump, e de forma mais centralizada, de Putin. 

Na perspectiva de Joseph Nye, o domínio das narrativas digitais, da comunicação política e das plataformas informacionais configura-se como um componente estratégico do soft power nas disputas internacionais, na medida em que evidencia a capacidade de influenciar por meio de elementos simbólicos, sem uso direto da força, estratégia explorada por Trump, Bolsonaro e Javier Milei, que utilizam redes sociais para construir vínculos emocionais, reforçar identidades políticas e mobilizar apoiadores. 

Tal dinâmica também dialoga com Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, ao demonstrar formas sutis de controle baseadas na adesão voluntária e no apelo emocional, trazendo a reflexão sobre sociedades nas quais os próprios indivíduos passam a aceitar, e até desejar, mecanismos sutis de controle e alienação social, como observa em: “As pessoas chegarão a amar sua opressão. ” (HUXLEY, 1932). 

Já em Noam Chomsky, os meios de comunicação atuam na fabricação de consenso, processo intensificado no ambiente digital. Essa lógica se relaciona a Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, ao evidenciar a superficialidade informacional e a fragilização do pensamento crítico, potencializadas pela velocidade e fragmentação das redes, favorecendo campanhas de desinformação, manipulação midiática e radicalização política.  

Essa dinâmica pode ser observada nas estratégias comunicacionais de Trump, Bolsonaro e Milei, que recorrem à comunicação direta para influenciar a opinião pública, por meio de conteúdos simplificados, polarizadores ou desinformativos. E também em Putin, que utiliza as redes sociais como uma ferramenta central de propaganda, controle interno e guerra de informação, combinando táticas de censura doméstica com operações sofisticadas de influência no exterior. 

Já Guy Debord, ao analisar a “sociedade do espetáculo”, marcada pela predominância da imagem, da performance e da espetacularização da vida social, contribui para a reflexão do cenário político contemporâneo no qual a política tornou-se fortemente performática e orientada pela lógica da viralização. Discursos simplificados, ataques midiáticos, conteúdos emocionais e aparições públicas calculadas tornam-se elementos centrais da comunicação política digital. Essa perspectiva também dialoga com “We”, de Yevgeny Zamyatin, ao evidenciar a padronização e o controle social. Nesse contexto, Milei, Trump e Bolsonaro são grandes exemplos de atores políticos que se utilizam fortemente de estratégias midiáticas voltadas ao engajamento e à visibilidade. 

Logo, observa-se como essas lideranças contemporâneas combinam controle discursivo, influência simbólica, direcionamento da opinião pública, e espetacularização da política, configurando um novo modelo de poder.

Nesse sentido, as plataformas digitais consolidam-se, assim, como instrumentos centrais de disputa política, permitindo que essas lideranças mobilizem emoções, reforcem identidades coletivas e intensifiquem a polarização ideológica em escala global. Assim, mais do que recursos militares ou econômicos, o poder contemporâneo se fundamenta na capacidade de controlar narrativas e influenciar a construção da realidade social, redefinindo as dinâmicas da política internacional. 

Portanto, o avanço das redes sociais, das big techs e da comunicação digital redefine intensamente as relações entre poder, sociedade e democracia, tornando indispensável discutir os impactos dessas transformações sobre a soberania informacional, a formação da opinião pública e o funcionamento das instituições democráticas no cenário internacional contemporâneo.

Como retrata Orwell (2009), “quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado”.

Referências:

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