Mayara Batalha – 8° Semestre

A crescente centralidade das terras raras nas cadeias produtivas contemporâneas reposicionou os minerais críticos como elementos estratégicos nas disputas internacionais por tecnologia, capacidade industrial e poder econômico. Aplicados em setores como semicondutores, telecomunicações, equipamentos militares, inteligência artificial e sistemas industriais avançados, os Elementos de Terras Raras passaram a integrar as estratégias nacionais das grandes potências, sobretudo diante da intensificação da rivalidade entre China e Estados Unidos.

Sob a perspectiva da Economia Política Internacional, a disputa pelas terras raras evidencia a relação entre recursos estratégicos, capacidade tecnológica e poder estatal. Para Robert Gilpin (1981), a posição das grandes potências na ordem internacional depende da capacidade de controlar os setores econômicos e tecnológicos mais dinâmicos da economia mundial.

Nesse sentido, minerais críticos tornam-se instrumentos relevantes de competitividade industrial, segurança econômica e projeção de poder. Assim, a competitividade internacional não depende exclusivamente da posse de reservas minerais, mas da capacidade estatal de transformar recursos naturais em capacidade produtiva e inovação tecnológica.

Atualmente, a China ocupa posição dominante no mercado global de terras raras, concentrando não apenas parcela expressiva da produção mineral, mas, sobretudo, as etapas de processamento, refino e fabricação de componentes industriais de maior valor agregado (Huang e Xie, 2025). Segundo a International Energy Agency (2026), a cadeia produtiva das terras raras apresenta um dos mais elevados níveis de concentração geográfica entre os minerais críticos analisados pela agência, fator que ampliou preocupações relacionadas à dependência externa e à vulnerabilidade das cadeias globais de suprimento.

Sob essa dinâmica, o Brasil passou a adquirir gradativa relevância estratégica em razão de suas reservas minerais. Dados do United States Geological Survey (USGS, 2025) indicam que o país possui uma das maiores reservas mundiais de terras raras e destacam-se depósitos localizados em Minas Gerais, Goiás, Pará e Amazonas (Instituto Brasileiro de Mineração, 2025. p. 49). Contudo, apesar de sua disponibilidade geológica, o país ainda apresenta reduzida capacidade de internalização tecnológica nas etapas mais sofisticadas da cadeia produtiva.

A questão central para o Brasil  não reside apenas na exploração de reservas minerais, mas na capacidade de transformá-las em instrumentos de desenvolvimento tecnológico, competitividade industrial e autonomia econômica . Diferentemente de economias cuja principal preocupação consiste em garantir acesso a minerais críticos, o desafio brasileiro envolve definir se suas reservas serão incorporadas às estratégias produtivas de outras potências ou se poderão sustentar uma estratégia nacional própria de inserção internacional (OutrasPalavras, 2026).

A recente discussão em torno da criação da TerraBras, bem como o crescente interesse internacional sobre projetos brasileiros de terras raras, evidencia que minerais críticos passaram a integrar não apenas debates econômicos, mas também agendas relacionadas à soberania, segurança econômica e política industrial. Em maio de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil “não abre mão de sua soberania” (Agência Brasil, 2026) sobre minerais críticos e terras raras, defendendo que a exploração desses recursos esteja vinculada à agregação de valor e à industrialização em território nacional.

Em um cenário marcado pela reorganização das cadeias globais de suprimento e pela intensificação da competição geoeconômica entre grandes potências, o domínio das etapas de maior valor agregado da cadeia produtiva torna-se elemento central da disputa por poder no sistema internacional.

Assim, o caso brasileiro demonstra que o desafio contemporâneo não se restringe à exploração de recursos naturais, mas envolve a capacidade de converter esse potencial mineral (Ministério de Minas e Energia, 2025), em vantagem competitiva internacional. Retornando à Gilpin, a inserção internacional dos Estados depende menos da disponibilidade isolada de recursos e mais da capacidade nacional de controlar setores considerados essenciais para a competitividade e para a projeção de poder no sistema internacional.

Referências:

CRUZ, Elaine Patrícia. “Terras raras: “Brasil não abre mão de sua soberania”, diz Lula”. Agência Brasil, 18 mai. 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-05/terras-raras-brasil-nao-abre-mao-de-sua-soberania-diz-lula. Acesso em: 18 maio 2026.

GILPIN, Robert. A Economia Política Internacional das Relações Internacionais. Tradução de Sérgio Bath – Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2002. 492 p.

GILPIN, Robert. Global Political Economy: Understanding the International Economic Order. Princeton: Princeton University Press, 2001.

GILPIN, Robert. War and Change in World Politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1981.

GUIMARÃES, Arthur Oscar. “Não vamos entregar nossas terras raras”. Jornal GGN, 28 abr. 2026. Disponível em: https://jornalggn.com.br/artigos/nao-vamos-entregar-nossas-terras-raras-por-arthur-guimaraes/. Acesso em: 14 maio 2026.

HUANG, Xiaobing; XIE, Jiawei. From resources to value: China’s shifting position in the global value chain of rare earth. Journal of Cleaner Production, 2025. v.518.

KIM, Tae-Yoon et al. With new export controls on critical minerals, supply concentration risks become reality.International Energy Agency. 23 out. 2025. Disponível em: https://www.iea.org/commentaries/with-new-export-controls-on-critical-minerals-supply-concentration-risks-become-reality. Acesso em: 15 mai 2026.

Minerais Críticos e Estratégicos no Brasil : Um Passaporte para o Futuro. E-book. Organizador; Instituto Brasileiro de Mineração. 1 ed. – Brasília: IBRAM 2025. 268p. : il.

SILVA, Edna Aparecida da. “Terras Raras: O Brasil e a vocação colonial”. OutrasPalavras, 24 abr. 2026. Disponível em: https://outraspalavras.net/crise-brasileira/terras-raras-o-brasil-e-a-vocacao-colonial/. Acesso em: 14 maio 2026.

U.S. Geological Survey, 2025, Mineral commodity summaries 2025 (ver. 1.2, March 2025): U.S. Geological Survey, 212 p., https://doi.org/10.3133/mcs2025.