
Thais Vitória Borges – Internacionalista
O chamado debate inter-paradigmático das Relações Internacionais tornou propício a entrada de novos pensamentos e questionamentos até então não investigados pela disciplina, como os Estudos de Gênero, pós-modernismo e o pós-colonialismo. Neste mesmo contexto outro trabalho se desenvolvia na América Latina e Caribe, dessa vez voltada para discutir as relações econômicas e o desenvolvimento da região.
A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) surgiu no período pós Segunda Guerra Mundial pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (ECOSOC), e teve sua criação justificada pela necessidade de acompanhar e avaliar políticas direcionadas ao desenvolvimento econômico da região; assim como fomentar o fortalecimento das relações econômicas entre os países da região e destes com outras economias no cenário internacional (Da Silva Gonçalves, 2015, p. 115-116).
Segundo Da Silva Gonçalves (Ibid, p. 116), o surgimento da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe representou uma ruptura com a noção cristalizada de que a periferia seria incapaz de refletir criticamente sobre a própria realidade e, menos ainda, de formular políticas alternativas para enfrentar seus desafios estruturais. Tendo este contexto em vista, a CEPAL constituiu-se como uma escola de pensamento dedicada à análise das tendências econômicas e sociais dos países latino-americanos e caribenhos, elaborando formulações teóricas cujos efeitos repercutiram de modo significativo nas esferas econômica, social e política dessas sociedades.
Dentre os pensadores que contribuíram para o pensamento cepalino, Raúl Prebisch é colocado como um dos principais expoentes. Prebisch foi um economista argentino que exerceu diversos cargos de natureza executiva ao longo de sua trajetória, tanto no âmbito do Estado argentino quanto em organismos internacionais. Essa experiência profissional proporcionou-lhe um conhecimento aprofundado do funcionamento da economia mundial, contribuindo para o desenvolvimento de uma reflexão crítica acerca da realidade latino-americana e de seus principais problemas estruturais (Moraes, 2024).
Em sua principal obra, O desenvolvimento econômico da América Latina e alguns de seus problemas principais (Prebisch, 2000), o autor analisa o desenvolvimento econômico da América Latina a partir da dualidade entre centro e periferia, perspectiva pela qual contesta os pressupostos da teoria clássica da divisão internacional do trabalho. Segundo o autor, os benefícios do progresso técnico tendem a concentrar-se de forma desproporcional nos países centrais industrializados, em prejuízo das economias periféricas especializadas na produção de matérias-primas (Ibid, 2000, p. 87).
Aprofundando a noção de centro–periferia formulada pelo autor, esta se refere aos papéis estruturalmente desiguais atribuídos aos países no sistema econômico mundial. À América Latina, enquanto parte da periferia, coube a função de produtora de alimentos e matérias-primas destinadas aos grandes centros industriais. Tal dinâmica se sustentada por pressupostos problemáticos, como a ideia de uma distribuição homogênea do progresso técnico entre as economias globais, além de se manifestar por meio de mecanismos como a “assimetria dos ciclos econômicos” — as fases de alta e baixa da economia que afetam recorrentemente a periferia de maneira desproporcional —, e a rigidez salarial, que contribui para a perpetuação dessas desigualdades.
O que Prebisch propõe como forma de ultrapassar este impasse é uma mudança no modelo vigente de desenvolvimento da América Latina, este deve romper com o esquema tradicional da divisão internacional do trabalho e defender uma estratégia de crescimento “para dentro”, assentada prioritariamente no processo de industrialização. Para o autor, a industrialização não constitui um fim em si mesma, mas é na verdade, o principal meio pelo qual os países periféricos podem apropriar-se de uma parcela dos frutos do progresso técnico e, consequentemente, elevar o padrão de vida de suas populações.
Ademais, Prebisch argumenta que o progresso técnico não se difunde espontaneamente por meio da redução de preços no comércio internacional, razão pela qual a periferia necessita construir sua própria base industrial a fim de reter os ganhos de produtividade que, de outro modo, seriam sistematicamente transferidos aos centros. A obra conclui com um chamado à autonomia intelectual e técnica, ao sustentar que o avanço econômico da América Latina depende da capacidade da região de interpretar criticamente sua própria realidade econômica e de planejar, de forma deliberada, seu processo de desenvolvimento.
Em conclusão, diante das movimentações do sistema internacional, com maior protagonismo dos países do Sul Global, os trabalhos desenvolvidos pelos pensadores cepalinos oferecem uma gama de saberes para repensar e questionar o papel dado aos países da América Latina no sistema internacional. Não apenas, mas também são essenciais para projetar e guiar a região para novos futuros que estão para além daqueles que foram impostas à ela.
REFERÊNCIAS
CASTRO, Thales.Teoria das relações internacionais. Brasília: FUNAG, 2016.
DA SILVA GONÇALVES, Renata. A CEPAL dos anos 50 e sua influência no pensamento político brasileiro. **Pensamento Plural**, n. 15, p. 115-131, 2015.
MORAES, Mayara da Mata. Raúl Prebisch: história e pensamento do intelectual da CEPAL. Politize!, 25 abr. 2024. Disponível em: https://www.politize.com.br/cepal/. Acesso em: 23 mai. 2026
PREBISCH, Raúl. O desenvolvimento econômico da América Latina e alguns de seus problemas principais. 2000.
