Caira Queiroz, acadêmica do 7° semestre de Relações Internacionais

Conhecido como um ícone da animação não apenas no Japão, mas em todo o mundo, Hayao Miyazaki é um dos principais responsáveis pela valorização do anime como forma de arte e crítica social. Diretor, roteirista, ilustrador e cofundador da Studio Ghibli, por trás de seus característicos óculos arredondados, Miyazaki construiu uma carreira marcada por narrativas poéticas, personagens femininas fortes, críticas à guerra, ao consumismo e à destruição ambiental, marcando gerações ao redor do mundo (Versatille, 2021).

Nascido em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, na cidade de Tóquio, Hayao Miyazaki teve sua infância profundamente marcada pelo contexto bélico japonês e pelos constantes deslocamentos causados pelos bombardeios militares. Estas experiências moldaram sua percepção artística ao observar a forma como as pessoas tentavam sobreviver em situações desesperadoras. Posteriormente, tais vivências seriam refletidas em muitos de seus filmes, especialmente nas críticas à violência, ao militarismo e à destruição provocada pela guerra (Oliveira, 2024).

As influências dos pais também tiveram um papel fundamental na formação artística de Hayao Miyazaki. Seu pai, Katsuji Miyazaki, era diretor de uma empresa de aeronáutica responsável pela fabricação de peças para aviões militares durante a Segunda Guerra Mundial, fator que despertou em Miyazaki uma profunda fascinação pela aviação, aparentemente refletida em diversas de suas obras, especialmente em “Porco Rosso” e “Vidas ao Vento”, embora este último seja oficialmente inspirado na trajetória de Jiro Horikoshi (Lambie, 2014). 

Ao mesmo tempo, sua mãe, Dola Miyazaki, marcou profundamente sua visão sobre força feminina e resistência após enfrentar uma longa luta contra a tuberculose vertebral e por sua resiliência em desafiar padrões conservadores da sociedade japonesa. Muitos elementos desta memória são remetidos a “Meu Amigo Totoro”, especialmente na representação da mãe das protagonistas, internada devido a problemas de saúde, como uma homenagem afetiva à sua própria mãe (Oliveira, 2024).

Durante a infância, Miyazaki sonhava ser artista de mangás, mesmo enfrentando dificuldades para desenhar figuras humanas. Com isso, por muitos anos, concentrou-se em ilustrar aviões, tanques e navios de guerra devido ao reflexo de sua influência paterna. Anos depois, ingressou na Universidade Gakushuin, onde se tornou membro do Clube de Pesquisa de Literatura Infantil, mas seu foco acadêmico não foi diretamente artístico naquele momento, pois se formou em ciência política e economia (Studio Ghibli, s.d.).

Em 1963, Miyazaki ingressou no estúdio Toei Animation, uma das principais produtoras de animação do Japão, já como animador. Seu primeiro trabalho na empresa foi no longa-metragem Doggie March, e no mesmo ano já participou de outras produções, começando a desenvolver seu estilo artístico, caracterizado por cenários detalhados, movimento fluido e por demonstrar sua criatividade nas ideias de mudanças significativas no enredo (Studio Ghibli, s.d.). Durante este período, aproximou-se de colaboradores importantes, como Isao Takahata, parceria que seria fundamental para a criação do Studio Ghibli anos depois, de sua futura esposa Akemi Ota, com quem teria 2 filhos (Oliveira, 2024). 

A primeira grande oportunidade criativa de Miyazaki surgiu com o filme “Horus: O Príncipe do Sol“, dirigido por Isao Takahata (Arquive, s.d.). Na produção, Miyazaki trabalhou como animador-chefe, artista conceitual e responsável pelo design de cenas, dando início a uma das parcerias mais importantes da animação japonesa. Apesar de não alcançar sucesso comercial em seu lançamento, o filme foi posteriormente reconhecido como uma obra revolucionária pela narrativa diferenciada e pelas inovações visuais apresentadas (Studio Ghibli, s.d.). Em paralelo ao trabalho na animação, vale pontuar que Hayao Miyazaki também explorava os mangás como meio de expressão, mas há anos não trabalha diretamente com HQs. Escreveu e ilustrou “People of the Desert”, publicado entre 1969 e 1970 na revista Shonen Shojo Shinbun, obra influenciada pelas histórias de aventura de Tetsuji Fukushima (MangaDex, s.d.). 

Nesse mesmo período, Miyazaki atuou como animador principal em “Puss in Boots”, além de produzir uma adaptação em mangá promocional publicada no Tokyo Shimbun. Também participou da criação de storyboards e sequências de animação para Flying Phantom Ship, já demonstrando críticas sociais e políticas que futuramente marcariam sua identidade autoral. Em 1971, colaborou no desenvolvimento visual e narrativo de Animal Treasure Island, consolidando sua versatilidade entre o cinema de animação e o universo dos mangás (Studio Ghibli, s.d.).

Em 1971, Miyazaki e Isao Takahana deixaram a Toei Animation  e juntaram-se à A Production para trabalhar ao lado de Isao Takahata na direção de 23 episódios da série “Lupin III”, dando uma nova abordagem ao estilo da animação e dos personagens. Esta obra é a estreia de Miyazaki na direção de longas-metragens e faz parte da franquia de mangá japonesa “Lupin III” (Sun, 2023). Mas foi com a obra “Nausicaä do Vale do Vento”, que começou como uma tira de mangá mensal da revista Animage, que Miyazaki marcou seu primeiro filme autoral, sendo recorde de bilheteria, aclamado pelo incrível trabalho da riqueza em detalhes, toda feita à mão  (Versatille, 2021). 

Movidos pelo desejo de produzir animações autorais e de alta qualidade, e após o sucesso de “Nausicaä do Vale do Vento”, Hayao Miyazaki e Isao Takahata, junto ao produtor Toshio Suzuki, decidiram fundar um estúdio próprio: o Studio Ghibli. Este passo revolucionou a animação japonesa com filmes marcados pela profundidade narrativa, sensibilidade artística e forte identidade visual nos traços e detalhes. O crescimento do Ghibli se consolidou com obras como “O Castelo no Céu“, primeiro lançamento nos cinemas japoneses em 1986, e “Meu Amigo Totoro“, primeiro fenômeno de mercadorias para o estúdio, que transformaram a empresa em uma referência mundial da animação (Japão Real, 2022). 

Porém, até então, o padrão dos estúdios de animação japoneses era não contratar, o valor pago a equipe temporária era baixo e eles trabalhavam em um andar de prédio alugado, assim o Studio ainda não tinha funcionários. Este estágio colaborou para a mudança na indústria, já que o Studio Ghibli, por decisão de Hayao, passou a ter funcionários fixos com um salário que dobraria todos os anos, equiparado entre homens e mulheres (Japão Real, 2022).

Miyazaki escreveu, desenhou e dirigiu a maioria dos filmes Ghibli, ganhando destaque como o principal animador do estúdio. Alguns dos principais hits de bilheteria da empresa foram o clássico “O Serviço de Entregas da Kiki”, atraindo mais de 2 milhões de pessoas aos cinemas e “A Viagem de Chihiro”, lançamento estes que alcançaram um novo patamar de reconhecimento do Miyazaki e Studio Ghibli (Oliveira, 2024).

Em 2003, “A Viagem de Chihiro” ganhou vários prêmios, incluindo o Oscar na categoria “Melhor Animação”. Mesmo com a estonteante premiação, Miyazaki não compareceu à cerimônia em protesto contra a guerra do Iraque e os Estados Unidos. Após este reconhecimento internacional, ele seguiu com outros grandes sucessos, como “Castelo Animado” em 2004, que também concorreu ao Oscar em 2006, mas não ganhou a premiação, e seu projeto foi “Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar“, sendo a maior bilheteria do Japão em 2008 (Oliveira, 2024).

Entre tantas outras produções posteriores, seu último trabalho foi, até então, “O Menino e a Garça“, um conto semi-autobiográfico desenhado à mão, o que surpreendeu a todos, já que o ícone do anime não é conhecido por ser tão pessoal. Mas após a morte de Takahata em 2018, Miyazaki não conseguiu continuar com a narrativa inicialmente planejada, levando ao redirecionamento no foco do filme para a relação entre o garoto e a garça (Anime Dicria, 2024).

Nesse sentido, a trajetória e as obras de Hayao Miyazaki podem ser relacionadas à Teoria Crítica, especialmente às reflexões da Escola de Frankfurt, por Herbert Marcuse, na crítica à racionalidade tecnológica e ao modelo industrial moderno (2015). A partir de suas vivências durante a Segunda Guerra Mundial e da forma como essas experiências moldaram sua formação artística, Miyazaki desenvolveu uma visão crítica sobre guerra, industrialização e destruição ambiental, temas constantemente presentes em suas obras. 

Assim, mais do que apenas criar filmes de fantasia, o diretor utiliza a animação como forma de refletir sobre as contradições da modernidade, questionando o militarismo, o consumismo e os impactos desumanizantes do progresso tecnológico. Assim como Marcuse (2015) compreendia a arte como forma de resistência à lógica dominante da sociedade industrial, Miyazaki utiliza a animação como instrumento de crítica social e valorização da sensibilidade humana, pela sensibilidade de quem cresceu em meio a guerras. 

Portanto, Hayao Miyazaki revolucionou a animação ao provar que desenhos animados podem abordar temas filosóficos, políticos e existenciais sem perder a sensibilidade poética. Seu trabalho influenciou não apenas a indústria japonesa, mas também grandes estúdios internacionais, incluindo a Pixar e cineastas como Guillermo del Toro. Hoje, Miyazaki é reconhecido como um dos maiores diretores da história do cinema, sendo símbolo de uma arte que combina imaginação, crítica social e sensibilidade humana.

REFERÊNCIAS

ANIME DICRIA. O Menino e a Garça: a vida de Miyazaki na tela. Disponível em: https://www.animedicria.com.br/post/o-menino-e-a-gar%C3%A7a-a-vida-de-miyazaki-na-tela. Acesso em: 24 maio 2026. 

GHIBLI WIKI. Hayao Miyazaki. Disponível em: https://ghibli.fandom.com/wiki/Hayao_Miyazaki . Acesso em: 26 maio 2026.

INTERNET ARCHIVE. Horus: O Príncipe do Sol (1968) – legendado. Disponível em: https://archive.org/details/horus-o-principe-do-sol-1968-legendado. Acesso em: 23 maio 2026. 

JAPÃO REAL. Studio Ghibli: conheça a história e origem. Japão Real, 2022. Disponível em: https://japaoreal.com/2022/12/15/studio-ghibli-conheca-a-historia-e-origem/. Acesso em: 25 maio 2026. 

LAMBIE, Ryan. The Wind Rises: Hayao Miyazaki’s final masterpiece. Den of geek, 2014. Disponível em: https://www.denofgeek.com/movies/the-wind-rises-hayao-miyazaki-s-final-masterpiece/. Acesso em: 23 maio 2026.

MARCUSE, Herbert. O Homem Unidimensional: estudos da ideologia da sociedade industrial avançada. Tradução de Robespierre de Oliveira, Deborah Christina Antunes e Rafael Cordeiro Silva. São Paulo: Edipro, 2015. 

MANGADEX. Saburō Akitsu / People of the Desert. Disponível em: https://mangadex.org/title/5b585d5a-95ce-427e-bd02-054cab289bdc. Acesso em: 24 maio 2026.

OLIVEIRA, Matheus. Hayao Miyazaki | A trajetória do maior artista do Studio Ghibli. O vício, 2024. Disponível em: https://ovicio.com.br/hayao-miyazaki-a-trajetoria-do-maior-artista-do-studio-ghibli/. Acesso em 21 de maio de 2026.

STUDIO GHIBLI BRASIL. Hayao Miyazaki. Studio Ghibli Brasil, s.d. Disponível em: https://studioghibli.com.br/hayao-miyazaki/. Acesso em: 23 maio 2026. 

SUN, Sophia. Every Film by Hayao Miyazaki: From Studio Ghibli and More Beloved Animation. Variety, 2023. Disponível em: https://variety.com/lists/studio-ghibli-movies-hayao-miyazaki/lupin-the-third-the-castle-of-cagliostro-1979/. Acesso em: 24 maio 2026. 

VERSATILLE. Conheça Hayao Miyazaki e o “mundo mágico” em sua filmografia. Versatille, 2021. Disponível em: https://versatille.com/conheca-hayao-miyazaki-e-o-mundo-magico-em-sua-filmografia/. Acesso em 22 de maio de 2026.
UOL CULTURA. Onde estão os mangás do grande Hayao Miyazaki?. Disponível em:https://cultura.uol.com.br/noticias/colunas/habitodequadrinhos/192_onde-estao-os-mangas-do-grande-hayao-miyazaki.html Acesso em: 24 maio 2026.