
Lucas Zampollo, acadêmico do 5° semestre de Relações Internacionais
A crescente tensão e incerteza entre os povos ocasionam situações que vilipendiam a dignidade humana e o respeito ao próximo. Discursos de separação, competição nociva e estranhamento ou aversão àqueles que são considerados diferentes e perigosos fazem germinar as fagulhas do extremismo, da ignorância e da violência em nível mundial, como observado nas tensões internas na região do Levante, especialmente em Gaza e no sul do Líbano, bem como nas tensões internas no Irã, que serviram como justificativa para uma intervenção norte-americana e para o fechamento do Estreito de Ormuz, comprometendo as relações diplomáticas.
Neste cenário, a figura do Papa Leão XIV apresenta-se como uma alternativa aos discursos predominantes na atualidade, pois dedica constantemente tempo e energia ao combate das diferenças e dos conflitos, tanto internos quanto externos aos países.
Deste modo, torna-se necessário analisar quais são as falas de apaziguamento do Papa, bem como os desafios enfrentados e os efeitos provocados por tais pronunciamentos. Vale mencionar que, entre os teóricos idealistas das relações internacionais, a religião como forma de mediação de litígios e conflitos não constitui uma prerrogativa exclusiva de Leão XIV, tampouco uma ideia recente.
Charles-Irénée Castel, conhecido como Abade de Saint-Pierre, escreveu sua principal obra, Projeto para Tornar Perpétua a Paz na Europa, partindo da ideia de que, se o continente em questão se unisse por meio da religião predominante — neste caso, o cristianismo —, seria possível criar uma confederação europeia que renunciasse à violência, promovesse a defesa coletiva e buscasse a felicidade pública (CASTEL, 1713).
Os discursos papais, apesar de não se restringirem ao cristianismo na Europa, abraçam a ideia de que o diálogo entre culturas constitui a chave para que todos os povos do globo condenem a violência e passem a viver em um contexto de ajuda e solidariedade mútua, reforçando e ampliando, portanto, as teses anteriormente defendidas pelo Abade.
Embora seus discursos sejam amplamente considerados eficazes e democráticos — como, por exemplo, ao reforçar a união entre cristãos e muçulmanos em prol da paz na Argélia, em abril de 2026 (VATICAN NEWS, 2026) —, durante sua visita aos Camarões, entre os dias 15 e 18 de abril do mesmo ano, um grupo separatista declarou uma trégua no conflito local em razão da presença do pontífice no país (VATICAN NEWS, 2026).
A figura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, insiste em questionar e descredibilizar o Papa e suas ações, chegando inclusive a divulgar uma imagem gerada por inteligência artificial na qual se apresenta como uma figura messiânica. Tal ação gerou divergências entre seus apoiadores, sendo que muitos católicos manifestaram oposição ao ocorrido, o que levou Trump a remover posteriormente a imagem polêmica (FRANCE 24, 2026).
No entanto, do ponto de vista prático, as ações de Leão XIV demonstram resultados mais efetivos do que as de Trump, que aparenta nutrir certo descontentamento por não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz após alegar ter contribuído para a resolução do conflito em Gaza. Contudo, os acontecimentos recentes, como a continuidade da violência, a devastação do sistema de saúde e as dificuldades impostas por Israel às ONGs que buscam alternativas para a resolução do conflito (UOL, 2026), demonstram que a situação na região permanece calamitosa.
Além disso, o presidente encontra-se em uma postura belicosa em relação ao Irã, contribuindo para o agravamento da destruição e das mortes; em contrapartida, Leão XIV apresenta-se como uma das vozes mediadoras mais proeminentes e comprometidas com a promoção do diálogo, condenando as ameaças sofridas pela população iraniana em decorrência dos ataques direcionados ao povo e à infraestrutura civil, ações classificadas pelo Papa como ilegítimas, tanto por parte do governo iraniano quanto em razão do fogo cruzado entre os países (CNN, 2026; VATICAN NEWS, 2026).
Retomando a perspectiva teórica das relações internacionais, o teórico crítico Andrew Linklater converge com os princípios de empatia defendidos pelo Papa, especialmente no que se refere ao acolhimento e à proteção dos necessitados. Sua abordagem sustenta amplamente os direitos dos refugiados e a criação de mecanismos de assistência aos grupos mais vulneráveis, demandando cooperação tanto da sociedade quanto da comunidade internacional para garantir o bem-estar dessas populações (LINKLATER, 1998). Evidencia-se, portanto, que, embora não se trate de uma perspectiva religiosa, tal concepção aproxima o internacionalista e o Papa Leão XIV em uma visão fundamentada no humanismo e no cuidado com o próximo.
Em suma, diante de tudo o que foi exposto, é possível concluir que os discursos do pontífice sobre paz e entendimento entre os povos mostram-se mais concretos e eficazes nos tempos recentes do que ações exageradas ou pouco calculadas de figuras públicas e políticas que, embora teoricamente detenham maior poder, promovem conflitos em busca de mudanças rápidas que favoreçam seus próprios interesses e que, na prática, pouco contribuem para o progresso das relações interpessoais.
Essas ações, marcadas pelo inumanismo e encampadas por chefes de Estado autocráticos, não se mostram capazes de incentivar uma transformação pacífica e gradual no cenário internacional. Em contrapartida, o Papa Leão XIV apresenta resultados considerados mais benéficos e realistas, como, por exemplo, contribuir para acalmar cidadãos que, em meio a contextos de instabilidade, podem apresentar maior propensão a decisões precipitadas. Por meio de suas palavras e ações, o pontífice possibilita que esses indivíduos enxerguem outras perspectivas para a resolução de conflitos, para além da alternativa bélica.
Além disso, tais efeitos apresentam potencial de longa duração e podem consolidar-se como modelos de cooperação para outros povos e líderes, religiosos ou não, que verdadeiramente busquem construir um mundo no qual o respeito mútuo e a superação das guerras constituam prioridades humanas.
Referências:
CASTEL, Charles-Irénée. Projeto para Tornar Perpétua a Paz na Europa. Ano de Publicação: 1713. Acesso em: 08/05/2026.
CNN. Papa critica regime iraniano por mortes, mas reafirma não apoiar guerra. Disponível:
FRANCE 24. Trump deletes image of himself as Jesus as feud with pope dismays US Catholics. Disponível:
https://www.france24.com/en/americas/20260414-trump-deletes-image-of-himself-as
-jesus-as-feud-with-pope-dismays-us-catholics. Acesso: 08/05/2026.
LINKLATER, Andrew. The Transformation of Political Community: Ethical Foundations of the Post-Westphalian Era. Ano de Publicação: 1998. Acesso em: 09/05/2026.
UOL. A situação humanitária em Gaza continua catastrófica, alertam ONGs. Disponível:
VATICAN NEWS. Camarões: Separatistas anunciam uma trégua por ocasião da visita do Papa. Disponível.
