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Gabriele Nascimento Ribeiro (acadêmica do 5° semestre de R.I da Unama) e Valentina Medeiros Rosas Samuelsson (acadêmica do 1° semestre de R.I da Unama)

A Amazônia, enquanto espaço de grande diversidade sociocultural e ambiental, tem sido historicamente atravessada por dinâmicas de exploração e conflitos territoriais que impactam diretamente as populações tradicionais. Nesse contexto, as mulheres indígenas e ribeirinhas atuam como protagonistas de processos de resistência, articulando conhecimentos ancestrais, práticas comunitárias e estratégias políticas de defesa do território.

Diante disso, é importante analisar o papel das lideranças femininas amazônicas na construção de formas alternativas de existência e resistência, destacando o conceito de “corpo-território” como chave interpretativa para compreender a relação inerente entre corpo, identidade e espaço.

Assim, é necessário evidenciar como essas mulheres não apenas enfrentam estruturas de poder marcadas pela colonialidade e pelo patriarcado, mas também reconfiguram as formas de pensar e defender o território na Amazônia contemporânea.

A realidade amazônica é marcada por uma grande diversidade cultural, porém a expansão de atividades exploratórias, como mineração, agropecuária, monocultivo de soja e exploração de petróleo, tem imposto disputas por territórios, violência contra populações tradicionais e destruição ambiental. Paralelamente, mulheres indígenas e ribeirinhas surgem como eixos de resistência a esses processos, ocupando posições de liderança que desestabilizam discursos hegemônicos e patriarcais.

Em um cenário atual exploratório e de crises, os corpos femininos são os primeiros a serem afetados. Por isso, a defesa de um território não se trata isoladamente de uma “questão ambiental”, mas sim uma condição da própria para a existência física e cultural das mulheres amazônidas.

Diante desse contexto, urge a necessidade de tratar sobre o conceito de “corpo-território” ou “corpoterritorialização”. Segundo Barboza, Duarte e Xamen (2019), ideia propõe uma reflexibilidade da subjetividade entre o corpo da mulher indígena e seu espaço de (re)existência.

a territorialização indígena [que] se constitui como um processo Corporal onde corpos e fluidos femininos contagiam, direcionam e Regulam a interação indígena com e entre o território, e seus Constituintes (Barboza; Duarte; Xamen, 2019, p. 507).

Dessa forma, o conceito de “corpo-território” rompe a lógica de “Colonialidade do poder”, exercida pelo poder colonial, apresentado pelo teórico Aníbal Quijano, em seu artigo “Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina”, na medida em que corpo é entendido como espaço político de resistência dentro de comunidades e não como algo passivo a dominação.

Aníbal Quijano (2005), sustenta em seu artigo “Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina”, que o eurocentrismo buscou manter o seu poder através de relações intersubjetivas entre europeus e as demais regiões do mundo, como por intermédio de repressão de seus padrões de produção de sentidos, seu universo simbólico, seus padrões de expressão e de objetivação da subjetividade.

Nesse sentido, o corpo feminino se constitui como parte do território, corpos que refletem sobre a sua realidade a partir de uma rede coletiva de experiências. De acordo com Santos e Ferreira (2022), ao falar de Corpo-Território, reivindica-se um lugar específico até então negado ao agente mulher indígena, tanto no âmbito político, epistemológico quanto no territorial.

Puyr Tembé (2024), primeira Secretária de Estado dos Povos Indígenas do Pará, sintetiza que debater sobre valorização da vida, da conscientização ambiental e sobre a floresta viva está diretamente relacionado ao feminino, visto que, segundo a Secretária: “As mulheres carregam isso historicamente porque entendemos o valor da vida, o valor da terra e do território. A terra para nós é a mãe terra. Ela é quem cuida de nós. Ela é quem nos alimenta”. (Amazon Watch, 2024).

As mulheres ribeirinhas, também representam resistência territorial na Amazônia. Por mais que estejam inseridas em uma sociedade patriarcal que marginaliza suas vozes e em um contexto de invisibilidade social, dentro de suas comunidades desempenham um papel imprescindível.

[…] é possível afirmar que na cultura cabocla ribeirinha, as mulheres se constituem elemento chave como detentoras de um conhecimento especifico, ao mesmo tempo em que sustentam a forma de organização familiar e comunitária, não só no âmbito do saber-fazer, mas, sobretudo de preservação da cultura imaterial existente nestes contextos, tendo em vista que são elas as guardiãs e principais responsáveis pela transmissão e/ou ensino destes conhecimentos/saberes par as gerações presentes e futuras […]. (RODRIGUES et al., 2015).

Nesse sentido, preservar saberes e transmitir conhecimentos, também se traduz na preservação territorial, visto que conecta gerações com saberes ancestrais, os quais moldam a estrutura social dessas comunidades e garantem o uso consciente dos recursos naturais. Assim, defender a memória tradicional é também proteger o local onde ela se manifesta, assegurando a autonomia e a continuidade tradicional de existência.

Além disso, é válido destacar a importância da atuação de lideranças de povos tradicionais em conferências internacionais, como a Conferência das Partes, onde, após de anos de lutas, elas podem protagonizar debates, cobrar políticas públicas e apresentar as reivindicações de suas comunidades, a exemplo a atuação durante a COP30 de Joziléia Kaingang, Diretora da Associação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA) e de Sônia Guajajara, ex-ministra dos Povos Indígenas.

Diante disso, torna-se evidente que as mulheres indígenas e ribeirinhas desempenham um papel central na defesa dos territórios amazônicos, organizando resistência política, preservação cultural e proteção ambiental de maneira integrada. Ao reivindicarem o conceito de corpo-território, essas lideranças desafiam as lógicas da colonialidade do poder e reafirmam a inseparabilidade entre a vida, o corpo e a terra.

Além disso, suas atuações, tanto no âmbito local quanto em espaços internacionais, revelam uma crescente visibilidade e protagonismo, ainda que persistam desafios estruturais relacionados à desigualdade de gênero e à marginalização histórica. Assim, reconhecer e fortalecer essas lideranças não é apenas uma questão de justiça social, mas também uma condição fundamental para a construção de alternativas sustentáveis para o futuro da Amazônia.

Para aprofundar a compreensão sobre o tema do texto, indica-se o filme “Amazônia Sociedade Anônima” (Prime Video) que aborda os impactos da exploração econômica na floresta e nas populações tradicionais, evidenciando as disputas territoriais.

Ademais sugere-se acompanhar o trabalho e a atuação de organizações como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, que é fundamental na defesa dos direitos territoriais e no fortalecimento das lideranças indígenas, incluindo mulheres.

Site: < https://apiboficial.org/en/ >Instagram: < https://www.instagram.com/apiboficial?igsh=ZnNxb3plZ2U0ZWF3 >

Por fim, projetos como o Projeto Saúde e Alegria atuam diretamente em comunidades ribeirinhas, promovendo desenvolvimento sustentável e valorização dos saberes locais. Iniciativas voltadas ao protagonismo feminino, como redes de mulheres indígenas e coletivos comunitários, também são essenciais para fortalecer a autonomia, a transmissão de conhecimentos e a resistência territorial.

Site: < https://saudeealegria.org.br/ >Instagram: < https://www.instagram.com/saudeealegria?igsh=MXZ2OHp4ZzByYzFkYQ== >YouTube: < https://youtube.com/@projetosaudeealegria?si=sScVtsszZ5RsS5FB >

REFERÊNCIAS:

AMAZON WATCH. Mulheres Indígenas Incorporam Liderança, Resistência e Resiliência. Publicado em: 27 mar. 2024. Disponível em: < https://amazonwatch.org/pt/news/2024/0327-indigenous-women-embody-leadership-resistance-and-resilience >. Acesso em: 18 de maio 2026.

BARBOZA, Myrian Sá Leitão; DUARTE, Larissa Ye’padiho [Tukano]; XAMEN [Waiwai], Jaime. “Corpoterritorialização” Katukina: Lampejos etnográficos sob as perspectivas Femininas indígenas. Amazônica: Revista de Antropologia, Belém, v. 11, n. 2, p. 503-547, 2019. Acesso em 17 de maio de 2026.

Quijano, Anibal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. Em libro: A Colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Edgardo Lander (org). Colección Sur Sur, CLACSO, Ciudad Autónoma de Buenos Aires, Argentina. Setembro 2005. Pp.227-278.

RODRIGUES, Débora Cristina Bandeira; ANDRADE, Natália Teixeira; SILVA, Thamirys Souza e; NASCIMENTO, Camila Fernanda Pinheiro do. Organização e trabalho das mulheres ribeirinhas amazônicas: um estudo de caso nas comunidades de Santa Luzia e São Lázaro no Grande Lago de Manacapuru/AM. Revista Retratos de Assentamentos, v. 18, n. 1, p. 113-134, 2015. Disponível em: https://retratosdeassentamentos.com/index.php/retratos/article/view/184. Acesso em: 17 de maio de 2026.

SANTOS, Fabiane Vinente dos; FERREIRA, Maria Assunta Pedrosa. O corpo-território: feminismos decoloniais, saúde e estratégias dos movimentos de mulheres indígenas na Amazônia brasileira. [SYN]THESIS, Rio de Janeiro, v. 15, n. 1, p. 30-44, jan./abr. 2022. DOI: 10.12957/synthesis.2022.69285. Acesso em 17 de maio de 2026.