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Glauber Rodrigues e Tiago Callejon, respectivamente aluno do 1° semestre de Relações Internacionais e Internacionalista formado pela UNAMA.
Pode-se afirmar que o ano de 2026 é um dos momentos mais aguardados por muitos brasileiros apaixonados por futebol, uma vez que a seleção canarinho terá a oportunidade de conquistar o seu sexto título mundial e ampliar ainda mais sua hegemonia histórica das Copas do Mundo, podendo se tornar a primeira e única seleção hexacampeã do mundo, além de ser a única a participar de todas as edições da competição.
Mais do que um fenômeno esportivo, o futebol representa um importante símbolo da identidade nacional brasileira, além de atuar como instrumento de projeção internacional, fortemente associado ao sucesso da seleção brasileira e ao talento individual de jogadores históricos, como são os casos de Pelé, Mané Garrincha, Ronaldo Nazário, Ronaldinho Gaúcho, entre outros.
Tais fatores contribuíram para a construção de uma difusão cultural global e para o fortalecimento da imagem do Brasil e de sua seleção nacional no cenário internacional. O futebol chegou ao Brasil no final do século XIX e, em um curto período de tempo, se popularizou no país, deixando de ser uma atividade exclusivamente elitizada se tornando uma prática difundida entre diferentes camadas sociais (Franco Jr., 2007).
Entre as diferentes interpretações acerca da introdução do esporte no território brasileiro, se destaca a perspectiva que atribui este processo ao esportista brasileiro, Charles Miller. Filho de pai escocês e criado em São Paulo, Miller teve contato direto com a modalidade durante seus estudos na Inglaterra e, ao retornar ao Brasil em 1894, trouxe consigo bolas, uniformes e exemplares das regras oficiais do jogo (Pereira, 2000).
Mais do que introduzir materiais esportivos, Charles Miller desempenhou papel central na difusão e organização inicial do futebol no país, promovendo partidas, incentivando a prática entre grupos urbanos e contribuindo para a consolidação do esporte como uma atividade estruturada no contexto brasileiro (Franzini, 2003).
Inicialmente, o futebol era associado às elites urbanas e praticado por grupos aristocráticos, que viam a modalidade como um símbolo de distinção social (Filho, 2003). Entretanto, a simplicidade de suas regras, o baixo custo para sua prática e a possibilidade de adaptação a diferentes espaços favoreceram sua rápida disseminação entre as classes populares. Este processo de apropriação social transformou o futebol em um dos principais elementos constitutivos da identidade cultural brasileira (Franco Jr; Hilário, 2008).
A conquista da Copa do Mundo de 1958 não representou apenas o primeiro título mundial da Seleção Brasileira, mas também marcou o início da consolidação do Brasil como uma das principais potências do futebol internacional e contribuiu para a construção do esporte como instrumento de projeção externa do país.
Os antecedentes da competição foram marcados pela tentativa de superação do trauma do chamado Maracanazo, ocorrido na Copa do Mundo de 1950, quando a seleção brasileira sofreu uma derrota diante do Uruguai no Estádio do Maracanã, em um episódio que adquiriu forte significado simbólico para o imaginário nacional.
Com a conquista do mundial de 1958, o Brasil apresentou internacionalmente um estilo de jogo ofensivo e criativo, caracterizado pela valorização das habilidades técnicas individuais articuladas a um desempenho coletivo eficiente e dinâmico. O protagonismo exercido por Pelé, então com apenas 17 anos, e também por Mané Garrincha, contribuiu para consolidar internacionalmente a imagem do chamado “futebol-arte”, conceito frequentemente associado ao talento, à criatividade e à ofensividade atribuídas ao futebol brasileiro (Gil, 1997).
Dessa forma, a Seleção Brasileira passou a representar internacionalmente elementos associados à identidade cultural nacional, fortalecendo o futebol como instrumento de projeção simbólica e influência cultural brasileira.
Além do impacto esportivo, a conquista de 1958 dialogava diretamente com o contexto político e econômico vivido pelo país naquele período. Durante o governo de Juscelino Kubitschek, o Brasil atravessava um processo de modernização impulsionado pelo Plano de Metas, pela expansão industrial e pela construção de Brasília, elementos associados ao lema desenvolvimentista “50 anos em 5”. Neste cenário, o sucesso da Seleção reforçou internacionalmente a imagem de um país moderno, promissor e culturalmente relevante (Skidmore, 1982).
Após a conquista de 1958, o estilo ofensivo e criativo apresentado pela Seleção Brasileira contribuiu para ampliar ainda mais o interesse pelo futebol, processo que foi intensificado pela expansão dos meios de comunicação de massa, especialmente o rádio e, posteriormente, a televisão. Esta popularização ultrapassou as barreiras sociais existentes no país e permitiu que o esporte deixasse de ser predominantemente associado às elites, alcançando também as camadas populares (Agostinho, 2002).
Foi justamente por meio dessa capacidade do futebol de despertar sentimentos de pertencimento e identidade nacional que governos, tanto democráticos quanto autoritários, passaram a utilizar o esporte como instrumento de mobilização e influência social (Magalhães, 2013).
Com o regime militar instaurado no Brasil em 1964, o general Emílio Garrastazu Médici assumiu a presidência após o afastamento de Artur da Costa e Silva por motivos de saúde. Durante este período, o país enfrentou o aprofundamento da repressão política e o aumento das violações aos direitos humanos (Folha de São Paulo, 2019).
Médici era conhecido por seu interesse pelo futebol e, durante seu governo, o esporte passou a ocupar papel relevante na construção da imagem institucional do regime. Após as conquistas das Copas do Mundo de 1958 e 1962, a Copa de 1970 adquiriu forte valor simbólico para o governo, que buscava associar o sucesso esportivo à ideia de progresso e fortalecimento nacional atrelando tais aspectos ao regime militar que se fazia vigente na constituição do poder político do país.
O Brasil chegou ao ciclo da Copa de 1970 sob o comando do técnico João Saldanha, ex-jornalista e comentarista esportivo, responsável por conduzir a seleção durante as eliminatórias e garantir sua classificação para o torneio.
Entretanto, faltando poucos meses para o início da competição, Saldanha foi substituído no comando técnico. Sua saída deu origem a interpretações que relacionam o episódio ao contexto político do período, especialmente devido à sua atuação política e à sua proximidade com movimentos da esquerda, em um momento marcado pelo endurecimento do regime militar (El País, 2020).
A conquista do tricampeonato mundial foi alcançada por uma equipe comandada por Mário Zagallo o qual era composta por atletas como Pelé, Rivelino, Tostão, Jairzinho, Carlos Alberto Torres, o capita, e tantos outros futebolistas históricos e proeminentes, configurando a seleção de 1970, de forma potencial, como o melhor time e como a melhor seleção nacional de todos os tempos, não apenas em âmbito doméstico, por todo o histórico da amarelinha, mas também em âmbito internacional, conforme exposto por Bonfim (2026).
Nesse contexto, o governo buscou associar o êxito esportivo à construção de uma imagem de grandeza, desenvolvimento e prosperidade nacional. Para isso, órgãos como a Assessoria Especial de Relações Públicas (AERP) difundiram campanhas e slogans vinculados ao sentimento nacional, entre eles “Pra Frente, Brasil”, “Ninguém segura este país” e “Brasil: ame-o ou deixe-o” (Gaspari, 2002).
Para além das conquistas esportivas ao longo da história, o futebol consolidou-se como um dos principais símbolos culturais do Brasil, deixando de ser apenas uma modalidade esportiva para se tornar um elemento constitutivo da identidade nacional.
Sua presença se manifesta no cotidiano da população, nas expressões populares e na forma como o país passou a ser reconhecido internacionalmente. Neste sentido, a construção da ideia de brasilidade foi amplamente associada a características como alegria, criatividade, improvisação e habilidade, frequentemente representadas pelo chamado “futebol-arte”, conceito este já exposto (Helal, 1987).
Paralelamente, a inserção de jogadores brasileiros no cenário internacional e suas trajetórias de destaque em clubes europeus fortaleceram ainda mais a associação entre o Brasil e o futebol. O reconhecimento internacional desses atletas contribuiu para a difusão de elementos da cultura brasileira para além das fronteiras nacionais (Rial, 2008).
Sob essa perspectiva, o futebol atua como um mecanismo de projeção internacional e coesão uma vez que a admiração pelo estilo de jogo brasileiro e por seus jogadores colaborou para a construção de uma imagem positiva do país no exterior, se configurando também como uma importante ferramenta de coesão brasileira (Damatta, 1982).
Dessa maneira, o futebol manteve sua relevância não apenas como prática esportiva, mas também como um elemento simbólico associado à representação do Brasil no cenário internacional. A consolidação da imagem do país como uma das principais referências mundiais no esporte evidencia como o futebol se tornou um importante mecanismo de difusão da cultura brasileira, ao lado de manifestações como o samba, o carnaval e outras expressões artísticas e populares que compõem o imaginário e a identidade nacional (Damatta, 1982).
Nesse viés, faz-se mister trazer estas relações e construções identitárias do Brasil mediante ao futebol através dos arcabouços teóricos das Relações Internacionais, sobretudo por meio do conceito proposto pelo norte-americano, Joseph Nye, teórico pertencente à escola neoliberal, o qual forma, fundamenta e trabalha o conceito popularmente denominado de Soft Power.
O Soft Power é um conceito abordado por Nye, em sua obra Bound to Lead: The Changing Nature of American Power (1990) que, em linhas gerais, explica uma dinâmica de poder o qual os Estados podem utilizar para fomentar e solidificar a sua imagem e à sua posição no Sistema Internacional. Este poder se baseia na capacidade dos Estados em utilizarem os seus aspectos de atração e influência, e não por meio da coerção, como ocorre no Hard Power, onde um país utiliza a sua cultura, seus valores, suas identidades e sua legitimidade política para gerar uma capacidade de admiração dos outros países para si mesmo (Nye, 1990).
Outrossim, significa dizer, portanto, que na leitura do Soft Power em Nye, os Estados possuem a capacidade de influenciar outros Estados e organismos internacionais através destes aspectos imateriais, simbólicos e metafísicos, concedendo-lhes prestígios e admiração dos demais atores do Sistema.
Esse conceito dialoga perfeitamente com as perspectivas abordadas ao longo deste texto, pois, a exemplo, o sucesso histórico da Seleção Brasileira, aliado à consolidação internacional do chamado “futebol-arte”, permitiu ao Brasil construir uma imagem externa fortemente associada à criatividade, alegria, habilidade técnica e espontaneidade cultural. Essa percepção internacional positiva ultrapassou os limites do esporte e passou a integrar a própria identidade internacional do Estado brasileiro.
Sob a perspectiva de Nye, o futebol tornou-se um recurso estratégico de Soft Power porque ampliou a capacidade de atração simbólica do Brasil perante a sociedade internacional. Diferentemente do poder coercitivo, a influência brasileira ocorreu através da admiração global despertada por seus jogadores, pela estética de jogo da seleção e pelos elementos culturais associados ao país.
Essa lógica aproxima-se diretamente da interpretação neoliberal de que atores não estatais, cultura e fluxos transnacionais possuem papel relevante na política internacional. O neoliberalismo institucional rompe parcialmente com a centralidade exclusiva do poder militar defendida pelo realismo clássico, reconhecendo que elementos culturais e simbólicos também produzem influência internacional.
É justamente sob este viés que as proposições gerais trabalhadas pelos neoliberais, sobretudo em Nye (1990), que se observa a construção da identidade e do poder imaterial do país mediante ao futebol e à Seleção Brasileira, pois ambos se configuram como instrumentos e ferramentas eficazes para a construção destes aspectos imateriais ao Brasil, os quais lhe concederam prestígio, admiração e poder em caráter global.
A associação desses elementos culturais no âmbito internacional contribuiu para fortalecer a presença simbólica do Brasil no cenário global, ampliando sua capacidade de projeção cultural e seu reconhecimento internacional.
Em suma, o futebol pode ser compreendido como um instrumento de Soft Power, na medida em que favorece a circulação de valores, representações e referências culturais brasileiras para além das fronteiras nacionais (Gastaldo, 2002), perpassando por aspectos imateriais, metafísicos e de constituição ideológica do país, fortalecendo e solidificando a imagem do estado-nação, isto é, do Brasil, por meio do futebol.
Referências:
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