Danilo Rocha, acadêmico do 5° semestre de Relações Internacionais

A Copa do Mundo de 2026 representa um importante ponto na história do futebol. Além de ser a primeira edição da copa com 48 seleções que participarão, o evento, de forma inédita, será realizado de forma conjunta por três países sede, a saber: EUA, Canadá e México. Essas características fazem desta competição um fenômeno que facilmente ultrapassa o âmbito esportivo, e escorre para aspectos políticos, econômicos e diplomáticos.

Nesse contexto, as Relações Internacionais fornecem ferramentas teóricas para entender como eventos de prática desportiva podem ser utilizados pelos Estados como ferramenta para fortalecerem sua imagem, aceitação e influência no cenário internacional. Desta forma, o presente artigo busca analisar a Copa do mundo de 2026 à luz da teoria do soft Power, desenvolvida por Joseph Nye. (NYE, 2004).

O conceito mencionado anteriormente foi desenvolvido para explicar formas de projeções de poder que não se baseiam em uso de força propriamente dita, assim não fazendo uso de poderio militar ou econômico entre os países, podendo ser observado a partir de influência cultural. Para o autor, os Estados podem influenciar uns aos outros por meio da atração exercida pela cultura, valores e instituições. Tendo isso em mente, a capacidade de construir uma imagem positiva internacionalmente se torna um importante recurso estratégico para ampliar a influência de um país. De tal forma, podemos entender como o maior evento esportivo do mundo pode funcionar como uma grande ferramenta de projeção no cenário. (NYE, 2004; MARTINELLI, 2016).

A diplomacia, através de sua vertente esportiva, constitui uma das manifestações do Soft Power descrito por Nye, uma vez que os governos utilizam o esporte como instrumento para promover a cooperação, aproximar sociedades e projetar uma imagem favorável no cenário internacional. Grandes eventos, como competições esportivas, costumam atrair grande atenção da mídia internacional, permitindo que os países-sede apresentem sua cultura, infraestrutura e capacidade logística e organizacional a bilhões de pessoas ao redor do mundo. Assim, o esporte, por meio do Soft Power, torna-se uma ferramenta de grande importância para a política externa dos Estados no mundo contemporâneo. (NYE, 2004; MARTINELLI, 2016).

A realização da Copa do Mundo de 2026 evidencia o crescente grau de interdependência presente nas relações internacionais contemporâneas. A necessidade de coordenação entre diferentes governos para garantir o funcionamento do evento demonstra como desafios de grande escala exigem mecanismos de cooperação e articulação diplomática, ultrapassando as capacidades de atuação isolada de um único Estado. Além disso, a edição deste ano conta com a participação de 48 seleções, ampliando muito seu alcance. O evento mobilizará cerca de 13 milhões de turistas e gerar impactos econômicos estimados de até US$30,5 bilhões para os países-sede, atraindo assim a atenção do mundo todo para as três sedes em específico, se consolidando como um dos maiores acontecimentos esportivos do século atual. (REUTERS, 2026).

A realização conjunta do evento exige cooperação intensa entre os países sede, a fim de garantir a segurança, transporte e controle migratório. Uma logística de tal magnitude demanda grande capacidade de articulação diplomática entre governos, demonstrando a importância do multilateralismo em um mundo cada vez mais interdependente, sendo o que separa acontecimentos como esse do sucesso ao fracasso, a sinergia de estados em cooperar para um objetivo em comum se mostra indispensável. (NYE, 2004; MARTINELLI, 2016).

A partir da perspectiva do soft Power, a Copa do Mundo pode ser interpretada como uma grande oportunidade para os países sede. Uma vez que os mesmos podem se beneficiar de diversas formas para fortalecer sua imagem no mundo e ampliar sua influência. Ao sediar um evento de grande importância, tais países podem demonstrar para o cenário internacional grande capacidade organizacional, estabilidade política e desenvolvimento econômico. Fatores como esses podem aumentar sua atratividade diplomática perante outros atores internacionais. Assim, demonstrando com clareza como a Copa deixa de ser apenas uma competição esportiva e passa a funcionar como ferramenta política para projeção de poder. (NYE, 2004).

No caso dos Estados Unidos, a Copa pode servir como uma tentativa de assegurar sua posição como hegemonia global em um mundo onde outras grandes potências ampliam cada vez mais sua influência. Para Canadá e México o evento se mostra como uma concreta oportunidade de ampliar sua visibilidade internacional e fortalecer a inserção destes países em debates relacionados à cooperação internacional, mobilidade de pessoas, segurança transnacional e organização de megaeventos esportivos. Assim utilizando o esporte como mecanismo de construção de prestígio e legitimidade. (NYE, 2004; MARTINELLI, 2016).

No caso dos Estados Unidos, a Copa do Mundo de 2026 também evidencia desafios que ultrapassam o campo esportivo. Nos últimos anos foram evidenciados debates relacionados à concessão de vistos para turistas e delegações estrangeiras, levantando questionamentos sobre a capacidade do país de garantir amplo acesso ao evento. Além  disso, a competição ocorre em um contexto de transformação na ordem internacional, marcado pela  ascensão de novas potências e pela crescente multipolaridade. Nesse sentido, a Copa do Mundo não apenas projeta a imagem dos países-sede, mas também influencia dinâmicas geopolíticas, fortalecendo relações diplomáticas, fluxos econômicos e a interação entre diferentes regiões do mundo. (CNN BRASIL, 2026).

Desta forma observa-se que a análise da Copa de 2026 sob a perspectiva do Soft Power nos permite compreender que grandes eventos possuem relevância e importância além do simples entretenimento. Ao sediar a competição, três Estados buscam fortalecer sua imagem e ampliar sua influência no cenário internacional, por meio da demonstração de capacidades diversas. Assim, o estudo do presente evento contribui para compreender os objetivos e interesses dos estados por detrás de eventos para apenas entreter a sociedade. (NYE, 2004).

REFERÊNCIAS

MARTINELLI, Caio Barbosa. O jogo tridimensional: o Hard Power, o Soft Power e a interdependência complexa, segundo Joseph Nye. Conjuntura global, Curitiba, v. 5, 1, p. 18 – 30, 2016. Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/304813936_O_Jogo_Tridimensional_o_Hard_Power_o_Soft_Power_e_a_Interdependencia_Complexa_segundo_Joseph_Nye&gt;. Acesso em: 07 jun 2026.
NYE, Joseph S. Soft Power: The Means to Success inn World Politics. New York: PublicAffairs, 2004.
CNN BRASIL. Copa 2026: problema com vistos adia  viagem da África do Sul ao México. CNN Brasil,2026 . Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/futebol/copa-do-mundo/copa-2026-problema-com-vistos-adia-viagem-da-africa-do-sul-ao-mexico/&gt;. Acesso em: 07 jun 2026.
REUTERS. Beyond the pitch: brokerages bet on sector inners as soccer world Cup set to kick off. Reuters, 5 jun. 2026 . Disponível em: <https://www.reuters.com/sports/soccer/beyond-pitch-brokerages-bet-sector-winners-soccer-world-cup-set-kick-off-2026-06-05/?utm_source&gt;. Acesso em: 07 jun 2026.