
Ana Clara Falcão – Acadêmica do 3º sem. de Relações Internacionais da UNAMA.
Reconhecido como um ícone do futebol, o jogador Mohamed Salah rompeu as barreiras geográficas do seu local de origem e se tornou um exemplo mundial em sua atuação em campo e extracampo. Mohamed Salah Hamed Mahrous Ghaly nasceu em 15 de junho de 1992 em Nagrig, Egito. Seu local de nascimento, Nagrig, é uma pequena vila da província de Gharbia. Desde a infância cultivava o sonho de se tornar jogador de futebol, incentivado por seu pai, Salah Ghaly —que o treinava para alcançar esse objetivo— o jovem persistiu em seu sonho mesmo diante de restrições financeiras e da falta de oportunidades locais.
A distância da capital e o contexto de pobreza da vila representavam grandes adversidades que o jogador precisou enfrentar para se tornar profissional. Este contexto tornou a sua trajetória no time Al Mokawloon, seu primeiro clube, ainda mais desafiadora. O isolamento em relação ao centro de treinamento foi o obstáculo que mais afetou a rotina do jovem atleta. A necessidade de deslocamento diário de cerca de 130 km entre a sua vila e o clube impactou negativamente em sua vida escolar, tornando a sua permanência no Al Mokawloon um desafio duplo, ao afetar tanto seu rendimento esportivo quanto acadêmico (GE, 2018).
Contrariando as expectativas, Salah se tornou um dos melhores jogadores do mundo, atingindo o auge de sua carreira quando se tornou jogador do Liverpool Football Club. Alcançar sucesso imediato em um dos maiores clubes do mundo demonstra que o esforço de Salah não foi em vão. Todo este esforço, acompanhado de seu talento, lhe assegurou a alcunha de “Rei do Egito” pelos torcedores do Liverpool. O amor dos torcedores de Merseyside, a admiração dos amantes de futebol e todo o orgulho de seus compatriotas e seguidores do islã veio acompanhado não apenas de sua história cativante, mas também do sucesso que conquistou em sua carreira (Premier League, 2025).
Entre suas conquistas é interessante citar que o jogador possui três prêmios de Futebolista do Ano pela Professional Footballers’ Association, possui recordes como o de ser o primeiro jogador africano a fazer 50 ou mais gols na Champions League e o único jogador na história da Premier League a conquistar os três possíveis prêmios individuais para um jogador de linha – Melhor Jogador da Temporada, Chuteira de Ouro e Assistente de Ouro. Salah também levou seu país a duas Copas do Mundo – 2018 e 2026 – dobrando a quantidade de participações do Egito, que só havia participado nas edições de 1934 e 1990 (Fifa, 2026).
Contudo, a atuação do futebolista ultrapassou as arenas e revolucionou o cenário social da região de Merseyside, Inglaterra. Isto se deu pela forte identidade religiosa de Salah, que segue o islã e manifesta sua religiosidade em campo, ao comemorar gols com a Sujood – ato de reverência suprema a Deus – por exemplo. Esta expressão pública de devoção transcendeu o esporte, pois Liverpool, uma cidade que apresentava indícios de islamofobia, passou não apenas a tolerar a prática islâmica, mas também a admirar essa identidade ao conhecer Salah (El país, 2018).
Um artigo de Stanford confirma essa transição de pensamento e comportamento dos cidadãos ingleses ao testar a hipótese em seu estudo “Can Exposure to Celebrities Reduce Prejudice? The Effect of Mohamed Salah on Islamophobic Behaviors and Attitudes“, os indicadores da pesquisa confirmam que as ações e representação que Mohamed Salah desempenha resultaram, de fato, na redução de ações preconceituosas e crimes de ódio, tanto cibernéticos quanto no ambiente físico. Os dados apontam que, desde a chegada do atacante ao Liverpool em julho de 2017, os crimes na região relacionados ao anti-islamismo foram reduzidos em 19%. (Alrababa’h; Marble; Mousa, 2021).
Ao analisar o caso de Mohamed Salah, é possível apontar que preconceitos nascem de um desconhecimento acerca da alteridade e da pluralidade cultural de povos distintos, a partir disso são construídos estereótipos que perpetuam intolerâncias. Esta situação remonta a Teoria Pós-Colonial das Relações Internacionais, em especial a obra Orientalismo de Edward Said (1990).
Na obra, o autor trata da construção do “outro”, especificamente na dinâmica Ocidente versus Oriente. Explora-se como o Ocidente construiu a imagem do Oriente de forma homogênea, ignorando a vastidão cultural e pluralidade dos povos, além de contrapor ao próprio Ocidente, destacando o mesmo como superior, mais civilizado e posicionando o Oriente como o oposto e inferiorizado (Said, 1990).
Essa generalização contribuiu fortemente para a construção de estereótipos que ainda perpetuam preconceitos na atualidade. A postura de Salah traz justamente a ruptura com esse modelo advindo da colonialidade, visto que, o jogador demonstra de forma orgulhosa a sua identidade como egípcio e muçulmano. Sua representatividade e o resultado dela na sociedade inglesa retomam a importância de se desvencilhar desse modelo “orientalista” de compreender o outro, e passar a vê-lo como agente independente, enxergando a sua história a partir das próprias lentes.
REFERÊNCIAS
ALRABABA’H, Ala’ et al. Can exposure to celebrities reduce prejudice? The effect of Mohamed Salah on Islamophobic behaviors and attitudes. American Political Science Review, [s. l.], v. 115, n. 4, p. 1111–1128, nov. 2021. Disponível em: https://www.cambridge.org/core/journals/american-political-science-review/article/can-exposure-to-celebrities-reduce-prejudice-the-effect-of-mohamed-salah-on-islamophobic-behaviors-and-attitudes/A1DA34F9F5BCE905850AC8FBAC78BE58. Acesso em: 4 jun. 2026.
FEDERAÇÃO INTERNACIONAL DE FUTEBOL ASSOCIAÇÃO (FIFA). O histórico do Egito na Copa do Mundo: participações, jogos e astros. FIFA, [s. l.], 2026. Disponível em: https://www.fifa.com/pt/tournaments/mens/worldcup/canadamexicousa2026/articles/egito-copa-do-mundo-historico. Acesso em: 4 jun. 2026.
LOIS, Geovanna; CANEDO, Rodrigo. Corra, Mohamed Salah: a história por trás do egípcio que virou rei em Liverpool. GE, [s. l.], 18 maio 2018. Futebol Internacional. Disponível em: https://ge.globo.com/futebol/futebol-internacional/futebol-ingles/noticia/corra-mohamed-salah-a-historia-por-tras-do-egipcio-que-virou-rei-em-liverpool.ghtml. Acesso em: 4 jun. 2026.
PREMIER LEAGUE. Salah’s top records and the one he could still break. Premier League News, [s. l.], 2025. Disponível em: https://www.premierleague.com/en/news/4589081/salahs-top-records-and-the-one-he-could-still-break/. Acesso em: 4 jun. 2026.
SAID. Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente / Edward W. Said; tradução Tomás Rosa Bueno – São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
SOUZA, Richard de. O ‘efeito Salah’ que apaixona Liverpool e acalma a islamofobia. El País (Brasil), São Paulo, 11 jun. 2018. Deportes. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/06/11/deportes/1528737417_639625.html. Acesso em: 4 jun. 2026.
