
Luca Zampollo – 5° Semestre
O documento publicado pela Santa Sé em 15 de Maio de 2026, intitulado “Magnifica Humanitas”, do latim, magnífica humanidade, se insere na longa tradição da Doutrina Social da Igreja e propõe uma reflexão profunda sobre o avanço tecnológico acelerado, especificamente a Inteligência Artificial, alertando para o risco de desumanização, usando como alegoria uma nova Torre de Babel devido ao carente local onde a comunicação democrática e pacífica se encontra (VATICAN NEWS, 2026), e de criação de novas assimetrias globais de poder econômico e social. Tendo isso em evidência, é necessário compreender as razões para a publicação deste documento e analisar qual poderá ser o futuro da diplomacia global e do multilateralismo caso o escrito do Vaticano se concretize e como tal cenário será trabalhado nos próximos anos no âmbito das relações internacionais.
Em primeira análise, é preciso entender qual o intuito do pontífice ao emitir este texto, o Papa Leão XIV dá ênfase no respeito mútuo entre os povos em todos os seus discursos, ressaltando como o diálogo é a chave para a resolução de conflitos ao redor do globo e que na ausência do mesmo, torna-se mais fácil para discursos violentos, polarizados e intolerantes ganharem espaço nos debates do público geral assim como, em líderes e representantes de instituições e Estados, danificando a conexão interpessoal. Por isso, se for utilizada por indivíduos mal-intencionados, a Inteligência Artificial com sua indiferença, apatia e capacidade de criação de artifícios para dividir as pessoas preocupa o Papa.
O pontífice por sua vez, argumenta no documento publicado este ano , que a IA em si não é ruim, pois é fruto da genialidade humana dada por Deus e por isso não deve ser negada, entretanto, não pode-se fazer que a IA esteja a serviço da guerra, da destruição do valor do ser humano, da deturpação da Verdade (VATICAN NEWS, 2026). O próprio presidente estadunidense Donald Trump no ano de 2026, fez uma imagem pela IA do mesmo como uma figura santa e messiânica, causando discórdia e separação por entre a população (BBC, 2026), exemplificando desta maneira, a tese do Papa.
No âmbito de teóricos internacionalistas, algumas ideias são capazes de auxiliar o entendimento do contexto como um todo, mostrando que o campo acadêmico tem pontos de convergência com as falas do pontífice. O teórico crítico Robert Cox argumenta em um de seus artigos, Social Forces, States and World Orders: Beyond International Relations Theory publicado em 1987, que as estruturas mundiais são moldadas por forças sociais, formas de Estado e ordens mundiais (COX, 1987), o autor introduz a ideia de que o poder no Sistema Internacional é sustentado por uma estrutura hegemônica composta por três elementos interligados: Forças materiais como tecnologia e riqueza, ideias e instituições. Cox traz uma perspectiva para desconstruir como a IA não é totalmente neutra, pois pode ser utilizada como um instrumento de manutenção do poder global e atender interesses de certos grupos institucionais ou políticos.
Do ponto de vista construtivista, Alexander Wendt contribui com sua tese em Anarchy is what States Make of it: The Social Construction of Power Politics de 1992, sua tese central parte do princípio de que as estruturas políticas internacionais são determinadas socialmente por ideias compartilhadas e identidades, assim como, a anarquia é o que os Estados fazem dela (WENDT, 1992). Utilizando a lógica de Wendt, a governança da IA também é o que a sociedade internacional fizer dela.
Retornando ao ponto de vista crítico, o pensador Immanuel Kant transmite em seus escritos, como por exemplo Fundamentação da Metafísica dos Costumes de 1785,que uma comunidade ética global é unida por imperativos categóricos, direitos humanos universais e um direito internacional cosmopolita (KANT, 1785). Portanto, no contexto da IA, a ética seria essencial, regulação de materiais que afetem a moralidade e e causem danos aos seres humanos. Podendo ser relacionada com a preocupação do Papa em relação à desumanização e falta de princípios impulsionados pela inteligência artificial desordenada.
Para concluir, é nítido que as declarações do artigo da Santa Sé são extremamente fundadas e não apenas no meio religioso, mas também no acadêmico internacionalista, já que, mesmo muitas das vezes não intencionalmente, os pensadores formulam ideias que se encaixam em algum nível com as falas e escritas do pontífice a respeito da importância das relações humanas, o cuidado com o próximo e os perigos que a falta do debate e diálogo podem trazer aos cidadãos do mundo. Então, não é equivocado imaginar que as críticas do Papa Leão XIV, assim como alguns pontos apresentados por teóricos, se tornem cada vez mais relevantes para as pessoas e que as faça refletir sobre os malefícios das IA e tentem a partir disso, se reconectarem com seus equivalentes para que a sociedade não se esqueça de como se deve conviver de forma orgânica, respeitosa, altruísta e acima de tudo, humana.
Referência:
BBC. Trump deletes post depicting him as Jesus-like figure after backlash. Disponível: https://share.google/U8A6dO2zV1asw2ax8. Acesso em: 04/06/2026.
COX, Robert. Social Forces, States and World Orders: Beyond International Relations Theory. Ano de Publicação: 1987. Acesso em: 04/06/2026.
KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Ano de Publicação: 1785. Acesso em: 04/06/2026.
VATICAN NEWS. Magnifica Humanitas: Babel ou Jerusalém?. Disponível: https://share.google/GtzzlKyMNrHaKPe9X. Acesso em: 05/06/2026.
VATICAN NEWS. A Carta Encíclica Magnifica Humanitas. Disponível: https://share.google/8INqTXgOspnFxHhRh. Acesso em: 05/06/2026.
WENDT, Alexander. Anarchy is what States Make of it: The Social Construction of Power Politics. Ano de Publicação: 1992. Acesso em: 06/06/2026.
