
Ana Gabriela Silva – Acadêmica do 5º semestre de Relações Internacionais da UNAMA.
A região do Sahel, localizada no continente africano, corresponde a faixa de países próximos ao deserto do Saara, são eles Burkina Faso, Mali, Níger, Nigéria, Senegal, Mauritânia, Eritréia, Sudão do Sul, Sudão do Norte e Chade (Silva, 2026). De clima árido ao norte, semiárido a oeste e centro-norte e com savanas ao sul, essa diferença climática se deve a sua extensão, que vai desde o Oceano Atlântico até o Sudão (Britannica, 2026).
A vegetação da região é rasteira, obedecendo o clima semiárido, com algumas plantas de crescimento baixo e médio e algumas herbáceas, com pastos para alimentar gados e outros animais de carga e ovelhas. Já na área da savana, há três meses em que chove (junho, julho e agosto), aproximadamente 100 – 200 mm durante esse período, permitindo haver áreas de pastagens e plantações, porém, os outros meses são secos (Britannica, 2026).
No século XX, a região ainda não era tão afetada pelo clima rigoroso, mas o crescimento populacional afetou a área, cada vez mais pessoas e agricultores cortavam árvores para obter lenha e arrancavam os arbustos para fazer plantações, entretanto estas práticas descuidadas afetaram o solo e o clima drasticamente. Chuvas e ventos fortes machucavam e impediam que nutrientes fossem absorvidos pelo solo afetando sua produtividade iniciando o processo de desgaste do solo (Ibidem).
Em 1968 iniciou-se uma forte seca, o Saara começou a entrar na região, aproximadamente 70% do gado e das plantações foram perdidas, muitas pessoas morreram na seca que já durava 5 anos. Por volta de 1983-1985, mesmo com programas de reflorestamento implementados pelos governos a desertificação continuou evoluindo (Ibidem). Segundo as Nações Unidas, as temperaturas no Sahel sobem 1,5 mais que no resto do mundo, é a região mais sensível a mudanças climáticas, grande parte disso deve-se aos danos causados em seu solo e vegetação (Jones, 2021).
A agricultura é o principal meio de subsistência da região, porém, com os solos ficando cada vez mais inférteis, a dificuldade em produzir para comercializar e viver, é um desafio, resultando em insegurança alimentar, migração e baixos índices sociais. A falta de governos mais comprometidos com seu povo e firmes, com planejamentos para lidar com essas questões climáticas, torna o Sahel vulnerável ao crime organizado (Jones, 2021).
Muitos grupos terroristas, depois das campanhas contraterrorismo no Oriente Médio, viram oportunidade e uma grande área desocupada, instável e subdesenvolvida para ficar, então se instalaram em regiões do Sahel. Assim, como acontece na América Latina, estes grupos se aproveitam da vulnerabilidade e da necessidade das pessoas por recursos para sobreviver e oferecem oportunidade para uma vida “melhor”, contudo causam mais transtornos internos, além de conflitos entre outros grupos terroristas (Ibidem).
Nos estudos sobre Segurança Internacional, a Escola de Copenhague diz que as ameaças à segurança não se originam apenas nas questões militares, mas também nas variáveis políticas, econômicas, sociais e ambientais (Tanno, 2003). Estas variáveis estão conectadas umas com as outras, na região do Sahel, por exemplo, os problemas maiores começaram com o clima e o solo, este problema ambiental foi evoluindo até se tornar um problema social, econômico e, portanto, político, porque um está atrelado ao outro.
A escassez de recursos provocou que terras agrícolas fossem invadidas e que fazendeiros expandissem suas terras para perto de locais onde há mais recursos hídricos (Jones, 2021). Uma parte dessa situação no Sahel poderia ter sido evitada se os governos tivessem seguido políticas de proteção ambiental e os fazendeiros, bem como, os pequenos produtores de terras agrícolas, tivessem tido mais cuidado ao manejar o solo.
Essas questões são problemas de segurança estatal e societal. Um Estado é considerado fraco, segundo a Escola de Copenhague, quando não consegue manter sua autoridade interna, quando seus problemas internos são tão fortes que começam a aparecer no cenário internacional. A variável societal fala em identidade coletiva, como clãs, nações, civilizações e etc, quando estes grupos estão em perigo, há um problema de segurança societal (Tanno, 2003).
Portanto, os diversos problemas com o clima e o solo, que acarretam as dificuldades de produção, que consequentemente afetam a sociedade que mal consegue viver, com insegurança alimentar, com diversos conflitos por recursos e por terras, é um reflexo desse enfraquecimento estatal, já que o Estado não consegue mais proteger seus cidadãos.
Referências:
BRITANNICA. Sahel. Britannica. 25 de maio 2026. Disponível em: <https://www.britannica.com/place/Sahel> Acesso em: 14 de jun. 2026.
JONES, Melina. O Sahel enfrenta 3 questões: clima, conflito e superpopulação. Vision of Humanity. 16 de abril de 2021. Disponível em: <https://www.visionofhumanity.org/challenges-facing-the-sahel-climate-conflict-and-overpopulation/> Acesso em: 14 de jun. 2026.
TANNO, Grace. A Contribuição da Escola de Copenhague aos Estudos de Segurança Internacional. Rio de Janeiro, vol.25, nº1, janeiro/junho 2003, pp.47-80.
