
Maria Eduarda Perdigão, acadêmica do 3° semestre de Relações Internacionais da Unama.
Sofia Dias, acadêmica do 3° semestre de Relações Internacionais da Unama.
Ficha Técnica:
Ano: 2026
Gênero: Comédia Dramática
Direção: David Frankel
Distribuição: 20th Century Studios
País de Origem: Estados Unidos
“O Diabo Veste Prada 2”, dirigido por David Frankel, marca o retorno de uma das tramas mais influentes do cinema e da cultura pop dos anos 2000. Dando continuidade ao sucesso do primeiro longa-metragem, a sequência resgata personagens marcantes (Andy, Miranda, Emily e Tucci) que se tornaram referências sobre a representação da moda no mundo cinematográfico, abordando sobre mudanças no mercado de trabalho, liderança feminina e transformação digital, sob a nova perspectiva de mundo caracterizada pela construção de identidades e espaços de poder (Nolla, 2026).
A trama acompanha o reencontro entre Andy Sachs e Miranda Priestly, desta vez inseridas em um contexto onde as revistas impressas perdem o prestígio para influenciadores digitais e plataformas onlines, criando novas formas de consumo da moda. Miranda permanece como símbolo de influência e poder no mercado editorial, enquanto Andy retorna segura de suas escolhas e com maior maturidade profissional e pessoal. Desta forma, a trajetória de ambas deixa de ser pautada pela hierarquia profissional, passando a refletir sobre questões ligadas à experiência e adaptação em um mercado cada vez mais competitivo (Gelinski, 2026).
Ao longo da narrativa, a obra acompanha a evolução conjunta dos personagens, destacando como suas experiências profissionais influenciam suas maneiras de encarar as dificuldades enfrentadas pela revista Runway diante da modernização, evidenciando como a indústria da moda continua marcada pela brutalidade da competitividade extrema e constante valorização da imagem, sobretudo em relação às mulheres, ao mesmo tempo em que reforça a construção de novas perspectivas de sucesso e permanência diante das novas exigências do mercado contemporâneo.
Robert W. Cox, em seu seminal artigo “Social Forces, States and World Orders” (1981), propõe uma ruptura com as teorias tradicionais de Relações Internacionais, entre realistas e liberalistas, que ele classifica como “teorias de resolução de problemas”. Estas, segundo Cox (1981), tomam o mundo como dado, servindo para ajustar o funcionamento do sistema sem questionar suas estruturas de poder. Em contraposição, a Teoria Crítica busca compreender as origens históricas das estruturas de poder, identificar as forças sociais responsáveis por sua manutenção e analisar os processos que podem conduzir à sua transformação.
Nesse sentido, a obra cinematográfica oferece um terreno fértil para a aplicação dessa perspectiva crítica. O universo da moda retratado no filme pode ser interpretado como um microcosmo do sistema capitalista global, organizado em torno de uma estrutura de poder que Cox (1981) descreve como hegemônica.
Para o teórico, a hegemonia não se sustenta apenas pela coerção — como o poder bruto de Miranda de demitir ou humilhar subordinados—, mas fundamentalmente pelo consenso, isto é, a internalização, por parte dos atores, de certas ideias e normas que tornam a ordem existente natural e desejável (Cox, 1981).
Miranda Priestly personifica a hegemonia coxiana ao demonstrar que sua autoridade não decorre apenas de seu cargo, mas de sua capacidade de definir o que é “bom gosto”, o que é sucesso e o que é relevante na indústria. Nesse contexto, os demais personagens operam dentro desse quadro, mesmo quando o contestam.
O filme também evidencia o que Cox (1981) chama de internacionalização do Estado e, por analogia, a internacionalização das estruturas de poder na moda. A indústria da moda não é mais um fenômeno nacional, mas global, articulado por conglomerados transnacionais, cadeias produtivas globais e eventos, como por exemplo as semanas de moda, que funcionam como instituições internacionais informais.
A pressão sobre a Runway para se adaptar à concorrência internacional e às novas plataformas globais reflete a dinâmica descrita por Cox sobre como as políticas nacionais, por analogia à gestão da revista, são cada vez mais condicionadas por forças transnacionais.
Portanto, sob a lente da Teoria Crítica de Robert Cox, o filme revela-se uma alegoria poderosa sobre as dinâmicas de hegemonia, poder e mudança no capitalismo global contemporâneo. A trajetória de suas personagens simboliza a tensão entre a reprodução da ordem e a emergência de novas forças sociais, sem jamais perder de vista que, mesmo na reinvenção, as estruturas de exploração e competitividade extrema podem se perpetuar.
Assim, o filme confirma-se como um objeto relevante para a análise crítica das Relações Internacionais ao articular, no plano micro da indústria da moda, as macroestruturas de poder que moldam o mundo globalizado.
REFERÊNCIAS:
NOLLA, Thiago. Crítica | ‘O Diabo Veste Prada 2’. Cine Pop. 2026. Disponível em: https://cinepop.com.br/critica-o-diabo-veste-prada-2-e-uma-glamourosa-sequencia-que-entrega-exatamente-o-que-promete-730881/
Acesso em: 10 Jun 2026.
GELINSKI, Marcela. Crítica: O Diabo Veste Prada 2. Coisa de Cinéfilo. 2026. Disponível em: https://coisadecinefilo.com.br/critica-o-diabo-veste-prada-2/ Acesso em: 13 Jun 2026.
COX, Robert W. Social Forces, States and World Orders: Beyond International Relations Theory. Millennium: Journal of International Studies, 1981.
