
Izabelle Gama (acadêmica do 3° Semestre de Relações Internacionais da UNAMA)
O pensamento de Aníbal Quijano insere-se no campo das teorias pós coloniais, com abordagens críticas e de resistência que buscam questionar as heranças da dominação ocidental a partir das experiências históricas do Sul Global. Considerado um dos principais expoentes do grupo Modernidade/Colonialidade, o sociólogo peruano desenvolveu uma crítica ao eurocentrismo e às interpretações tradicionais das ciências sociais, demonstrando que a independência política das antigas colônias não significou o fim das estruturas de subordinação construídas durante a expansão colonial.
Nesse contexto, a obra Colonialidade do Poder, Eurocentrismo e América Latina, publicado originalmente em 2000, surge em um período marcado pela consolidação da globalização neoliberal e pela difusão de discursos que celebravam a modernidade como modelo universal de desenvolvimento. A obra investiga os mecanismos históricos que sustentam a permanência das desigualdades globais, argumentando que a classificação racial da humanidade, a exploração econômica e o controle da produção do conhecimento constituem dimensões interligadas de um mesmo padrão de poder, originado no processo de colonização das Américas e ainda presente na sociedade contemporânea.
Em primeira análise, Quijano demonstra que a fundação da América em 1492 instituiu o primeiro padrão de poder verdadeiramente global da história ao fundir duas forças materiais e simbólicas. A primeira delas foi a invenção da categoria “raça” como uma construção mental e biológica nova, utilizada para classificar e hierarquizar a humanidade em identidades gerais e subalternas como “índios” e “negros”, convertendo-se no “instrumento de dominação social universal” (QUIJANO, 2005, p. 118).
A segunda força consistiu na reorganização de todas as formas conhecidas de exploração do trabalho (escravidão, servidão e reciprocidade), sob o comando centralizado do capital e do mercado capitalista mundial, transformando o continente americano no laboratório definitivo da modernidade global.
Assim, colonialismo consolidou-se a partir da estreita relação entre a classificação racial da população mundial e o controle da força de trabalho, onde a cor da pele passou a ditar o papel socioeconômico e o nível de exploração de cada indivíduo. Sob a ótica do eurocentramento do capitalismo, o trabalho forçado e não remunerado de negros escravizados e indígenas servos na América injetou volumes massivos de riquezas no mercado mundial, permitindo que a Europa Ocidental se consolidasse como o “centro” dinâmico e industrial e empurrasse o restante do mundo à condição de “periferia”.
Esse cenário produziu simultaneamente uma nova intersubjetividade e a colonização do imaginário, na qual os saberes e símbolos nativos foram reprimidos para que os colonizados passassem a perceber a própria história a partir do ponto de vista e do tempo linear europeu. (QUIJANO, 2005)
Ao aprofundar as bases teóricas do eurocentrismo, Quijano esclarece a sutil distinção entre os conceitos de capital e capitalismo, desafiando as visões históricas lineares. Enquanto o pensamento eurocêntrico prega que formas de trabalho como a servidão e a escravidão são etapas pré-capitalistas do passado que tendem a sumir com o avanço do assalariamento, a realidade colonial demonstra que o capitalismo nasceu exatamente da unificação simultânea dessas diferentes relações de trabalho.
O sistema opera, portanto, através de uma engrenagem que é histórico-estruturalmente descontínua e fragmentada, onde indústrias modernas e alta tecnologia convivem e dependem diretamente da manutenção de mercados de trabalho profundamente precários, racistas e marginalizados na periferia global.
Essa distorção de narrativa é sustentada por dois mitos: o evolucionismo e o dualismo (QUIJANO, 2005). O evolucionismo estabelece a ilusão de que a história humana caminha em linha reta da selvageria em direção à civilização ocidental, como se a Europa representastes o “presente” e o restante do mundo fosse o “passado” primitivo.
Quijano desconstrói essa premissa ao evidenciar que a modernidade não é um produto exclusivo europeu, mas um processo global feito pelas interações com outras várias culturas. Paralelamente, o dualismo opera dividindo o mundo em polos desiguais, uma herança da separação entre “razão” (o sujeito europeu) e “corpo/natureza” (o não europeu e colonizado), que serviu de justificativa para o processo de dominação.
Ao aplicar essas categorias de análise à experiência histórica da América Latina, Quijano demonstra como o modelo europeu de Estado-nação falhou estruturalmente ao ser transplantado para o continente. Nos Estados Unidos, o processo obteve êxito relativo para a maioria branca por meio do acesso à terra, embora sustentado pelo limite colonial severo do extermínio indígena e da segregação negra. No Cone Sul, países como a Argentina tentaram forjar nações homogêneas brancas, através do genocídio físico e cultural de suas populações nativas, resultando em estruturas agrárias oligárquicas e instáveis (QUIJANO, 2005).
Nas regiões marcadas por expressivas maiorias indígenas, negras e mestiças, como o Peru e o México, o projeto do “moderno Estado-nação” converteu-se em um paradoxo difícil de superar. Com as independências políticas, as pequenas minorias brancas locais tomaram as rédeas dos novos Estados soberanos, mas preservaram intactas as estruturas sociais coloniais de exploração racista.
Diante disso, Quijano encerra a obra tecendo críticas às interpretações da esquerda tradicional sobre a revolução na América Latina. Amparados em um marxismo eurocêntrico, intelectuais e militantes debatiam como a transformação social deveria ser, as vezes ignorando que o continente nunca foi feudal, mas sim peça fundamental do capitalismo mundial (QUIJANO, 2005).
Para o sociólogo, o socialismo não pode ser resumido à mera estatização burocrática da economia. Uma verdadeira revolução latino-americana precisa ser, de maneira obrigatória, anticolonial e antirracista, devolvendo o controle da autoridade, da cultura e do trabalho diretamente à vida cotidiana dos explorados, promovendo uma descolonização de dentro para fora (QUIJANO, 2005).
Em suma, a análise de Aníbal Quijano acerca da colonialidadedo poder se mostra plenamente atual e útil para analisar a dinâmica contemporânea das Relações Internacionais. Em um sistema global marcado pela crise da governança neoliberal, pela emergência de novas tensões geopolíticas e pela permanência de profundas desigualdades entre o Norte e o Sul Globais, fica evidente que o fim oficial do colonialismo não extinguiu as hierarquias globais de poder.
Então, as desigualdades econômicas internacionais contemporâneas não constituem meras falhas temporárias de desenvolvimento, mas são características estruturais que mantêm moldes racistas e excludentes.
Ademais, as discussões contemporâneas sobre o racismo estrutural, as crises migratórias globais e a soberania do conhecimento nos centros universitários mundiais demonstram que a colonização do imaginário denunciada por Quijano permanece ativa. Os colonizadores reprimiram: “[…] tanto como puderam […] as formas de produção de conhecimento dos colonizados, seus padrões de produção de sentidos, seu universo simbólico, seus padrões de expressão e de objetivação da subjetividade” (QUIJANO, 2005, p. 121).
A denúncia de Quijano sobre a opressão do saber e as assimetrias globais tornam-se ferramentas indispensáveis não apenas para diagnosticar como o eurocentrismo continua a pautar as instituições globais e os fluxos de poder, mas principalmente para desenhar horizontes de emancipação. Assim, descolonizar as estruturas mentais e materiais surge como o único caminho viável para interpretar os desafios do presente e construir uma sociedade global genuinamente plural, democrática e justa.
Referências
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (Org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005. p. 117-142.
