A Pirataria como Resistência Epistêmica: Uma Análise Pós-Colonial do Governo Mundial em One Piece

Alciane Carvalho Dias, Internacionalista formada pela UNAMA 

Ficha Técnica:

Ano: 1997 (Mangá) / 1999 (Anime)

Criador: Eiichiro Oda

Distribuição: Shueisha (Mangá) / Toei Animation (Anime)

Gênero: Shonen, Aventura, Fantasia, Ficção Política

País de origem: Japão

Quando Eiichiro Oda deu os primeiros traços na jornada de um garoto de borracha que sonhava em ser o Rei dos Piratas, poucos poderiam prever que One Piece se transformaria no mangá mais vendido do mundo e na maior odisseia geopolítica da cultura pop contemporânea. A premissa, à primeira vista, abraça a leveza clássica dos quadrinhos infanto-juvenis japoneses (shonen): acompanhamos Monkey D. Luffy, um jovem que acidentalmente ganha poderes elásticos após comer uma Akuma no Mi (o Fruto do Diabo) e decide cruzar os oceanos para encontrar o lendário tesouro deixado por Gol D. Roger. 

Contudo, por trás do carisma dos Piratas do Chapéu de Palha e dos cenários fantásticos de ilhas flutuantes e correntes marinhas reversas, esconde-se um tabuleiro político internacional de contornos sombrios, controlado de forma autocrática pelo Governo Mundial (Sekai Seifu). Esse imenso aparato institucional engloba mais de 170 nações sob a égide tirânica dos Nobres Mundiais, os Tenryubitos. À medida que Luffy avança pelos mares, a narrativa deixa de ser apenas uma busca por riquezas e se converte em um manifesto visceral contra as estruturas de dominação globais, oferecendo um terreno fértil para compreendermos as Relações Internacionais através das lentes provocativas da Teoria Pós-Colonial.

Para os analistas internacionais acostumados às matrizes teóricas tradicionais, como o Realismo e o Liberalismo, o universo de One Piece seria facilmente decodificado como uma disputa crua por sobrevivência e equilíbrio de poder entre o Estado (representado pela Marinha), os monopólios criminosos (os Quatro Imperadores dos Mares) e as insurreições domésticas (o Exército Revolucionário). Todavia, essas lentes convencionais são míopes diante das violências mais profundas da obra, que incluem o racismo estrutural contra os Homens-Peixe, a escravidão institucionalizada e a destruição de identidades periféricas. 

É nesse ponto que a Teoria Pós-Colonial assume o protagonismo analítico, pois ela nasce nas Relações Internacionais justamente para denunciar como as potências hegemônicas constroem sua soberania esmagando, silenciando e desumanizando o “Outro” colonial (Said, 1978). 

O Governo Mundial em One Piece opera exatamente como uma emulação hiperbólica dos impérios eurocêntricos modernos, estabelecendo sua legitimidade sobre o maior crime de apagamento histórico da ficção: o Século Vazio (Blank Century), cem anos de história misteriosamente deletados dos registros da humanidade.

Essa imposição do esquecimento evoca diretamente as formulações de Edward Said (1978) em sua obra seminal “Orientalismo”. Said argumenta que o poder imperial não se consolida apenas pela força dos canhões, mas principalmente pelo monopólio da narrativa e da produção do conhecimento. No império, segundo o autor, o conhecimento gerado pelo poder cria a própria realidade do dominado, aprisionando-o em uma história unilinear redigida unicamente pelos vencedores (Said, 1978). 

No anime, qualquer tentativa de questionar ou resgatar o passado ocultado pelo Governo Mundial é tratada como uma ameaça existencial à segurança global. O ápice dramático dessa violência discursiva e militar ocorre no episódio 275 (“A Árvore do Conhecimento de Ohara”), quando conhecemos o passado trágico da arqueóloga Nico Robin. Na ilha de Ohara, um grupo de cientistas e historiadores liderados pelo Professor Clover consegue decifrar os Poneglyphs – blocos ancestrais de pedra indestrutíveis – e descobre a existência de um próspero e libertário Antigo Reino que foi varrido do mapa pela coalizão militar que viria a fundar o Governo Mundial. Antes que Clover possa revelar o nome verdadeiro desse reino proibido através do Den Den Mushi de comunicação, os Cinco Anciãos (Gorosei) ordenam sua execução imediata, acionando o temido Buster Call, uma ordem de aniquilação total que reduz a ilha e seus séculos de conhecimento a cinzas.

O sacrifício dos eruditos de Ohara, que jogam seus livros em um lago enquanto a biblioteca queima para salvar a memória do mundo, ilustra perfeitamente o conceito de “epistemicídio” cunhado por Boaventura de Sousa Santos (2007). O sociólogo define o epistemicídio como a destruição sistemática de formas de saberes locais e históricos em nome de uma “verdade” hegemônica unilateral que atende aos interesses do colonizador. 

No anime, para legitimar o massacre de uma população inteira de intelectuais, a Marinha e o Governo Mundial acionam seus aparatos de propaganda, rotulando os cientistas de Ohara como “demônios que queriam destruir o mundo revivendo as Armas Antigas”. Essa manobra retórica expõe as engrenagens da “missão civilizatória” criticada por Homi Bhabha (1994). Na geopolítica real e na ficção de Oda, a violência brutal das potências centrais é frequentemente maquiada sob o pretexto de salvaguardar a ordem, a paz internacional e os valores universais. Em One Piece, essa lógica é simbolizada pela chamada “Justiça Absoluta”, ironicamente estampada nas capas dos almirantes da Marinha.

Diante de um sistema internacional asfixiante que criminaliza o pensamento livre, a figura do “pirata” assume uma dimensão teórica fascinante. Historicamente, no direito internacional ocidental, o pirata era classificado como o hostis humani generis – o inimigo de toda a humanidade –, um rótulo jurídico que as potências europeias usavam para caçar e eliminar qualquer ator marítimo que desafiasse o mercantilismo e o controle das rotas comerciais metropolitanas (Kopper, 2018). 

Contudo, o criador da obra, Eiichiro Oda, subverte brilhantemente essa categoria. Em vez de criminosos puramente egoístas e bárbaros, os piratas da linhagem de Luffy são reposicionados como agentes de resistência subalterna. Quando a teórica pós-colonial Gayatri Spivak (2010) lança sua célebre pergunta, “Pode o subalterno falar?”, ela está questionando a capacidade de agência e representação daqueles que foram empurrados para as margens do sistema mundial. 

Luffy e seus aliados respondem a esse silenciamento não com discursos diplomáticos em fóruns oficiais, mas com a ação direta nos mares. A busca de Luffy pelo título de Rei dos Piratas não tem a ver com a conquista de territórios ou com a imposição de uma nova soberania sobre os outros. Para o protagonista, ser o Rei dos Piratas significa, pura e simplesmente, ser a pessoa mais livre de todos os oceanos.

Essa busca utópica pela liberdade transforma os limites geográficos do mundo de One Piece no que Homi Bhabha (1994) conceitua como “espaço liminar” ou “terceiro espaço”. Para o autor, as margens e as fronteiras do império são locais de hibridismo e tradução cultural, onde as ordens rígidas da metrópole falham em se reproduzir perfeitamente e acabam fraturadas pela resiliência dos sujeitos colonizados. Cada ilha que o bando do Chapéu de Palha liberta – seja o reino desértico de Alabasta, dominado por um golpe de Estado conspiratório, ou o país isolacionista de Wano, explorado até a exaustão industrial por um tirano mancomunado com piratas inescrupulosos –, torna-se um nó em uma rede de solidariedade transnacional contra-hegemônica. 

A famosa bandeira pirata com a caveira de chapéu de palha (Jolly Roger), que o Governo Mundial enxerga como o símbolo máximo da anarquia e do crime, passa a ser lida pelas populações oprimidas como um farol de emancipação (Ghimire, 2025). Dessa forma, Luffy personifica a energia descolonizadora ao recusar-se a aceitar as identidades e as leis paralisantes impostas pelo centro do poder global.

Ao costurar essas complexas dinâmicas geopolíticas em uma narrativa de apelo universal, One Piece prova que a ficção e a cultura pop não são meras formas de escapismo alienante, mas sim espelhos distorcidos – e incrivelmente nítidos – das patologias do nosso próprio sistema internacional. A odisséia escrita por Eiichiro Oda ressoa de maneira tão profunda porque as engrenagens coloniais, o epistemicídio de Ohara e a hipocrisia da “Justiça Absoluta” não estão restritos ao universo dos animes; eles estruturam a história moderna e contemporânea das Relações Internacionais. 

Olhar para a obra sob o prisma da Teoria Pós-Colonial nos permite enxergar que a jornada em direção ao grande tesouro escondido não é apenas uma caça a riquezas materiais, mas um projeto radical de descolonização epistêmica. É a promessa de que, ao final da rota, o véu do silenciamento histórico será finalmente rasgado, devolvendo a agência política e a dignidade àqueles que o império tentou apagar dos mapas.

REFERÊNCIAS

BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1994.

GHIMIRE, S. Can the One Piece Flag in Nepal’s Gen Z Protest Be an Inter-Asia Referencing Practice?. Ariscope – Asia Research Institute, Singapore, v. 4, n. 2, p. 12-19, 2025.

KOPPER, Akos. Pirates, justice and global order in the anime ‘One Piece’. Budapeste: Central European University (CEU), 2018. Draft Paper.

ODA, Eiichiro. One Piece. Tóquio: Shueisha, 1997-2026. (Mangá).

SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1978.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. Novos estudos CEBRAP, São Paulo, n. 79, p. 71-94, nov. 2007.

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.

ONE PIECE. Direção: Konosuke Uda. Produção: Toei Animation. Tóquio: Fuji TV, 1999-2026. Anime.