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Sathya da Silva Lobato – acadêmica do 5º Semestre de Relações Internacionais da UNAMA
Desde as civilizações antigas, o trabalho humano constitui uma parte fundamental na transformação e no amadurecimento do indivíduo ao longo da sua trajetória social. Marcadas pelo trabalho escravo, e posteriormente pelo surgimento do trabalho assalariado a partir da Primeira Revolução Industrial, as formas de organização laboral foram sendo constantemente reformuladas de acordo com as estruturas de poder vigentes em cada época. Nesse contexto histórico, é importante ressaltar o que Michel Foucault denominou de sociedade da obediência, um modelo sustentado na vigilância e na punição, no qual figuras de autoridade como chefes, gerentes e supervisores exercem o poder diretivo de forma hierárquica e presencial, controlando os corpos e os comportamentos dos trabalhadores (Foucault, 1987).
Os tempos atuais trouxeram consigo uma ruptura silenciosa com esse modelo disciplinar. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, na obra Sociedade do Cansaço (2015), descreve com precisão a transição de uma sociedade da obediência para uma sociedade do desempenho, na qual o indivíduo deixa de ser submetido a um poder externo e passa a se tornar o próprio agente da sua exploração. Nesse novo paradigma, não existe mais um supervisor que impõe ordens, e sim um sujeito que se autovigia, que internaliza as exigências de produtividade e que, movido pela ilusão de liberdade, extrapola os seus próprios limites físicos e psíquicos. Han denomina esse sujeito de “animal laborans pós-moderno”: hiperativo, hiperneurótico, estressado e incapaz de simplesmente parar. A consequência direta desse processo é o adoecimento, Síndrome de Burnout, depressão e os transtornos de ansiedade se tornaram as doenças do século 21 — não mais causadas pela negatividade de uma ameaça externa, mas pelo excesso de positividade de um sistema que nunca diz não.
As leituras de Foucault ainda ajudam a entender essa situação, mesmo que ela aconteça em uma nova forma. Se antes o poder era exercido de fora para dentro, por meio de instituições disciplinares como a fábrica, presídio ou hospital, na sociedade do desempenho ele se interiorizou. O trabalhador do século 21 carrega com ele o seu próprio campo de trabalho, está disponível a qualquer hora, responder mensagens fora do expediente, acumula tarefas e metas inatingíveis sem que nenhum supervisor precise ordenar. Foucault (1987) já antecipava que os mecanismos de controle tendem a se sofisticar e a se tornar invisíveis, e é exatamente isso que acontece nas relações de trabalho atuais. O poder não some, ele se disfarça de motivação, recompensa e de realização pessoal. Nessa lógica, um tanto que cruel, o explorador e o explorado habitam o mesmo corpo, e o trabalho, que deveria ser fonte de dignidade e realização, se transforma em rotina de sofrimento.
Sendo assim, a humanização das relações de trabalho não surge apenas como uma obrigação moral, mas como uma necessidade urgente de saúde pública e de justiça social. Humanizar o trabalho significa reconhecer que o ser humano não é uma máquina de desempenho, e que sua capacidade produtiva possui limites que precisam ser respeitados. Significa garantir jornadas compatíveis com o bem-estar, ambientes psicologicamente seguros, vínculos empregatícios estáveis e o direito efetivo à desconexão. Significa, também, resgatar o sentido original pelo qual o Direito do Trabalho foi criado: proteger o trabalhador, que historicamente sempre foi a parte mais fraca dessa relação, dos excessos de um sistema que coloca o lucro acima das pessoas. A Organização Internacional do Trabalho (OIT), por meio da Agenda do Trabalho Decente, já estabelece que o labor digno é aquele realizado em condições de liberdade, equidade, segurança e dignidade, valores que a sociedade do cansaço constantemente nega (Han, 2015).
Dessa forma, a sociedade do cansaço traz à tona uma contradição: nunca se produziu tanto e nunca se adoeceu tanto por produzir. A transição da vigilância externa de Foucalt para a autoexploração descrita por Han mostra que o problema vai além das condições de trabalho em si, ele está na mentalidade que o capitalismo neoliberal constrói no indivíduo, ou seja, a crença de que o sucesso depende unicamente do esforço pessoal, e que parar quer dizer fracassar. Para mudar este cenário, não exige apenas reformas legislativas e políticas públicas voltadas à proteção trabalhista, mas uma transformação cultural, onde a recuperação do direito ao repouso, à contemplação e a vida fora do trabalho. Como afirmava Nietzsche, citado por Han (2015, p.20), “Por falta de repouso, nossa civilização caminha para a barbárie”, e humanizar as relações de trabalho é, portanto, resistir a esse caminho.
Referências:
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 1987.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2015.
ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO (OIT). Agenda do Trabalho Decente. Genebra: OIT, 1999.
