
Caira Queiroz, acadêmica do 7° semestre de Relações Internacionais
Poucos nomes alcançaram o reconhecimento global de Pelé, que considerado por muitos como maior jogador de futebol de todos os tempos, traçou sua trajetória ultrapassando os limites do esporte para se conectar com à história do próprio Brasil e à construção de sua identidade nacional projetada internacionalmente, sendo denominado globalmente como “rei” ao encantar o mundo com seus dribles e passes atemporais.
Nascido em 1940, na cidade de Três Corações (MG), Edson Arantes do Nascimento foi criado em um ambiente humilde, durante um período em que as desigualdades sociais eram ainda mais profundas no Brasil. Sua infância girou em torno do futebol, Edson era inspirado pelo legado de seu pai Dondinho, ex-jogador, e pelo apoio de sua mãe Celeste, ao improvisar bolas feitas de meias ou jornais para jogar futebol nas ruas, onde desenvolveu sua criatividade, habilidade técnica e visão de jogo (Kendall W., 2023).
Já o apelido “Pelé” surgiu descontraidamente durante uma brincadeira de infância, que inicialmente não gostou tanto, mas acabou se transformando em um dos nomes mais reconhecidos do planeta. Ainda muito jovem, seu talento chamou atenção do Waldemar de Brito, que o levou ao Santos Futebol Clube. Estreou profissionalmente em campo aos 15 anos, em 1956, destacando-se pela sua performance fora do comum: velocidade, leitura de jogo e improviso nunca visto antes (HistoriLand, 2025).
Desde então sua ascensão foi meteórica, no ano seguinte (1957) Pelé já era artilheiro do campeonato paulista, combinando velocidade, inteligência tática, força física e precisão nos chutes ao marcar impressionantes gols. Em poucos anos, tornou-se o principal jogador do Santos, época de ouro do clube na história do futebol ao conquistar diversos títulos nacionais e internacionais, incluindo a Copa Libertadores da América e o Mundial Interclubes (Frazão, 2022).
Mas o que marcou mesmo sua chegada definitiva ao cenário internacional foi sua convocação para a Seleção Brasileira de Futebol para disputar a Copa do Mundo FIFA de 1958, com apenas 17 anos. Segundo a própria FIFA (2025), em um artigo especial sobre a trajetória do jogador nas Copas do Mundo, até hoje o brasileiro foi o único homem tricampeão da Copa do Mundo da FIFA, o consagrando como “rei”. O artigo relembra os títulos conquistados em 1958, 1962 e 1970, ressaltando que tais auxiliaram na transformação do Brasil como ‘país do futebol’.
Dessa forma, é perceptível o quanto sua popularidade ultrapassou o esporte, chegando a se tornar símbolo da cultura brasileira e da excelência esportiva. Coutinho (2022) lembra que governos, chefes de Estado, artistas e líderes internacionais buscavam se encontrar com o jogador. Aborda também sobre a sua coletânea de fotos na Casa Branca em variados momentos e com presidentes diferentes, representando mais que o “soccer” dos estadunidenses, mas também representando o Brasil (Coutinho, 2022).
Após anos encantando o Brasil e o mundo com sua arte no futebol, em 1971 Pelé anunciou sua aposentadoria da Seleção Brasileira, e em 1974 do Santos. No entanto, não se desapegou do seu talento e retornou aos gramados no ano seguinte para atuar no New York Cosmos, contribuindo significativamente para o crescimento da modalidade no país. A despedida definitiva foi em 1977, diante de milhares de admiradores e ampla cobertura da imprensa mundial (Frazão, 2022).
O prodígio acumulou outros diversos feitos, dentre eles a sua marca de 1.281 gols em 1.363 partidas, ostentando a marca de artilheiro da seleção brasileira com 77 gols. Também foi eleito pela FIFA o maior jogador de futebol do séc. XX e, em 1980, ainda recebeu o título de Atleta do Século, pelo jornal francês L’Équipe (GOV, 2020). Após encerrar a carreira, Pelé ainda atuou como empresário, embaixador esportivo e defensor de projetos sociais. Também chegou a ser Ministro Extraordinário dos Esportes entre 1995 e 1998, período em que apoiou medidas voltadas à modernização da gestão esportiva brasileira, criando a “Lei Pelé” que visava principalmente dar maior transparência e profissionalismo ao esporte (Frazão, 2022).
Além disso, segundo Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos do Governo do Brasil (2020), Pelé esteve ligado à campanhas de educação, combate à pobreza e à promoção do esporte na inclusão social, em parceria com organismos internacionais como a Unicef, chegando a receber do órgão o título de Cidadão do Mundo (1977) e agraciado pela Unesco como Embaixador da Boa Vontade (1993).
Nesse sentido, a trajetória de Pelé pode ser analisada à luz do conceito de Soft Power, formulado por Joseph Nye (2004). Segundo o teórico, os Estados podem influenciar outros atores internacionais não apenas por meio do poder militar ou econômico (hard power), mas também através da atração exercida por sua cultura e valores (soft power). Nesse contexto, é inegável que Pelé foi um dos principais símbolos da projeção internacional do Brasil durante o século XX.
Coutinho (2022) chega a afirmar que “a diplomacia de Pelé deu à camisa amarela da Seleção um status de ‘passaporte diplomático’”, em que o jogador foi, talvez, o principal agente da transformação do futebol na dimensão universal, se transformando num poderoso instrumento de soft power. Já Chade (2022) complementa que Pelé foi “o maior embaixador do Brasil”, ao encarnar em seus dribles o reconhecimento internacional do que é ser brasileiro: ser o melhor do mundo.
Pelé faleceu em 2022, aos 82 anos, em São Paulo. Sua despedida gerou homenagens em todo o mundo, com manifestações de clubes futebolísticos,líderes esportivos, atletas e organizações internacionais (The Guardian Sport, 2022). Seu legado permanece não apenas pelos mais de mil gols marcados ao longo da carreira, mas também pela transformação que promoveu na forma como o futebol é percebido globalmente, ajudando a converter o esporte em um fenômeno cultural mundial.
Sua trajetória evidencia que o futebol não foi apenas um elemento esportivo na história do Brasil, mas também uma ferramenta de projeção internacional, até porque, como Coutinho (2022) afirma, “presidentes passam, enquanto os reis ficam”, e o reinado de Pelé se tornou universal e atemporal. Sua carreira é um baita exemplo de como o Soft Power pode ser exercido através da admiração cultural do outro, fortalecendo a presença de um país no cenário global sem recorrer à força.
REFERÊNCIAS
CHADE, Jamil. Pelé foi o maior embaixador do Brasil e forjou a imagem do país no mundo. UOL, 2022. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2022/12/29/pele-foi-o-maior-embaixador-do-brasil-e-forjou-a-imagem-do-pais-no-mundo.htm?cmpid=copiaecola.
COUTINHO, Leonardo. Pelé, o rei do soft power. Gazeta do povo, 2022. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/leonardo-coutinho/pele-o-rei-do-soft-power/
FRAZÃO, Dilva. Pelé. Ebiografia, 2022. Disponível em: https://www.ebiografia.com/pele/.
FIFA. Pelé, o único jogador tricampeão da Copa do Mundo da FIFA. FIFA, 2025. Disponível em: https://www.fifa.com/pt/tournaments/mens/worldcup/articles/pele-o-unico-jogador-tricampeao-da-copa-do-mundo-da-fifa.
GOV.BR. Pelé 80 anos. Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos do Governo do Brasil, 2020. Disponível em https://www.gov.br/arquivonacional/pt-br/canais_atendimento/imprensa/copy_of_noticias/pele-80-anos
GUARDIAN SPORT. Pelé, Brazil World Cup winner and football legend, dies aged 82. The Guardian, 2022. Disponível em: https://www.theguardian.com/football/2022/dec/29/pele-brazil-dies-football-legend.
HISTORILAND. Biografia de Pelé: do menino pobre ao Rei do Futebol. HistoriLand, 2025. Disponível em: https://www.historiland.com.br/2025/11/biografia-de-pele-do-menino-pobre-ao.html.
KENDALL W., Brow. Pelé. EBSCO, 2023. Disponível em: https://www.ebsco.com/research-starters/biography/pele.
NYE, Joseph S. Soft Power: The Means to Success in World Politics. New York: PublicAffairs, 2004.
