
Samilly Bianca Mendes Coelho, acadêmica do 4° semestre de Relações Internacionais.
Ficha Técnica:
Ano: 1998
Direção: Tony Bancroft e Barry Cook
Distribuição: Walt Disney Company
Gênero: Animação, Aventura, Ação e Musical
País de Origem: Estados Unidos
O filme Mulan, produzido pelo estúdio Walt Disney Pictures e lançado em 1998, pode ser interpretado como uma narrativa que ultrapassa o entretenimento infantil ao abordar temas como identidade, gênero, guerra e estruturas sociais patriarcais. Ambientado na China imperial, o longa-metragem acompanha a trajetória de Fa Mulan, uma jovem que desafia as expectativas impostas à mulher em sua sociedade ao assumir o lugar de seu pai no exército (Disney, 1998).
Assim, a partir de uma perspectiva feminista das Relações Internacionais, a obra permite refletir sobre como normas de gênero estruturam a participação das mulheres nos espaços de poder e segurança, ao mesmo tempo em que revela um processo de autodescoberta da protagonista.
No início da narrativa, Mulan busca se encaixar nos padrões sociais de sua sociedade, na qual o papel feminino está fortemente associado ao casamento e à obediência familiar. Nesse contexto, pode-se observar que há uma expectativa de que a mulher alcance honra por meio de um matrimônio adequado, evidenciando uma estrutura patriarcal que limita suas possibilidades de ação.
Porém, esse conflito torna-se evidente quando Mulan não consegue corresponder às exigências da casamenteira, revelando a tensão entre sua identidade individual e o papel social imposto. Dessa forma, a canção Reflection, presente na trilha sonora da película, reforça esse conflito ao dar voz aos questionamentos identitários de Mulan diante das expectativas impostas pela sociedade.
Outro elemento simbólico relevante neste processo é a metáfora apresentada pelo pai de Mulan, Fa Zhou, ao comparar a filha a uma flor que ainda não desabrocha plenamente. Tal metáfora representa a ideia de que o valor e o potencial de Mulan não são imediatamente reconhecidos pela sociedade, mas se desenvolvem no tempo certo, antecipando sua transformação ao longo de sua trajetória.
O ponto de virada ocorre quando seu pai é convocado para a guerra, mesmo estando debilitado. Diante dessa situação, Mulan decide ocupar seu lugar no exército, não por motivação nacionalista, mas por um impulso de cuidado e responsabilidade familiar. Essa decisão evidencia, sob a perspectiva da teórica feminista, Cynthia Enloe (2014), apresentada em “Bananas, Beaches and Bases”, obra na qual a autora demonstra como o espaço doméstico e o militar estão profundamente conectados nas Relações Internacionais, já que o cuidado e a família também estruturam decisões políticas e conflitos.
Durante seu treinamento militar, a música I’ll Make a Man Out of You entoada pelo exército chinês reforça a construção da guerra como um espaço associado à masculinidade. Dessa forma, a ideia de “transformar” recrutas em homens aptos ao combate evidencia que o valor militar é definido por normas de gênero socialmente construídas. Nesse contexto, a figura do capitão Li Shang representa a institucionalização dessa lógica militar masculina.
Shang inicialmente avalia os soldados a partir de critérios rígidos de disciplina e força física, reforçando um modelo tradicional de masculinidade militar. No entanto, ao longo da narrativa, sua percepção é gradualmente transformada pela competência de Mulan, evidenciando uma reconfiguração parcial dessas normas.
Paralelamente, os personagens secundários também desempenham papel fundamental na construção da identidade de Mulan. O dragão Mushu, embora inicialmente motivado por interesses próprios, torna-se um agente de apoio emocional e estratégico, auxiliando Mulan a lidar com suas inseguranças e decisões.
Já o grilo da sorte, Cri-Kee, funciona como símbolo de equilíbrio e esperança, reforçando a ideia de que pequenos elementos de apoio também influenciam grandes transformações. Em conjunto, esses personagens demonstram que a construção da identidade de Mulan não ocorre isoladamente, mas em interação constante com diferentes formas de orientação, apoio e conflito.
A trajetória de Mulan no campo de batalha demonstra que sua competência não está ligada à força física, mas à inteligência estratégica e à capacidade de adaptação. Em diversos momentos, ela identifica soluções que passam despercebidas pelos demais soldados, como no uso da avalanche contra o exército inimigo e na percepção de que a ameaça persiste mesmo após a batalha inicial. A teórica feminista Christine Sylvester, em sua obra “Feminist Theory and International Relations in a Postmodern Era” (1994), demonstra como as experiências evidenciam a importância de considerar as vivências individuais para compreender os conflitos internacionais, deslocando o foco das análises tradicionais centradas exclusivamente no Estado e nas estratégias militares.
No desfecho do longa-metragem, ocorre uma tensão entre diferentes formas de reconhecimento do poder. O exército chinês rejeita Mulan ao descobrir sua identidade feminina, reafirmando normas patriarcais que associam legitimidade militar ao masculino. Em contraste, Shan Yu, líder do exército inimigo, reconhece Mulan por sua eficácia estratégica, avaliando suas ações para além de sua identidade de gênero, o que evidencia uma lógica de reconhecimento centrada no desempenho militar e não nas normas sociais internas do Império Chinês.
Ainda assim, Mulan só é reconhecida pelo povo e pelo Imperador após salvar a China da invasão, momento em que sua contribuição se torna incontestável. Após esse reconhecimento tardio, ela é reabilitada socialmente e retorna ao convívio de sua família. Essa dinâmica evidencia que o reconhecimento da competência não é neutro, mas depende das estruturas culturais, políticas e de gênero que organizam cada sociedade.
Em síntese, Mulan apresenta uma trajetória de autodescoberta em meio a estruturas patriarcais. A protagonista rompe normas de gênero que limitam a atuação feminina nos espaços de poder. Assim, o filme evidencia que essas exclusões são socialmente construídas e reforça a ideia de que as mulheres podem ocupar qualquer espaço que desejarem, inclusive aqueles historicamente negados a elas.
Por fim, a obra cinematográfica destaca a importância da autonomia, da coragem e da autoafirmação na construção da identidade feminina nas dinâmicas domésticas e nas relações internacionais.
REFERÊNCIAS:
ENLOE, Cynthia. Bananas, Beaches and Bases: Making Feminist Sense of International Politics. Berkeley: University of California Press, 2014.
SYLVESTER, Christine. Feminist Theory and International Relations in a Postmodern Era. Cambridge: Cambridge University Press, 1994.
MULAN. Direção:Tony Bancroft; Barry Cook. Produção de Walt Disney Pictures, Estados Unidos, 1998. (87 minutos).
WILDER, Matthew (letra); ZIPPEL, David (melodia). Reflection. Intérprete: Lea Salonga. Local: RCA Records, Estados Unidos, 1998.
WILDER, Matthew (letra); ZIPPEL, David (melodia). I’ll Make a Man Out of You. Intérprete: Donny Osmond. Local: Walt Disney Feature Animation Florida, Estados Unidos, 1998.
