Foto: Reprodução/Patria Latina

Sofia Dias – acadêmica do 4° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

A conjuntura geopolítica da América do Sul, em junho de 2026, revela o fortalecimento de governos cujas políticas externas convergem, em diferentes graus, com os interesses estratégicos dos Estados Unidos. Considerando-se os doze países da região, incluindo as Guianas, observa-se que nove deles apresentam alinhamento político e diplomático com Washington, cenário que suscita reflexões acerca da permanência de estruturas históricas de dependência e das assimetrias de poder que caracterizam as relações entre o Norte e o Sul Global.

Nesse contexto, o conceito de colonialidade do poder, formulado por Aníbal Quijano (2005), revela-se particularmente profícuo para a análise, ao evidenciar a permanência de estruturas de dominação oriundas do colonialismo na organização política, econômica e epistemológica do sistema internacional. 

Para o autor, o fim formal das administrações coloniais não significou a superação das hierarquias construídas durante a expansão europeia, mas sim sua reconfiguração em novas formas de dependência e subordinação. Sob essa perspectiva, o alinhamento de grande parte dos países sul-americanos aos interesses estratégicos dos Estados Unidos pode ser compreendido não apenas como uma escolha diplomática conjuntural, mas como a reprodução de uma lógica histórica de dependência inscrita na própria constituição da modernidade capitalista (QUIJANO, 2005).

Os processos de ingerência estadunidense na região ilustram essa dinâmica de subordinação estrutural, evidenciando a persistência de relações assimétricas de poder entre centro e periferia. A operação militar conduzida pelos Estados Unidos em 3 de janeiro de 2026, que resultou na retirada forçada do então presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e de Cilia Flores do território venezuelano — caracterizada pelo governo da Venezuela, pelo governo brasileiro e por outros atores internacionais como um sequestro (UOL, 2026) — constitui um exemplo emblemático das limitações impostas à soberania dos Estados periféricos. Nesse sentido, o caso evidencia a permanência de condicionantes históricos que restringem a autonomia decisória da América do Sul e reforçam sua inserção subordinada nas estruturas globais de poder, corroborando a perspectiva de Quijano (2005) acerca da continuidade da colonialidade do poder.

Ademais, à luz do pensamento de Frantz Fanon (1968), observa-se que a manutenção dessas relações de dependência não ocorre exclusivamente por imposição externa, mas também por intermédio das elites nacionais. Em Os Condenados da Terra, Fanon argumenta que a burguesia nacional dos países pós-coloniais frequentemente assume o papel de intermediária dos interesses das potências centrais, reproduzindo internamente mecanismos de dominação herdados da ordem colonial. Tal interpretação mostra-se pertinente para compreender o alinhamento automático de determinados governos sul-americanos, que muitas vezes não decorre de uma deliberação amplamente compartilhada pela sociedade, mas da atuação de grupos restritos que concentram o poder político e econômico. 

Nesse contexto, a repressão aos movimentos sociais na Bolívia, marcada pelo emprego das forças de segurança para conter manifestações, pela autorização para utilização das Forças Armadas diante da escalada dos protestos e pelos confrontos com organizações sindicais, indígenas e camponesas (REUTERS, 2026), evidencia as tensões existentes entre os interesses das elites dirigentes e as demandas de parcelas significativas da população. Sob a perspectiva fanoniana, tais mecanismos expressam a atuação de uma burguesia nacional que preserva estruturas de dominação e limita a participação efetiva dos grupos populares na condução do projeto político nacional (FANON, 1968).

A compreensão dessas dinâmicas pode ser aprofundada por meio da contribuição de Michel Foucault (1987), especialmente em Vigiar e Punir. Embora o autor tenha desenvolvido suas reflexões a partir das instituições disciplinares modernas, suas formulações permitem compreender como as relações de poder operam para além da coerção física direta. Para Foucault, o poder produz subjetividades, moldando comportamentos, percepções e formas de compreensão da realidade. 

Sob essa ótica, o alinhamento aos interesses do centro hegemônico não se sustenta apenas por mecanismos econômicos ou militares, mas também pela internalização de discursos, valores e práticas que naturalizam a dependência e legitimam determinadas formas de inserção internacional (FOUCAULT, 1987).

Nesse sentido, o conceito de necropolítica, desenvolvido por Achille Mbembe (2018), possibilita compreender as consequências concretas dessas estruturas de poder sobre determinados grupos sociais. Dialogando criticamente com as formulações foucaultianas acerca do poder, Mbembe argumenta que a soberania contemporânea manifesta-se, sobretudo, na capacidade de decidir quem pode viver e quem deve morrer. Nessa perspectiva, populações indígenas, comunidades tradicionais, moradores de periferias urbanas, lideranças ambientais e movimentos sociais frequentemente tornam-se mais vulneráveis a processos de violência, exclusão e abandono institucional. A posição periférica ocupada pela América do Sul no sistema internacional contribui para a reprodução dessas dinâmicas, na medida em que interesses econômicos e geopolíticos frequentemente se sobrepõem à garantia de direitos e à proteção da vida (MBEMBE, 2018).

Por fim, o alinhamento às agendas neoliberais de comércio, caracterizadas pela intensificação da exploração de recursos naturais, pelo avanço do desmatamento e pela flexibilização de mecanismos de proteção socioambiental, bem como a ascensão de discursos neoconservadores que relativizam direitos fundamentais de grupos historicamente marginalizados, materializam na prática política contemporânea os mecanismos descritos por Mbembe. 

Em vista disso, a articulação entre a colonialidade do poder de Quijano, a crítica de Fanon às elites pós-coloniais, a análise foucaultiana dos mecanismos de disciplinamento e a necropolítica de Mbembe oferece um arcabouço teórico consistente para compreender as relações de poder que estruturam a América do Sul contemporânea e os desafios enfrentados pela região na busca por maior autonomia política, social e econômica.

Referências:

FANON, Frantz. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 42. ed. Petrópolis: Vozes, 1987.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais: perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005. p. 107-130.

UOL. Captura é sequestro e cruza linha do aceitável, diz Brasil na OEA. 6 jan. 2026. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2026/01/06/captura-e-sequestro-e-cruza-linha-do-aceitavel-diz-brasil-na-oea.htm. Acesso em: 28 jun. 2026.

REUTERS. Bolivia clears path to send troops onto streets to calm protests. 27 maio 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/americas/bolivias-paz-eases-state-emergency-declarations-amid-unrest-2026-05-27/. Acesso em: 28 jun. 2026.